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um ano sem comprar: eu consegui!

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ele é muito inteligente, e sempre me diz coisas que eu jamais imaginei.
abri meu armário para mostrar a ele, que tinha ficado uma semana fora, a incrível organização. e suspirei, "mas passado um ano, meu armário segue cheio".
"as coisas acabam menos quando você não compra nada", me disse. "e acabam mais quando você compra." uau. era isso.
a conversa aconteceu umas três semanas atrás, quando eu estava perto de atingir a minha ousada meta de passar um ano sem comprar roupas (nem sapatos ou acessórios). parabéns, eu digo pra mim mesma. eu completei meu sabático. que alívio, que alegria, que liberdade. eu mando na minha carteira. eu não compro só porque está em promoção. eu preciso de muito pouco.
um ano sem comprar não é pobreza, é fartura. porque só se compra o necessário. e faz você se dar conta do que é realmente necessário. e o necessário, desculpa desapontar nosso consumista interior, é muito, mas muito pouco.
eu fui me livrando de tudo o que não era ne…

apreciar ficar só é uma dádiva

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acordei e olhei pelas frestas da porta do quarto, que estava fechada. vi que a luz do dia ainda era fraca. e eu estava certa. depois de anotar um sonho um pouco confuso, olhei no relógio do celular. eram 6h30.
não sabia se hoje faria sol ou se seria um dia nublado. só sabia que seria um dia fresco como ontem. em que não usar meias pode ser um ato de coragem, mas usá-las pode dar calor. ao abrir as janelas enxerguei o céu azul.
fugi para o parque. queria deixar meus pensamentos de lado, em casa, e vir sozinha ao parque tirar o mofo do corpo, dos meus órgãos, do meu olhar e da minha alma. mas meus pensamentos, teimosos, vieram comigo.
a cidade virou uma cidade-fantasma. um domingo pós feriado na sexta é sempre uma alegria nesta cidade tão grande e tão cinza. seus moradores fogem rumo ao interior, ao mar ou às montanhas. eu fujo em direção a mim mesma.
enquanto o sol esquenta o meu corpo, olho ao redor. aviões passam quase sobre a minha cabeça, quero-queros voam e cantam e algumas pessoa…

o que aprendi em um ano sem comprar roupas

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existem pessoas que ficam obcecadas com alguns temas. e eu fiquei com essa história do meu sabático de compra de roupas. não, não faz um ano. ainda faltam 24 dias pro aniversário. mas eu já aprendi um tanto e como as lições são libertadoras, eu resolvi compartilhá-las.
claro que por vezes penso 'meu deus, será que uma pessoa não tem mais nada pra fazer na vida pra ficar obcecada com o fato de não comprar roupas?' mas pensando bem meus interlocutores costumam mostrar um certo interesse quando abro a minha boca pra discorrer sobre o tema, sobre os meus achados e tals.
sim, eu pensei, na minha cachola tão criativa, que este ano sabático seria transformador. que eu me tornaria outra pessoa. ah ah ah. na verdade em vários momentos eu senti tédio. mas que falta de insights!, que falta de emoções arrebatadoras!, que falta de sensações do tipo u-a-u!
vida que segue. e vamos às lições, que nada têm de u-a-u.

1. ansiedade
a minha musa inspiradora, Lucy Shea, disse há muito que quando el…

rica, mesmo sem um tostão

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"não importa o quanto eu tenho, eu sempre me sinto rica."
a frase eu peguei emprestada. de uma mulher sábia. e belíssima.
a vida é bem simples: ela nos mostra o que precisamos ver/enfrentar/ultrapassar para aprender. e isso fica bem evidente quando você escuta uma frase e pensa uau, vou pegar emprestadas essas palavras sábias e vou colá-las no meu coração (sim, porque nos lembramos não do que está na mente, mas do que está no coração. uma pena as escolas estarem tão distantes disso).
eu tenho passado por uma fase financeira instável. já faz uns anos. e, claro, vou melhorando aqui e ali. mas ainda é uma fase instável. depois de desistir de brigar por pensão de alimentos de filhos + de a transportadora que o meu pai tinha ir à falência + de ficar desempregada, a vida mostrou pra mim uma realidade que eu desconhecia. em português claro, "te vira, meu bem".
eu sei que eu sou uma pessoa com muitos privilégios neste mundo desigual e por isso só escutei o "te vira, m…

perdi os meus óculos (e achei a minha paciência)

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deve significar algo. todas as coisas que acontecem têm um significado.
saímos para comprar um par de tênis. ele não tem tênis para correr e combinamos que no sábado iríamos resolver isso. eu estava deitada no sofá lendo quando ele apareceu na sala e disse que estava pronto.
escovei os dentes, tomei muita água e saímos. o dia estava ensolarado e quente depois de uma semana fria e chuvosa. andamos, não encontramos nenhum tênis que o agradasse, tomamos o sorvete mais doce da minha vida e acabamos com as muitas moedas que tínhamos dando para quem nos pedia. quando cheguei em casa fiquei feliz de tirar os sapatos e sentir o chão de madeira debaixo dos meus pés.
fui procurar os meus óculos. nada. a tela do meu computador ficou listrada. era um dia cheio de acontecimentos.



no dia seguinte saí para andar. e pensei ah, que ótimo, finalmente irei a um oftalmologista e farei uns óculos de acordo com a necessidade de quase meio século de vida - compromisso que eu venho negando há muitos e muitos…

o bebê vai nascer - 9 meses sem fazer compras

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o bebê vai nascer. no dia 10 completam-se 9 meses da minha aventura, meu sabático de compras. o tempo de uma gestação. e assim como a ansiedade que vai aumentando conforme se aproxima a hora do nascimento do filho, com a barriga crescendo cada vez mais e o peso também, comecei a ficar com vontade de comprar (ansiedade, alguém?).
a aventura é muito mais interna do que externa. não comprar roupas não quer dizer nada. você simplesmente deleta emails com promoções das lojas que você gosta. e você entra e sai de lojas sem se incomodar - tipo o amigo que senta no bar e pede uma coca, enquanto todo mundo cai de boca no chopp ou na caipirinha. o cara da coca não tá nem aí pro que os outros estão bebendo, não olha pro garçom. também não gasta uma grana, nem fica bêbado.
e isso é um pouco frustrante. eu imaginava que passar um ano sem ir às compras fosse uma aventura e tanto, algo que renderia inúmeros textos, muitos insights, muitos comichões em diferentes partes do corpo. mas não.
quase toda …

por que NÃO fazer tudo sempre igual

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chegamos ensopados.
três dias atrás, em um cruzamento de duas largas e barulhentas avenidas de são paulo, senti vontade de pisar no chão sem sapatos. mas em vez de tirar os sapatos e andar de pés descalços pelas calçadas imundas até a minha casa, segui andando com meus sapatos e minha vontade foi aumentando.
eu estava me organizando para viajar para o interior naquele dia, mas a semana foi passando e eu me dei conta, um dia antes da viagem, de que eu estava sem condições de viajar. não, não era o trabalho. era eu. não jogar a culpa em cima de alguém ou de algo é bem bom. ou, se não é bom, pelo menos é útil, porque nos ensina a lidar com as coisas sem mentiras, sem mimimi.
depois de decidir não viajar, sobrava um fim de semana inteiro sem planos. uma maravilha.
avisei os meus filhos, que não andam de bicicleta há uns anos, que eu iria ao parque no sábado ou no domingo. quem quer ir comigo?, perguntei, esperando escutar grunhidos como ãããn, blé, humpf. mas não. em vez de grunhidos, meus…