sexta-feira, 19 de maio de 2017

uma dieta para parar você

eu lembro de ter feito duas dietas daquelas que se faz para emagrecer. a primeira, quando quis parar de fumar pela primeira vez (depois eu teria de parar de fumar mais uma vez). a segunda, quando quis ter um filho e achei conveniente engravidar magra (depois eu engravidaria outra vez sem fazer nenhuma dieta antes e fiquei gigantesca).
mas ao longo da minha vida tenho colecionado outros tipos de dieta. sigo o que os meus adoráveis médicos recomendam, e costumo ficar felicíssima. uns 20 anos atrás passei 40 dias sem carboidratos. depois faria isso algumas outras vezes. depois conheci uma dieta detox daquelas que perto da segunda semana a gente tem certeza de que vai morrer, mas não só não morre como ao fim da temporada com muito caldo de verdura sente-se revigorado, mais forte, sadio e magro, é claro.
desta vez repeti uma dieta duríssima, que apesar de durar só uma semana exige esforços hercúleos. da primeira vez, fiquei uma semana trabalhando em casa - tudo acordado no escritório, de forma que eu não sairia de casa de segunda à sexta daquela semana -, mas sem filhos. isso quer dizer que virei uma mulher das cavernas. saía de casa para uma rápida caminhada ao sol de manhã cedo, e depois passava o dia em casa, sozinha, trabalhando. como a ingestão de alimentos é pífia, eu ia dormir quando anoitecia, e acordava quando amanhecia. quando terminou aquela semana e eu saí de casa para comprar tofu e voltar a comer (quase) normalmente, me senti um ser extraterrestre, fiquei tonta com o barulho dos ônibus e voltei pra casa meio apavorada.
mas desta vez o cenário era diferente. 1- eu estou desempregada, portanto minhas atividades diárias são procurar trabalho e fazer tudo o mais que uma pessoa que mora com dois filhos faz durante o dia. 2 - os meus filhos estariam em casa, iriam pra escola todos os dias e dela voltariam.
a oportunidade era imperdível. quando eu trabalho demais não há como fazer essa dieta. e eu estava aflita com a possibilidade de pegar muitos trabalhos ao mesmo tempo e ter de dizer bye bye dieta. então, corajosamente, segunda-feira comecei meus rituais detox. 
hoje foi o último dia - ou melhor, está sendo. costuma ser o pior de todos (costuma não. tinha sido o pior de todos da outra vez). mas desta vez não foi o pior de todos. uns dias foram ruins, outros foram bons, mas ontem eu acordei morrendo de medo e pensei em desistir. 
fazer dietas medievais com filhos dentro de casa é um desafio. aliás, sempre é um desafio ter filhos dentro de casa. lamúrias à parte, eu tentei não expor os meus filhos a detalhes desnecessários. então eles sabiam que eu estava sem fazer refeições e por isso não sentava com eles à mesa. e sabiam que como eu não estava comendo (eu só estava bebendo), não iria cozinhar muito pra eles. 
ou seja, uma insanidade. uma pessoa que não vai comer fica fazendo comida e lavando louça. e pensando no que vai oferecer pros filhos na refeição seguinte. e colocando pão e geleia na mesa para o café da manhã (deles).
fiquei intrigada, pensando em por que raios uma pessoa tem uma ideia dessas que eu tive. e acho que descobri: faço dietas para parar. ou melhor, para diminuir drasticamente a minha velocidade. dietas mudam o ritmo da gente. fazem a gente não fazer nada no automático, porque tudo está diferente. você não tem como fazer tudo o que faz quando está em casa se está hospedado em um hotel. numa dieta é a mesma coisa. tudo é diferente. 
ao mesmo tempo em que fui me transformando de novo na mulher das cavernas, tinha minhas meditações interrompidas pelos gritos dos meus filhos discutindo quem ia tirar ou por a mesa, quem tinha deixado não sei que luz acesa, quem ia fechar a janela. o que era pra ser uma espécie de retiro, mas dentro da própria casa, às vezes parecia uma prisão num lugar de loucos. mas isso também faz parte, a paciência e a tentativa de fazer coisas que são quase uma insanidade para uma mãe com dois filhos dentro de casa. e no meio de tudo isso terminei de ler quatro livros em cinco dias. havia muitos anos que eu não lia tanto.
amanhã vou ter um café da manhã farto (tofu com couve e broto de alguma coisa), e um almoço com arroz, depois de uma semana sem ingerir sólidos. terei de dirigir, também, depois de uma semana. a vida vai voltando ao normal, assim como voltará quando eu estiver trabalhando de novo. 
resumo de ópera: sobrevivi. mas agora vem o mais difícil: seguir lenta, calma, num ritmo são, mesmo com o barulho lá fora e com os gritos dos dois aqui dentro.  

