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como potencializar sensações incômodas

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ele é um cabeleireiro muito ocupado. isso quer dizer que MESMO marcando hora para ser atendida, a possibilidade de ter de esperar além da hora marcada é de 150%, no mínimo.
eu sei disso há uns 20 anos. faz parte. e quando sabemos que alguma coisa não andará a contento, pensamos que é mais fácil lidar com ela. por exemplo: sair de carro em são paulo no fim da tarde é sempre uma ideia infeliz. sempre. se for imprescindível sair, você prepara doses extras do seu saquinho de bom humor, coloca-os na bolsa e sai.
assim eu tenho tentado lidar nas raras vezes em que vou ao cabeleireiro. reservo mais do que uma hora do meu dia, não marco nada na sequência, vou e espero. todas essas medidas deveriam ser suficientes para que eu ficasse tranquila, mas não. oh shit. eu quero funcionar sem ansiedade, mas como ela é minha amiga de longa data, ela gruda em mim feito chiclete mascado. eca!
nessas horas em que estou no salão, eu fico fingindo que estou ótima, ah-que-delícia-ter-um-tempo-para-não-fazer-…

o domingo de amélia

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amélia acordou e viu a hora no despertador que fica ao lado da sua cama. passava das 9h. nada mal para um domingo.



ela era uma mulher comum. e como muitas mulheres comuns, achava muito bom poder acordar sem o ti-ti-ti do alarme do seu despertador, que a acordava todas as manhãs, de segunda a sexta.
como uma mulher comum, amélia cuida da sua casa. ela é o que o IBGE chama de responsável pelo domicílio. e, como tal, ela não só paga todas as contas da casa, como também cuida de toda a casa. e no domingo não foi diferente.
a regra que amélia instituiu na sua casa, "usou lavou", que deveria fazer com que a pia da cozinha não ficasse com pilhas de louças, não funciona todos os dias. então a primeira coisa que amélia fez naquele domingo ensolarado foi dar um jeito na pia tomada da louça. ela não gostava de tomar café quando a cozinha parecia um campo de batalha.



a segunda tarefa do dia foi colocar roupas na máquina de lavar.
quando a cozinha tinha se transformado em um lugar civili…

obrigada, SPTrans, por nos tratar como lixo

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estudantes de escolas públicas de São Paulo têm gratuidade no transporte coletivo. eu soube disso no começo deste ano, quando meus dois filhos saíram de escola particular e foram para escolas públicas.
funciona assim: todo mês, carrega-se o bilhete com as cotas determinadas pelo governo. então o aluno pode ir e voltar da escola sem pagar nada. mas as cotas são para ir para a escola, somente. ir ao cinema no sábado? encontrar os amigos no parque no domingo? só pagando a tarifa de R$ 4.
eis que em julho as escolas estaduais tiveram férias de 30 dias, e a municipal onde a minha filha estuda, somente uma semana. e então as cotas do bilhete de ônibus dela terminaram, e eu achei a coisa mais natural do mundo dar a ela o bilhete do irmão, que estava em casa de férias, para ela ir à escola.
esta semana, chegaram em casa duas correspondências da SPTrans para o meu filho. assinada pela gerência de comercialização e prevenção de fraude, as cartinhas, idênticas, informavam que o passe livre do me…

os cabelos vermelhos e a família feliz de josé

josé entrou no vagão acompanhado do pai, da mãe e dos dois irmãos mais velhos. como eles eram muitos, e estavam bem na minha frente, não pude deixar de notar.
ele tinha os cabelos muito crespos e ruivos. sentou-se num banco individual, e em segundos estava de pé sobre o banco. logo estava sentado novamente. o pai, um homem muito magro e com a cara enrugada, possivelmente com menos idade do que parecia, ficou em pé, ao lado do banco onde o filho caçula estava sentado.
mãe e filha sentaram-se nos dois bancos próximos ao de josé, e o filho do meio sentou-se sozinho e de costas para toda a família.
eu olhei para o pequeno ruivo e ele abriu um sorriso enorme. os dentes da frente não eram brancos, mas de onde eu estava não dava para ver se eram dentes escurecidos por alguma batida ou se eram dentes podres. o sorriso do menino era maravilhoso.
assim que as portas do vagão fecharam, um gorducho que estava de pé anuncia que faz parte de uma organização, eu não consigo entender tudo o que ele d…

eu vou ser feliz. beijo, te amo

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ela sempre diz 'te amo' quando peço algo que ela não quer fazer. eu tinha voltado da minha caminhada, e ela tinha acabado de acordar e estava tomando café da manhã quando eu perguntei "vamos ao supermercado?" ela respondeu "vou ser feliz. beijo, te amo" e saiu da cozinha, me deixando sozinha. comecei a rir. como ficar brava com uma pessoa que responde "eu vou ser feliz"?
eu sinto muito tédio. ficar sem trabalho me provoca aflições que começam no estômago, sobem pra cabeça (onde rola o blá blá blá destruidor de autoestima) e toma conta do meu corpo inteiro. e então nesses dias em que acordo chafurdando na lama do tédio vou andar - mesmo que na velocidade de uma minhoca cansada. ando feliz com o sol esquentando a minha pele branquela, mas me sentindo mais um saco de batatas bem pesado do que uma pessoa. às vezes tenho a impressão de que uma nuvem preta de cansaço e desânimo veio morar em cima da minha cabeça e aqui ficará para todo o sempre.
a coisa…

ninguém mandou ter filho

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filhos que moram só com um adulto costumam ter uma vida um pouco mais exposta à, digamos, vida como ela é.
eu sou o único adulto na minha casa. até dois anos atrás, éramos dois: a santa Nalva, que trabalhava de segunda a sexta no meu pequeno apartamento, e eu. então eu tinha, ALÉM DOS MEUS FILHOS, uma interlocutora adulta. eu entrava na cozinha de manhã, antes de sair para o trabalho, e quem tinha de me dizer se a roupa que eu estava usando estava decente? quem escutava meu blá blá blá sobre os telefonemas que eu recebia da minha mãe, que adorava contar muitas coisas quando me ligava, mas sempre esquecia de perguntar como eu estava? quem sabia de todas as minhas chateações no trabalho, na escola das crianças? a santa nalva.
mas os filhos crescem, e as santas nalvas vão embora. e então, por mais que eu me esforce, e eu me esforço muiiiiiiito, meus filhos costumam ser meus ÚNICOS INTERLOCUTORES em alguns, ou melhor, vários dias. é um pouco constrangedor admitir isso e escrever sobre o t…

o filho que volta

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ele voltou.
na minha casa, acordamos cedo todos os dias da semana. as escolas dos meus filhos não ficam longe de casa, mas eu gosto de fazer tudo lentamente, principalmente ao acordar, e meus filhos não são do tipo "a mãe chamou e todos estão fora da cama", como era na casa dos meus pais. o velho nem chegava perto da gente, eu acho. ele só acendia a luz e dizia algo como "tá na hora". quem não saísse da cama perdia a carona e pronto. jamais perdemos.
hoje não foi diferente. o despertador tocou um pouco antes das 5h. eu me atrapalhei na hora de desligar, porque troquei de lado o criado-mudo ontem e estou com a sensação de que tenho um novo quarto, desconhecido. fiz minhas preces diárias e fui acordar as crianças que não são mais crianças.
quando abri a porta do quarto deles, sabia que ia sentir o cheiro da casa cheia, da casa com todo mundo dentro, da casa com o joão e com a lívia.


meu filho saiu de casa pela primeira vez aos 14 anos. foi morar com o pai, a madrasta…