sobre um porto seguro

ela era uma mulher belíssima. quando a conheci, fiquei boquiaberta. linda, divertida, inteligente, charmosa. eu achava que ela namorava meu amigo. mas eles não namoravam. ela tinha um namorado, e ele, meu amigo, era "o outro". o amante.
mas eles andavam tanto juntos que eu tinha certeza de que era uma cousa mais séria. mas um dia tudo terminou. e ele me explicou: ela tinha dito pra ele que o namorado dela era o porto seguro. apesar de ela gostar muito dele, "o outro". ao que ele disse "então vá pra puta que o pariu".
acho que não foram essas as palavras usadas por ele, mas foi assim que ele me contou o caso. vários anos se passaram, e ele está casado - com outra mulher -, tem um filho, e a que tinha o namorado como um porto seguro parece que também se casou, e teve três filhos.
toda essa história me veio à cabeça hoje, que é o meu dia de ficar horas no trânsito. fiquei pensando em como é desconfortável a sensação de estar pisando em ovos, e era assim que eu estava me sentindo hoje de manhã. onde estava o meu porto seguro?
e lembrei de quando tinha menos de 18 anos, e morava na casa dos meus pais. todos na casa tinham ido viajar, e eu tinha ficado em porto alegre. meu namorado dormiu lá, e quando eu acordei, eu estava sozinha. ele tinha deixado um bilhete. e eu não senti um vazio dentro de mim. eu senti um rombo, uma cratera.
é engraçado como é difícil conviver com as crateras que temos dentro da gente. e então tentamos colocar o vazio pra fora. queremos direcionar os vazios, como se alguém pudesse preenchê-los.
e, se tivermos azar suficiente, encontramos alguém para ser o nosso "porto seguro". e começamos a acreditar que esta pessoa pode nos dar segurança e nos fazer ter certeza de que estamos pisando em terra firme, não em ovos.
mas que horror. por que será que a coragem nos falta bem na hora em que devemos saber que os buracos de dentro serão sempre buracos, ora preenchidos, ora esvaziados? e que isso não tem a ver com ninguém além da gente?
num surto "meu deus eu nem sabia que existiam vazios" eu comi. parei de fumar os adoráveis marlboros (uau!, eu não sou mais viciada nem fedida!) e comi. agora não tenho mais o cheiro horroroso dos cigarros, mas posso ser confundida com uma grávida que está no final da gestação. ah ah ah. eu tô brincando. seria o meio da gestação, lá pelos cinco meses. ah ah ah de novo.
pois eu vou me concentrar e rezar e meditar pra não pensar num porto seguro. pelamordedeus. era só o que faltava.
quando eu achar que estiver pisando em ovos, vou andar bem, mas bem devagarinho. e quando o chão me parecer mais firme, vou sair correndo.

Comentários

  1. hum, ainda acho que ta mais pra romantismo melancolico do que pra show de calouros do silvio. nada contra, muitas belas pecas literarias se consagraram nesta mood. mas por que o abandono des orchidees?

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  2. que saudades!!! Bjs Rafa

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  3. paulinho,
    as orquídeas não foram abandonadas. e não há melancolia. eu acho. como vocês dizem antes de entrar no palco, merda! non?

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  4. que maravilha isso!

    "é engraçado como é difícil conviver com as crateras que temos dentro da gente. e então tentamos colocar o vazio pra fora. queremos direcionar os vazios, como se alguém pudesse preenchê-los.
    e, se tivermos azar suficiente, encontramos alguém para ser o nosso "porto seguro". e começamos a acreditar que esta pessoa pode nos dar segurança e nos fazer ter certeza de que estamos pisando em terra firme, não em ovos."

    Tita Berton, a sabida.

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