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desgrudando das melecas intrusas

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ela é jovem, linda, magérrima. mas por algum motivo que eu desconheço, sugeriu que fizéssemos uma dieta de desintoxicação. eu estava me preparando para isso havia meses. mas dietas de desintoxicação costumam ser medievais, e é preciso muita, mas muita coragem para começar.
eu tinha achado uma boa desculpa. minha filha queria fazer, e aventuras medievais em dupla costumam ser mais encorajadoras do que as feitas sem companhia. li para a minha filha as duas dietas que eu tinha separado, para que escolhêssemos uma delas. a mais fácil.
a ideia era ela fazer por uma semana, no máximo. eu seguiria um pouco mais. nos dois primeiros dias, eu passei muito mal, pela primeira vez em uma dieta dessas em que se come muito pasto, zero sal, zero açúcar, zero gordura e zero álcool. minha cabeça doía violentamente por algumas horas, entre o meio da tarde e o começo da noite. e no segundo dia, eu senti um enjoo que me fez lembrar as vezes em que, na estrada, indo ou voltando do trabalho, eu pensava que …

a vida solitária em dois atos

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era 2002. eu era casada e tinha acabado de dar à luz quando decidimos nos mudar para boston. meu então marido foi aceito num programa do MIT (massachusetts institute of technology). e meu filho e eu fomos de enfeite.
o alessandro passava o dia na universidade, ora no MIT, ora em Harvard, porque ele podia assistir todas as aulas que quisesse em ambas as escolas. e eu passava o dia com o pequeno joão. que tinha cinco meses quando chegamos.
foi uma escolha minha. na época eu tinha um trabalho que eu adorava, como editora na abril, ganhava bem e estava de licença-maternidade. claro que eu não tinha ideia do que me esperava em boston. na verdade, cambridge, a cidadezinha universitária que fica do outro lado do rio charles e que abriga tanto o MIT quanto Harvard.



eu era mãe pela primeira vez. tudo era novidade. e morar em uma cidade desconhecida, onde meu marido estudava e eu passava o dia com meu filho bebê, também era novo. eu estranhava passar o dia sendo a única pessoa que falava. meu p…

quarentena, meu amor, e o poder do UAU

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"se não estivéssemos na quarentena, você faria essa focaccia?', ela me perguntou.
a ideia de fazer um pão em casa veio da minha filha. fazia anos que não assávamos um pão. isso quem fazia era a nalva, minha querida ajudante que não trabalha mais aqui em casa há alguns anos, quase quatro.
eu tinha jogado no lixo uns pacotinhos de fermento biológico que eu encontrei no grande armário da cozinha na última arrumação que fiz. os fermentos estavam vencidos havia mais de dois anos. mas isso era fácil de resolver. qualquer supermercado vende fermento biológico seco.
encontrei uma receita que me animou, que não levava açúcar nem leite. e fiz a primeira focaccia da minha vida. aprendi que para um bom pão deve-se usar farinha de qualidade, orgânica e fresca. e não a farinha ordinária branca comprada no supermercado. meu medo que ia dar errado foi indo embora ao longo das horas que levei para fazer a receita. são 30 minutos para o fermento borbulhar, depois duas horas para a massa cresc…

quarentena, meu amor

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A aula começaria às 8h. Meu professor não é brasileiro. Ele é pontual. Moramos num apartamento ensolarado e bonito, mas que, com o passar dos anos, foi ficando pequeno. Quando viemos morar aqui eu tinha 35 anos, meu filho, 3, e minha filha, 11 meses. Isso faz 14 anos.




Assim que começaram as aulas em casa, antes de começar a quarentena determinada pelo governo do estado de São Paulo, meu computador passou a ser usado o dia inteiro. Meu filho estuda de manhã e à tarde. Assim, comprei uma máquina nova, para conseguir organizar os trabalhos da mãe e os estudos do filho. Nessas primeiras semanas, minha filha ainda não tinha aulas pelo computador. Ela só recebia lições e as fazia à tarde. Dividíamos a mesma máquina, eu usando de manhã, ela, à tarde. Mas passadas algumas semanas, e eu não sei quantas, porque nesta quarentena a minha falta de noção de tempo aumentou barbaridades, minha filha passou a ter aulas online também. Agora ficam os dois, um em cada canto da sala, sentados na frente…

a quarentena e a dor de barriga

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tenho repetido que não tenho medo do que está acontecendo. mas é mentira. eu tenho.
...
eu sinto dor de barriga. igual à dor que eu sentia quando eu era criança e não me sentia à vontade com algo, como ir dormir na casa da minha prima, cuja mãe falava alto e dizia muitos palavrões, o que na época eu achava muito assustador.
todas as sensações que eu tenho sentido, aliás, são infantis. sinto pouca fome, mas muita vontade de comer, tipo criança em frente à mesa do aniversário olhando para os brigadeiros e querendo muito pegar alguns, enquanto adultos dizem com uma voz insuportável que os brigadeiros devem ser comidos depois de cantar o parabéns - e a nossa vontade de pegar o brigadeira vai aumentando vertiginosamente.
também sinto raiva de ter de me adaptar ao que temos para o momento. não posso mais entrar no lugar em que compro verduras, porque os donos do pedaço concluíram que pessoas, mesmo que poucas (o resto fica esperando a sua vez na calçada), escolhendo suas alfaces é algo que …

quatro jeitos muito fáceis de sentir alegria em meio ao caos

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costumamos querer o que não temos. as frases gastas pra expressar isso são inúmeras. sim, tem a grama do vizinho, só pra dar um exemplo. e, como crianças mimadas, gostamos de escolher o que vamos fazer.
estamos todos em casa. e isso foi uma ordem. ficar em casa é bom, repousante, mas se for uma obrigação, não achamos graça. feito crianças mimadas, reclamamos, bufamos, temos a nossa ansiedade elevada, numa escala de 0 a 100, a 145, em média. eu ainda não me joguei no chão para bater a cabeça, imitando crianças em ataque histérico para conseguir o que querem com os pais, o que pode ser desde comer uma bala antes do almoço até dormir depois da hora combinada, passando por tentativas de não tomar o banho diário ou ir pra cama pulando a etapa de escovar os dentes. o nome disso é chilique. quem dá chilique ou tem menos de 8 anos ou é maluco.
mas agora, em época de quarentena, podemos todos dar chiliques. estamos fechados em casa. e ninguém vai ver. ora ora, não tem problema. mas se não pres…

o que fazer para não 'sofrer dos nervos' no claustro

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quando eu era criança, havia muitos adultos que sofriam dos nervos. assim é que se referiam a um diagnóstico genérico quando falavam de alguém que tinha essa tal doença, 'dos nervos'.
fiquei pensando nessa forma generalizada de se referir a pessoas que, imagino, ficavam mais nervosas do que os outros. e hoje, passada a primeira semana em que filhos começaram a ficar em casa em pleno mês de março por conta de uma pandemia, imagino que muitos de nós seriam, na década de 70, diagnosticados com a doença dos nervos.
gostamos de reclamar, nos acostumamos a reclamar e seguimos reclamando. agora, quando nos foi imposto o claustro, reclamamos mais ainda. mas eu queria poder deixar de reclamar e de integrar o grupo das pessoas que sofrem dos nervos e passar para o grupo dos que aproveitam o momento. porque isso é o que temos pra hoje. como?

1 - dormindo mais
mesmo que sigamos trabalhando, economizamos o tempo dos deslocamentos de ir e vir. luxo. dormir um pouco mais cedo, acordar um pouc…