terça-feira, 9 de maio de 2017

as dores do chute na bunda

boa sorte. um bom novo trabalho. volte logo.
assim se despediu o pequeno e enrugado médico do trabalho com quem eu fiz meu exame demissional - e que também tinha feito o meu exame admissional e um outro entre esses dois.
ser demitida é chato. fazer o exame demissional é chatíssimo. eu estava naqueles primeiros dias de demitida, me esforçando pra fazer cara de quem NÃO levou um chutão na bunda. requer esforço e elegância.
mas eu achei tão doce a frase do médico que saí feliz da vida daquele cafofo onde todos os dias dezenas de pessoas vão fazer algum exame relacionado ao trabalho.
depois da tontura da primeira semana, me dei conta de uma coisa que eu já falava, mas precisava sentir: todo pontapé que levamos é bom, mesmo quando achamos ruim. a vida vai nos chutando e a gente vai sendo arremessado pra frente. até porque na vida não tem pra trás: não podemos voltar, só ir.
e hoje, mais de um mês depois, me dei conta de outra coisa: que quem fala que é bom "sair da zona de conforto" possivelmente tem uma vida beeeeeeeem cheia de conforto estabilidade posses e mimos, e diz o que diz porque acha que isso é bacana, traz uma imagem de wow-você-é-mesmo-descolado.
quem gosta de desconforto? quem gosta de não saber quanto vai receber em um mês - e SE vai receber, porque se não trabalhar não vai receber nada? quem gosta de não saber se vai ter dinheiro na conta no dia que vencer a mensalidade da escola dos filhos?
não conheço.
e sem rodeios, a verdade é que é muito duro viver. com ou sem trabalho, com ou sem filhos, com ou sem dinheiro. não existe um modus vivendi mais fácil - para desapontamento de personnal coachers (será que é assim que se escreve?) e magos da felicidade. e é aqui que entra outra descoberta minha após o chute na bunda: se o que temos para hoje é um dia de ócio, lá vou eu vivê-lo.
devemos vir com algum defeito de fabricação pra pensarmos que a vida sem um emprego é uma vida vã. que quem não vai pro escritório não tem o que fazer e fica deprimido. que procurar trabalho é uma atividade enfadonha.

quem não vai pro escritório pode fazer quiabos crocantes para o almoço!

o ócio pode ser uma fonte de alegria gigantesca. procurar trabalho pode ser divertido e animador, afinal, se você for bom nisso, você vai almoçar ou tomar café da manhã ou sair pra jantar ou só pra tomar um café com muitas pessoas legais, que você às vezes não via fazia muito tempo. ou pra quem você nem dava muita bola. é sempre bom mudar a perspectiva do olhar para também mudar os velhos e tão chatos pontos de vista.
mas gastar dinheiro sem estar recebendo um salário? o quêêêê?
sim. faz parte da alegria de estar desempregada - ou mais politicamente correto "em situação de ócio", ah ah ah.
graças à maternidade tenho alicerces pesados que me ligam à realidade concreta e me impedem de ir pra grécia passar uns dias mergulhando, ou à nova york para passar uns dias comprando. ou visitar minha amiga no sul da bahia e comer muito peixe fresco.

vista do começo da subida do rio em itacaré (BA), numa tarde de segunda-feira.

nesses dias de procura por frilas e fixos, descobri pessoas queridas, e outras gentis, que me mandam links como vagas de trabalho. descobri também pessoas fuçando no meu linkedin, de onde sempre desconfio que nunca sairá nenhuma oportunidade legal de trabalho.
você gosta de trabalhar ou você precisa trabalhar?, ela me perguntou.
eu fiquei olhando, pensando que se eu dissesse "os dois", talvez a minha resposta fosse de baixo impacto, e eu queria que fosse uma resposta de alto impacto. quieta, respirei, e saiu da minha boca um nada lisonjeiro "sou mãe solteira".
fim de papo. ela ficou impressionada. eu nem queria tanto, mas a frase escapou antes que eu pensasse em algo melhor pra dizer.

