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sobre a difícil arte do deixar ir

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o glamour* não anda sempre ao lado da gente. e assim há os dias coloridos, ensolarados, mas há também os dias nublados, frios e com neblina. não estou falando das condições meteorológicas, mas de como nos sentimos.



aí tem as fases, que são feitas de vários dias. as fases alegres, nítidas, leves, e as fases densas, cinzas, que não têm nenhuma alegria e nenhum glamour.
assim é que é. não só com desempregados, mas com todo mundo. como eu estou desempregada, tenho a impressão de que os meus dias cinzas são mais escuros que os dias cinzas dos outros. o que é uma enorme bobagem.
o refrão belíssimo de "divino maravilhoso" grudou na minha cabeça dia desses, e eu ia cantando "é preciso estar atento e forte, não temos tempo de temer a morte". eu não lembrava de nenhuma outra palavra da música, só essas.
às vezes parece que a força acabou. tipo quando termina a gasolina do carro no meio da estrada, e você está andando feliz da vida a 100km/h, 120km/h e zuuuuum, o carro vai pa…

quase 12 anos atrás: por a simplicidade é complicada?

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um dia depois de escrever sobre a minha vida com menos coisas e mais alegrias, encontro o texto que segue nos arquivos do meu computador. escrevi isso quase 12 anos atrás, no dia 31 de março de 2006. eu tinha acabo de me separar. meu filho faria 4 anos dali a 10 dias. e minha filha ia fazer 1 ano dali a 15 dias. ... Quando resolvi me separar, para meu espanto, eu não tinha nenhum papelzinho com prós e contras, não era corna, não estava apaixonada. Foi simples. A decisão estava tomada e eu tinha de segui-la. Porque sei que é a decisão mais lúcida da minha vida. E ela, a decisão, apareceu para mim. Não foi milagre, não tive nenhuma visão. Simplesmente foi assim. Agora só fico pensando em como casei com uma pessoa tão distante. Mas foi muito amor, tanto amor que nasceram dois filhos. Fortes, maravilhosos, e que são minhas estrelas, hoje mais do que nunca. Tava pensando que a dor de uma separação, mesmo desejada, é tanta, que tenho de escrever pra aguentar. Mas quem vai querer ler como uma …

nunca me senti tão rica

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eu estou há dias pensando nisso. pensando em escrever sobre a minha riqueza. estou dura de marré marré marré. desempregada desde março. fazendo um trabalho aqui, outro ali, mas nada que pague todas as contas da minha pequena família.
e nesses meses de busca por um emprego, por frilas, por equilíbrio, por alegria para lidar com a vida familiar, eu tenho me sentido muito rica. parece irônico, e eu sei disso. 
cresci numa família endinheirada. hoje entendo mais do que entendia quando era criança. para as crianças, a menos que você seja criada por monstros, o dinheiro nunca é a parte mais importante da vida. e eu sabia que morava numa casa grande, que tinha um guarda noturno que nenhum amigo tinha e que podia ser sequestrada, segundo a minha mãe. mas eu não tinha noção da realidade como ela era. hoje eu tenho. 
minha família endinheirada se foi. casei duas vezes e nunca herdei nada dos casamentos. sempre achei uma barbaridade uma mulher com dois braços, duas pernas e um cérebro receber pensã…

Só sendo uma santa

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Parte do cansaço de criar filhos vem da minha loucura. Após anos jurando que não serei como meus pais, dia desses, conversando com o meu filho, escutei sair da MINHA boca que eu, na idade dele, “corria, fazia ginástica, dançava num grupo da escola” e não sei o quê mais. Assim que terminei a frase, morri de vergonha. O que é que os meus filhos têm a ver com o que eu fazia ou não fazia na idade deles? E o que eles têm a ver com o que eu quero que eles façam? Toda a teoria de “boas práticas” no lar escoa pelo ralo. E eu fico pensando por que é tão tentador repetir as frases bestas que eu ouvia quando eu era criança e que eu achava tão abomináveis. Falar que aceitamos os filhos como são, uns CDFs, outros folgados, uns comilões, outros anêmicos, uns extrovertidos, outros quietinhos, uns fortes e outros nem tanto, é dureza. Aí vem mais dureza: depois de aceitá-los como são, ver e perceber que eles não pensam como nós, não agem como nós, não vivem como nós. Socorro.

E é só quando eu fico …

Coisas deleitáveis

(o texto abaixo foi escrito depois que eu li uma crônica homônima do Paulo Mendes Campos no livro "As cem melhores crônicas brasileiras". depois de escrever as "coisas abomináveis", agora é a vez da lista das "coisas deleitáveis". é título foi copiado. uma homenagem, ainda que singela, a um texto sensacional)
Estrada vazia; pinhão cozido vendido na estrada que liga o Paraná aos pampas; andar na mata com um bom guia; canivete suíço; festa com boa música; gente inteligente; gente divertida; criança brincando; sapo coaxando à noite; banho de mar quando o sol já se pôs; ver o sol nascer no mar; terminar uma longa caminhada; restaurante de beira de estrada limpo; armário com pouca roupa; sorvete com pouco açúcar; a cama da gente; o sol entrando pela janela; a lua iluminando a mata; ver um baiano abrir um coco pra você; tomar chimarrão na praia; doce de leite argentino; viajar de carro pelo Uruguai; farol em qualquer praia deserta; frango com chocolate e pimen…

Coisas abomináveis

(o texto abaixo, título inclusive, foi escrito depois que eu li uma crônica homônima do Paulo Mendes Campos no livro “As cem melhores crônicas brasileiras”, ed. Objetiva. Se você nunca leu o texto em questão, sugiro que o leia. É absolutamente maravilhoso. A seguir, a minha própria lista de coisas abomináveis)

Gente que se acha importante; gente formal; óculos sujos; cheiro de naftalina; cabelo alisado; umbigo de plástica; rua escura; calçada esburacada; calçada cheia de gente; café doce; gosto de adoçante dietético; meia apertada; meia-calça pequena; sapato desconfortável; roupa apertada; tecido sintético; roupa quente em dia de versão;  lábio ressecado; esquecer as chaves; armário bagunçado; luz fria; lápis preto com grafite que não escreve direito; perder a caneta; shopping em qualquer lugar; ouriço do mar dominando a areia onde você está andando; queimadura de mãe d’água; conta atrasada; gente que não larga o celular; dor nas costas; crianças mandando nos pais; motorista que não …

a minha longa história com o dr. kong

isso foi muitos anos atrás. talvez uns 20. ou quase isso.
eu morava sozinha. depois de me separar, tinha morado um tempo sozinha, outro tempo em uma casa no meio do mato com uma amiga, e finalmente estava de volta à cidade cinza, também conhecida como são paulo. estava sozinha e feliz.
eis que um dia acordo e não consigo me mexer.
quando isso acontece pela primeira vez, e nessa primeira vez você mora sozinho e é jovem, é totalmente desesperador. eu comecei a chorar.
não lembro se chorei por poucos ou muitos minutos, mas lembro que saí da cama engatinhando. devagar cheguei ao banheiro, tomei banho e me aprontei, acho que desesperada, para ir pro trabalho. nessa época eu trabalhava na Gazeta Mercantil, que já tinha sido um bom jornal, mas já estava começando a não pagar os salários no dia em que o pagamento deveria ter feito - um ou dois anos depois o jornal fechou. a redação ficava na zona sul de são paulo, um caminho longo, mas rápido desde o meu pequeno apartamento, que ficava em pin…