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o filho que volta

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ele voltou.
na minha casa, acordamos cedo todos os dias da semana. as escolas dos meus filhos não ficam longe de casa, mas eu gosto de fazer tudo lentamente, principalmente ao acordar, e meus filhos não são do tipo "a mãe chamou e todos estão fora da cama", como era na casa dos meus pais. o velho nem chegava perto da gente, eu acho. ele só acendia a luz e dizia algo como "tá na hora". quem não saísse da cama perdia a carona e pronto. jamais perdemos.
hoje não foi diferente. o despertador tocou um pouco antes das 5h. eu me atrapalhei na hora de desligar, porque troquei de lado o criado-mudo ontem e estou com a sensação de que tenho um novo quarto, desconhecido. fiz minhas preces diárias e fui acordar as crianças que não são mais crianças.
quando abri a porta do quarto deles, sabia que ia sentir o cheiro da casa cheia, da casa com todo mundo dentro, da casa com o joão e com a lívia.


meu filho saiu de casa pela primeira vez aos 14 anos. foi morar com o pai, a madrasta…

a vida sem carro

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eu virei uma andarilha. sempre gostei de andar, mas desde que deixei de ter um carro, ando compulsoriamente.
e então alguém comentou comigo que no rio de janeiro havia postos vendendo gasolina a 10 reais. por quê?, perguntei, espantada, mas meu amigo não soube me dizer. foi só quando vi o posto da esquina da minha casa com cones e com os painéis que mostram o preço do álcool e da gasolina sem número nenhum que descobri que havia uma greve de caminhoneiros que, num efeito dominó, parou o país.
é engraçado quando um problema afeta diretamente algumas pessoas, mas não você. é claro que isso é um pensamento estúpido se eu pensar que só porque não compro gasolina o fato de o país parar não é um problema meu. é claro que é. mas eu não tinha de procurar posto de gasolina com combustível nem fazer cara de espanto com os preços cobrados.
mas a greve parou o país, parou meu bairro, e me parou também. eu trabalho em casa, então não preciso sair de casa todos os dias. porém, toda vez que eu tinha…

o dia das mães em um quase haikai

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amanhã é dia das mães, e descontando o fato de eu ter comprado dois presentes para os meus filhos me darem, eu acho tudo isso uma chatice.
se alguém precisa de um dia especial para dizer pra alguém "eu te amo" ou pra dar um abraço, esse alguém não sou eu. e se alguém precisa de uma data para fazer um almoço não usual, também não sou eu.



aí que eu recebo de dois amigos queridos um texto, o mesmo texto, em que uma pessoa fala o que ela herdou dos filhos. eu li e achei estranho. primeiro, meus filhos herdaram muito de mim, mas eu, infelizmente, não tenho como herdar nada deles. tenho, isso sim, como abrir meus olhos e meu coração para poder aprender tudo o que eles me ensinam - não sei qual é a lógica, mas filhos ensinam muito mais aos pais do que o contrário. segundo, porque dizer que filho nos ensina a ter medo e nos dá estria é o oposto da minha experiência com a maternidade - que evidentemente não é cor de rosa, mas é divertida. 
e então, num guardanapo da companhia aérea q…

a mãe louca voltou

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R$ 16,65. o valor da corrida de uber apitou no meu celular. eu estava no rio, a trabalho. meus filhos estavam em são paulo. e meu filho estava se mudando para a casa da avó dele.
era fim de tarde, eu já tinha voltado para o hotel. e já tinha visto várias mensagens do meu filho reclamando que ele não conseguia chamar um carro da cabify.
eu sempre reclamei muito, e de tudo. e consegui ensinar esse comportamento para o meu filho. e dentro do gigantesco rol de reclamações, ele pediu para ir morar com a avó dele. não era um pedido recente. fazia muito tempo que ele pedia. a avó dele concordou, depois de uma conversa franca, e ele, prontamente, arrumou a mala no domingo e mudou-se na segunda.
antes de ser mãe, eu tive a sorte de ler um texto do khalil gibran sobre filhos. e, desde então, sempre tive a certeza de que meus filhos não eram meus coisa nenhuma. eram da vida. ser mãe é o maior exercício de desprendimento que eu conheço.
...
enquanto meu filho se mudava, a minha filha ficava sozin…

deixando ir

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eu fui criada por uma mãe que era incapaz de manter qualquer coisa organizada. a vida dela era um caos ambulante. a bolsa, as gavetas, os armários, os documentos. por onde ela andava, havia caos: ela estava sempre indo para algum lugar, e sempre tinha de ser rápido, porque ela estava atrasada.
talvez o caos assustador em que ela vivia me ensinou o extremo oposto. raramente eu me atraso para chegar a qualquer lugar; minhas gavetas são organizadas e eu sempre sei onde estão as coisas dentro da minha casa. meu armário é quase um quadro zen, e eu estou tentando me livrar da mania das listas, o que é árduo, já que minhas listas me ajudam a ter foco e saber quais são as prioridades do dia, da semana, do mês. não, do mês, não - estou exagerando.

dentro da minha vidinha organizada me acostumei a me livrar de tudo o que eu não uso. t-u-d-o. é legal ser organizada, mas doar o que não usamos às vezes pode ser uma obsessão. eu ainda não sei medir se é uma obsessãozinha, uma obsessão crescente, al…

a poderosa lição dos chatonildos e dos nossos inimigos

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"inimigos, quem tem inimigos além das pessoas do colegial de filmes americanos?", pergunta a minha filha.
talvez seja um pouco exagerado usar essa palavra, e eu nem tenho inimigos. mas tenho uma coleção de pessoas de quem eu não gosto. chatinhos em geral, gentes que me irritam, que fazem dizer coisas irônicas das quais depois eu me arrependo. gente que me faz desconfiar das suas intenções, e cujos olhares costumam me incomodar.
chatonildos podem nos tirar do prumo, fazer a nossa irritação atingir níveis estratosféricos. às vezes podem nos fazer mostrar o nosso pior, o lado mais mesquinho, mais agressivo, mais abominável.
mas eu queria falar BEM deles. e por isso me sentei para escrever este texto.
tem um vídeo belíssimo com a monja Jetsunma Tenzin Palmo sobre paciência, em que ela diz que o antídoto da raiva é a paciência - uma das perfeições, de acordo com o budismo.




diz ela que "nossos inimigos são os nossos maiores amigos espirituais, porque eles estão nos ajudando a…

querido monstro, você não vai me pegar. assinado eu.

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diferentemente das propagandas de margarina e das fotos postadas pelos amigos no clima ó-vejam-como-sou-feliz no famigerado Facebook, tem dias em que eu acordo com problemas.
não é nada prático, palpável, tipo "quando será que o meu cliente vai efetuar o pagamento que deveria ter sido feito em fevereiro?" ou "será que a greve da escola da minha filha que já dura quase três semana irá se estender por muitos dias?". são problemas imaginários. é a sabotagem, minha amiga íntima e de longa data. que vem em forma de pensamentos nada gentis como ah-que-vida-dura, ó-como-eu-sou-incapaz ou ai-eu-não-vou-dar-conta. um monstro.
quanto mais rápido eu ando, maior é a rasteira que posso levar da sabotagem. por isso, já tem uns anos que eu tenho me concentrado para andar mais devagar. foi em 2013, precisamente, que descobri que sentar e praticar meditação era uma cura para a minha velocidade estonteante (mais tarde fui descobrir que queria ensinar isso e estou fazendo formação pa…