casinha remanescente em pinheiros. pessoas demitidas andam muito.



segunda-feira, 1 de maio de 2017

lidando com a (própria) sujeira

um fim de semana grudado com um feriado na segunda-feira e com uma greve geral na sexta-feira é um fim de semana longo. 
depois de uma sexta-feira gloriosa - sim, a greve rolou; não, eu não fui à manifestação; sim, eu tenho vergonha da cobertura jornalística feita por quase todos os veículos; e não, eu não consegui lavar roupas na lavandeira porque ela estava fechada! -, acordei sábado com a certeza de que a minha adorável faxineira chegaria a qualquer momento. mas este momento não chegou. ainda que na minha casa já tenhamos passado daquela fase em que se não tem alguém para limpar arrumar guardar a casa fica parecendo um campo de guerra, as vindas da ana a cada 15 dias deixam a nossa casa de um jeito que nós não conseguimos. usamos vassoura e sapólio, mas a ana usa cândida e álcool...
eu conheci a ana mais de 20 anos atrás, quando ela limpava a casa onde eu morava com meu ex-marido. depois nunca mais tive dinheiro para ter uma faxineira, mas ela era um anjo da guarda que aparecia em horas difíceis, como quando a santa nalva tirava férias de 30 dias, eu seguia trabalhando e meus filhos estavam comigo DURANTE AS FÉRIAS ESCOLARES deles, não minhas.


montanha de roupas sujas socadas no cesto

liguei pra casa dela algumas vezes, mas estava sempre ocupado. e como a ana é dessas pessoas raras, que não usa celular, eu não tinha mais o que fazer senão partir pra luta. lavar a louça, varrer a casa, lavar banheiro e, oh my god, começar a lavar a roupa suja que aguardava no cesto fazia quase duas semanas, desde que a minha lavadora tinha quebrado. mas a minha máquina nova tinha acabado de ser instalada. wow!
o dia estava cinza e fazia frio. eu estava desapontada em ter de trocar passeios de bicicleta por uma faxina meia-boca que eu mesma teria de fazer. em algum momento na minha vida de menina mimada (provavelmente quando nasci) me acostumei com alguém arrumando e limpando a casa onde eu morava. e o caminho para se acostumar a arrumar e limpar a própria casa é longo - e feliz também.
...
no domingo duas amigas viriam em casa para fazermos um almoço alemão. mas eu tinha de fazer a sobremesa antes. enlouqueci e resolvi fazer uma receita que eu nunca tinha feito, uma nusstorte. a receita, austríaca, é de um livro de receitas maravilhoso da rosa belluzzo, prima do meu ex-marido (cozinha dos imigrantes).  


o pão de ló com chocolate meio amargo ralado e nozes picadas
 
a calda 
as nozes para a decoração
aha! a torta 
eu adoro ter amigos na minha casa. mas dessa vez foi mais adorável ainda, porque o gustavo era o nosso convidado especial. ele veio para o primeiro evento social da vida dele fora da barriga da mãe. 

lívia distrai o pequeno gustavo enquanto as mulheres se divertiam na cozinha 

e entre uma chorada e outra, troca de fralda e mamadeira, e uma ida ao supermercado para comprar vinhos, fizemos um almoço espetacular. goulasch com spätzle. a paula, cozinheira-chefe do nosso almoço, nunca tinha feito goulasch. então dividimos, eu fiz a carne, ela fez a massa.
o gustavo resmungava, a paula dizia que assim não ia dar pra fazer o almoço, e eu pensava em voz alta que não tínhamos pressa. 
...
a paula é mãe solteira, uma mulher brava e corajosa. a judith não tem filhos biológicos, mas tem uma enteada e convive muito bem com as amigas que são mães. 
juntar amigos na cozinha é sempre uma alegria. talvez por isso a minha cozinha seja muito frequentada - ah ah ah, frequentada parece coisa de clube, "o clube é muito bem frequentado". 
poder falar sobre a nossa vida enquanto comidas são preparadas no fogão é bom. do que está bom e do que está ruim. do que temos feito e do que temos de fazer. 
eu estava com a boca cheia de água para picar as dez cebolas que eu tinha de picar quando escuto o seguinte: "nesta semana eu me senti muito incompetente. e ainda bem que a tita está com a boca cheia de água porque ela não vai poder dizer nada". eu seguia com a boca cheia de água picando as cebolas e ela seguia explicando como foi horrível chegar a uma visita atrasada por conta de um pau no computador. chegar a um encontro com amigas atrasada por conta de um cliente insano, ter o computador quase morto mas conseguir fazê-lo voltar à vida sozinha, esquecer do imposto de renda e se sentir muito incompetente. e então ela disse o melhor de toda a história: que resolveu fazer UMA coisa de cada vez durante a semana. 
comemos muito, falamos muito e o almoço acabou quando já era noite e todas tínhamos falado de como era especial ter esses encontros.
...
o fim de semana longo de quatro dias vai terminar hoje. para o almoço terei um maravilhoso goulasch. e de sobremesa, a torta de nozes, fabulosa, que me fez pensar tanto na minha mãe, que amava e sabia fazer tortas inesquecíveis. 
finalmente fui cuidar da minha horta, colocar terra nova, adubo, cortar galhos secos, trocar algumas plantas para vasos maiores.

o alecrim, que é vizinho de vaso do manjericão, cuja sombra aparece na parede

eu não sou dessas que cuida muito bem da horta. só cuido bem. 
enquanto eu cortava com uma tesoura os galhinhos secos do manjericão e pensava que uma das abelhas gorduchas que sobrevoavam por ali poderia me picar, percebi que mexer na minha pequena horta me faz não pensar em nada. ops! sem palavras para descrever.

o capim cidró da horta que eu nem cuido com tanto afinco
lembro agora da conversa de ontem na cozinha. "o que você está fazendo?" eu terminei um frila. e não tenho nenhum outro. então eu vou ter de ir atrás de trabalhos. 
e em vez de sentir falta de ar, eu sinto uma alegria enorme. enorme mesmo, não estou exagerando. acho muito massa poder ir atrás de trabalho. acho que bons trabalhos podem - e vão - surgir.
bom fim de feriado.
:)



sexta-feira, 28 de abril de 2017

tentando ver o lado bom

ia acordar às 5:30 para meditar ANTES de sair do meu quarto e começar a corrida desenfreada do dia. mas antes de o despertador tocar eu acordei e mudei o horário para as 6:30. afinal, um dia sem meditar logo cedo não é tão mal assim.
hoje é dia de greve geral. eu não tenho ideia de como está o mundo lá fora, porque ainda não saí de casa. mas acabei marcando dois compromissos logo cedo. meu adorável faz-tudo viria às 7h para instalar a minha linda lavadora de roupas. e eu faria uma chamada de skype com um cliente para validar trechos do arquivo do livro dele que eu revisei.
saí da cama às 6:30 e fui voando pra cozinha arrumar a zona. ainda que o joel sempre atrase, eu não gosto nem de me atrasar nem de deixar visível que a minha casa está um caos, passados 15 dias que a ana veio limpá-la. tampouco gosto de tomar café da manhã correndo, :(
e então, lentamente, lavei toda a louça, preparei uma sopa para garantir o que comer no almoço e finalmente preparei o meu maravilhoso café da manhã que há meses mais parece um almoço do que um café porque não como mais cardoidratos na primeira refeição do dia.
o tempo ia passando, e eu, vestida, cozinha limpa, pensava ah, tudo bem o joel atrasar um pouco, afinal eu já arrumei tudo e já tenho até uma sopa pronta para o almoço, e ah, como é legal não ficar aflita e ir fazendo as coisas que têm de ser feitas.
esqueci de dizer: HOJE também é o dia que a ana vem na minha casa e a transforma num lugar limpo, arrumado, cheiroso e irreconhecível. ela vem uma sexta sim, outra não. e HOJE é a sexta-feira sim. mas hoje tem greve e os ônibus e os trens e os metrôs pararam em são paulo. isso quer dizer que a minha casa, descontando a pia da cozinha, tá uma pocilga.
enquanto eu ia comendo o meu café-da-manhã-que-parece-almoço e achando muito divertido o fato de eu estar aprimorando meus dotes culinários (cebolas refogadas no óleo de coco com pimentão e cogumelos, e queijo tipo camembert meio ordinário por cima de tudo), o joel me manda uma mensagem dizendo que "nem sequer" saiu de casa. hum, eram 8h, ele tinha de chegar às 7h, e eu pensei que bem que ele podia ter me dito isso às 6h30. mas pra quê?
saí da cozinha e avisei meu filho que ele não ia nem triscar no meu computador pra jogar, porque eu tinha uma reunião às 9h e precisava usar a máquina um pouco antes disso.
chego feliz à grande mesa da sala onde jogamos estudamos comemos e trabalhamos e começo a arrumar o meu escritório móvel. uma canequinha de café, um copo de água, o telefone sem fio da casa, o celular, minha agenda, umas folhas para a minha reunião. piiiim, toca o whatsapp. meu cliente acordou mega gripado e oh-oh, a reunião será remarcada para depois do feriado.
eu senti um frio na barriga quando, esta semana, os noticiários da rádio começaram a dizer que a greve geral seria grande. minha amiga que vai a manifestações me alertou: se eu não quisesse ir a nenhuma, que pelo menos ficasse em casa e não saísse - um adesão tímida à greve, sugeria.
eu pensei meu deus, mais um feriado? eu vou é viajar! mas um dia depois da minha animação repentina pensei que seria ótimo ficar em casa e resolver tantas coisas domésticas, como a minha máquina de lavar - a velha quebrou faz OITO dias e a nova que precisa ser instalada chegou faz TRÊS, o que significa que a pilha de roupas sujas já é uma montanha que transborda o gigantesco cesto de roupas sujas da casa. também pensei nas estradas paradas hoje e me senti uma tola, fiquei com medo e fiquei em são paulo.




quer saber? vou agora à lavanderia "tipo as que têm na europa e nos estados unidos", como me informou por telefone a dona do lugar, colocar pra lavar a montanha de roupas da família. e depois vou aproveitar pra passear de bicicleta e curtir não ter quase nada pra fazer.
mentira. há gavetas entupidas de papéis na minha casa, e eu preciso dar um jeito nelas. arrumando ou não as gavetas, vou aproveitar o ócio e esses longos quatro dias para não fazer quase nada.
"e a sua reunião, o cliente já entrou?", pergunta meu filho, do sofá. "não, ele cancelou, está doente." "ele cancelou? ótimo!" e lá vai ele jogar um jogo bizarro que meninos adoram jogar no computador - e cujo significado e motivo de alegria eu não entendo.

segunda-feira, 20 de março de 2017

surtando

os dias vão passando e eu vou fazendo de conta que não preciso escrever. vou colecionando pedacinhos de papel - uma folha A4 cortada ao meio, uma folha do bloco de algum amigo, um post it pequeno, um post it grande, uma folha colorida de um bloco infantil. vou anotando e enfiando os papéis na agenda, na carteira, soltos na bolsa, numa pasta com minhas infindáveis listas.
mas a vida nos mostra o que precisamos ver. e hoje eu vim dirigindo de volta pra casa chorando, me sentindo uma pobre coitada, e anotei num post it pequeno e amarelo: eu sou muito quadrada.
esse era pra ser o título deste texto. eu sou muito quadrada. só porque eu falo palavrão, dou gargalhadas, tenho os cabelos não penteados, acho difícil me vestir com decência e falo o que penso, ninguém olha pra mim e pensa meu-deus-que-pessoa-quadrada!


mas acho um horror ter os cabelos tão revoltos, usar confortáveis botas masculinas de couro de uma fábrica gaúcha, ter rugas, ser grisalha, estar gorda, morar sozinha com os meus filhos mais ou menos desde que a minha filha nasceu. acho um saco não me acostumar a usar batom vermelho, ter medo de não ter dinheiro, dar gritos com meus filhos só porque a louça do almoço jaz imunda sobre a pia e a sala parece um circo sendo desmontado. tenho medo de não conseguir pagar todas as contas que uma pessoa tem de pagar no mês, como a da água a da luz a do condomínio e a da escola das crianças. tenho medo de não ser uma mãe amável. tenho medo de amar pouco. tenho medo de morrer.
eu sou quadrada, e há uns dias eu sou uma quadrada surtando.
dinheiro a receber em atraso, dinheiro seu confiscado, tela do celular quebrada, filha mudando de escola. mudanças no trabalho, a vizinha me chamando pra um trabalho sobre arte, o médico me falando b-a-r-b-a-r-i-d-a-d-e-s a respeito do climatério. noites mal dormidas, videogame sinistro do filho, vontade de fumar um marlboro que há anos eu não fumo.
peguei a caixa das cartas de cima do armário. resolvi abri-la, e comecei a ler uma por uma. arrumar a caixa das cartas deveria vir com prescrição médica. amigos e amigas sumidas, a mãe morta, o ex-marido que escrevia coisas lindas que ninguém jamais vai escrever novamente - pelo menos não para mim, porque declarações de amor absolutamente maravilhosas devem existir somente uma vez na vida de cada um, eu acho. fui rasgando cartas bobas, chorando com cartas lindas e me chocando com cartas esquecidas, como o cartão chinês vermelho com dourado, belíssimo, que meu médico acupunturista me mandou em algum momento e cuja existência eu desconhecia (um dia eu li este cartão, mas isso não estava registrado no meu coração).
as pessoas me ligam e perguntam se está tudo bem e eu digo claro está tudo ótimo. e como se anjos voassem ao redor dos ouvidos delas e assoprassem algo como "mas pergunta se tá tudo bem mesmo", elas repetem a pergunta, e eu respondo sim tá tudo andando as crianças estão bem e eu também obrigada tchau. mas eu tenho me esforçado muito para responder isso e para dormir e acordar todos os dias e NÃO SAIR PELADA GRITANDO PELA RUA.
pronto falei.


medito, medito mais um pouco e mais um pouco ainda.
hoje escutei o seguinte: "é preciso ter inteligência emocional para manter o equilíbrio". mas se a inteligência não for emocional, o que ela será?
uma mulher em surto é algo assustador.
deus esteja.


quinta-feira, 9 de fevereiro de 2017

o mundo que nós mostramos aos nossos filhos

- mãe, a cata pode ir em casa?
era pouco antes do meio-dia, e a mensagem apareceu na tela do meu celular e, acho que por instinto, eu vi na hora que era da minha filha. de manhã é o horário em que ela está na escola e onde, evidentemente, o uso de aparelhos celulares não é permitido.
perguntei do que ela estava falando, e COMO estava falando comigo se estava na escola, em horário de aula. ela estava no banheiro - possivelmente escondida para mandar as mensagens pra mim e conseguir resolver a tarde de hoje.
já estava combinado que a laura, uma colega da lívia, viria com ela pra casa hoje. elas voltariam de ônibus. e almoçariam e fariam a lição e brincariam, e eu chegaria em casa no fim da tarde. mas agora os planos estavam mais ambiciosos: tinha uma segunda amiga e um pedido de ir ao cinema. cinema?
- sim, mãe, a gente vai depois de fazer a lição. purf purf.
- NÃO.
é difícil dar essa resposta quando a pergunta vem de uma menina tão doce como a lívia. mas eu não ia enrolar nem pensar nem ser suave na resposta. não iriam ao cinema porque 1 - voltar de ônibus COM AMIGAS é uma aventura; 2 - almoçar com amigas em casa SEM A MÃE é libertador e 3 - hoje é um dia de semana e amanhã tem aula.
em poucas mensagens eu disse que a cata poderia vir em casa, desde que a mãe dela deixasse. a mãe dela deixou, depois de falar com o marido, e eu a avisei que precisava de 5 reais para o ônibus. a cata ficaria muito feliz, me disse a mãe dela, porque seria a primeira vez que andaria de ônibus só com as amigas.
fui recebendo reportes da lívia. liguei pra saber se já tinham chegado em casa, depois recebi uma mensagem "estamos indo ao shopping", que respondi "mas é pra ir e voltar logo", ao que a lívia escreveu "só vamos tomar um chá e já voltamos". eu estava em reunião, e me senti um picolé derretendo ao vento nas mãos de uma criança em êxtase na beira da praia. mas eu estava na reunião e fiquei quieta, mantive a compostura, e fiquei com o coração explodindo de alegria por ser mãe.
ao chegar em casa, e já sabendo que as três já tinham tomado chá no shopping e estavam a caminho da academia (!), encontrei uma pia entupida de pratos talheres panelas e uns macarrões parafuso que jaziam no fundo de tudo isso.
aha!, pensei, ANTES DE FICAR FURIOSA. elas não comeram o arroz nem o feijão que estava na geladeira, tampouco a salada de alface ou as cenouras. elas cozinharam macarrão e, de sobremesa, brigadeiro, cuja panela estava sobre o fogão, com uma colher de pau lambuzada dentro.
eu lavei tudo, porque sou do tipo que janta e era impossível pensar num jantar com uma pia nojenta. e comecei a rir quando me dei conta da lindeza que deve ter sido o almoço das três, que solenemente ignoraram a comida pronta que estava na geladeira e preparam um macarrão!
pensei na coragem dos pais que deixam seus filhos voltarem de ônibus com os meus. a escola é longe de casa. o ônibus percorre uma estrada. em casa não temos ninguém para nos ajudar, portanto as crianças colocam a mesa e preparam o almoço e tiram a mesa e lavam os pratos (ups, hoje a rotina foi quebrada).
fiquei pensando na alegria dessas crianças que têm pais que têm coragem. em cima da mesa da cozinha encontrei RG da cata e certidão de nascimento da laura. sim, elas vieram com documentos. que lindeza.
a vida foi gentil o suficiente comigo para me fazer criar filhos para o mundo. eu já acreditava nisso em teoria, e quando tive meus filhos a crença virou o nosso dia a dia. criar filhos é um ato de coragem e um ato de amor, que no fim são a mesma coisa.
eu sempre acreditei que o mundo era belo. não, isso não é piegas. eu não conseguiria criar meus filhos se não enxergasse um mundo belo diante de mim. e assim foi desde sempre. o joão tinha febres homéricas, o pai dele ficava tenso, e eu tinha uma calma quase estranha pra uma mãe de primeira viagem. depois eu viajava sozinha com os meus filhos pequenos e tinha certeza de que as coisas andariam a contento.
mas o que seria "andar a contento"? acho que é dar conta. não quer dizer que tudo será lindo e perfeito, mas que vamos dar conta do que a vida nos traz. e então aprendi a fazer viagens longas de carro sozinha com as crianças. aprendi a deixá-los atravessar a rua e comprar figurinhas na banca. aprendi a ensiná-los a pegar o ônibus. aprendi a ouvir quando ELES estavam prontos para andar de ônibus sozinhos.
ter filho dá dor de barriga. e dá alegria também. e acho que as duas coisas vêm juntas, como a coragem e o amor.
eu tenho gratidão por ter tanta alegria e tanta dor de barriga na minha vida. vai ver é por isso que não consigo mais andar de montanha-russa. tenho emoções suficientes pra achar um horror andar num carrinho daqueles.

segunda-feira, 2 de janeiro de 2017

inéditos

viajar combina com frio na barriga. e com lugares inéditos. pro viajante, é claro.
não é preciso ir até o fim do mundo para pisar em solo desconhecido. às vezes não conhecemos o café que fica na esquina da nossa casa, nem o nosso vizinho de porta.
mas eu SEMPRE acho que os lugares inéditos ficam no fim do mundo. e hoje viemos pro fim do mundo.
desde criança - e tem uma foto em que meu irmão é carregado num cesto de vime pelos meus pais para provar -, minha família viaja pra serra gaúcha. parece que tudo começou com o meu avô, que sendo alemão, adorava um mato e um ar fresco, que eram encontrados na serra nos meses de calor insuportável. minha mãe passava férias em são francisco de paula, e depois meus pais passavam fins de semana comigo e com meus irmãos no mesmo hotel.
mas teve um dia em que o hotel estava lotado, e fomos atrás de pouso em gramado ou canela, e meu pai resolveu mostrar pra gente o prédio onde um amigo tinha acabado de comprar um pequeno apartamento. e nesse mesmo fim de semana em que não tínhamos encontrado vaga no adorado veraneio hampel, adoramos o prédio onde o amigo do meu pai tinha comprado o tal apartamento e em algum momento depois disso meu pai também comprou um pequeno apartamento. vínhamos muito pra gramado. nos divertíamos muito. caminhávamos, comíamos bem, eu fazia tricô e acho que jogávamos. 
depois que fui embora do sul para morar no sudeste do país, vim pouco pra gramado. uma vez com um namorado, outra vez com o pai dos meus filhos, que na época também era meu namorado. mas depois que meus filhos nasceram, comecei a vir pra serra passar a páscoa ou uns dias depois do natal. mais tarde, meu filho viria com os avós, durante as férias que ele mais amava: sozinho, sem a mãe nem a irmã, na casa do nonno e da vovó em porto alegre.
e todas as vezes em que descíamos em direção ao sul do país, nos faltava tempo para conhecer novos lugares. mas isso acabou hoje.
depois de passarmos alguns dias em porto alegre e gramado com a família, partimos na nossa aventura particular, só a minha pequena família, desta vez aumentada com a minha filha japonesa adotada por uns dias, a Cintia. 
viemos conhecer os cânions entre o Rio Grande do Sul e Santa Catarina. onde há dois parque, o da Serra Geral e o dos Aparados da Serra. 
escolhi o caminho com estrada de terra, porque acho muito chato pegar o caminho mais longo e mais asfaltado. a distância é pequena: 119 km a partir de Gramado, onde estávamos. eu fico intrigada pensando por que eu NUNCA tinha vindo até aqui, mas não encontrei a resposta.
uma estrada linda, uma pista vai, a outra, vem. um acostamento tomado pelo verde. e uma sinalização pífia, quase inexistente. 
algumas paradas depois - uma numa ruazinha de Canela, outra num posto de gasolina em São Francisco de Paula e uma última numa entroncamento para falar com um motoqueiro -, e pegamos a "estrada de terra que não está muito boa, mas pode vir por ela com um carro que não seja muito baixo e durante o dia, de preferência", diziam as instruções do pessoal da pousada.

assim é a estrada de terra, versão lisa e sem cerração

íamos felizes, eu e meus três companheiros, quando a estrada ficou tomada de névoa. aqui no Sul chamamos cerração. uma neblina louca, linda e assustadora. eu, que ia a 30 km/h, ou a 40 km/h quando a estrada ficava menos pedregulhosa, passei a andar a 10 km/h. eu olhava no painel a via que ainda faltavam 20 km pra chegar, depois 10 km. era muito lento e eu tinha de prestar muita atenção para ver a beira da estrada e me manter na pista. 
um ou outro carro cruzava por nós, e todos me pareciam carros de moradores locais, menores que o meu e com motoristas mais destemidos e, aparentemente, mais experientes do que eu. de repente percebemos que atrás do nosso carro vinha outro. que foi nos seguindo até eu chegar num ponto da estrada em que eu não enxergava nada. parei, o carro que vinha atrás parou ao meu lado, e eu perguntei pra onde eles iam. estávamos indo na mesma direção, mas eles iriam um pouco além da nossa pousada. eles então foram na nossa frente e eu tive a certeza de que anjos existem. 
a partir do momento em que eu tinha um carro para seguir, a estrada foi ficando cada vez pior, com pedras grandes e muitos buracos, e placas que até então não existiam na beira da estrada diziam "cuidado, penhasco, risco de morte". 

nesta foto dá pra ver o que eu via (e não via) da estrada

nosso medo que me fazia dar umas gargalhadas insanas dentro do carro já tinha aliviado, e eu ia dizendo pros meus filhos que viagens têm graça quando dão frio na barriga, quando não sabemos o que vamos encontrar, quando o desconhecido nos surpreende. essa é a parte bonita, porque eu já tinha falado que eu nunca mais voltaria aqui, e que ninguém jamais me disse que nos cânions o tempo é instável e a cerração, assustadora.

o carro que me seguiu e depois me guiou na cerração 


vimos uma placa velha, torta e descascada, com o nome da pousada. e de repente, sem mais nem menos, vimos a pousada. buzinei e acenei pro carro onde estavam os anjinhos que nos ajudaram a chegar a este maravilhoso fim de mundo.
o chalé de madeira tem janelas grandes. uma banheira gigantesca. camas com lençóis brancos e cheirosos - eu dormi num colchonete inflável nas últimas 12 noites. a piscina térmica tem vista para um dos muitos cânions da serra, mas não enxergamos nada por causa da neblina. faz 22 graus, um luxo para o calor de janeiro. 
e na parede da casinha onde são servidos lanches, um quadrinho: hoje é o dia mais feliz da sua vida.
eu adoro viajar, e adoro ter filhos que topam meus programas de férias que incluem lugares desconhecidos, como este belo fim de mundo.