sábado, 12 de agosto de 2017

E o que importa você sabe, menina. É o quão isso te faz sorrir. E só.

eu sempre duvidei de algumas verdades que escutei ao longo da minha vida. mas como eu tinha dúvidas, e não certeza de que essas verdades não valiam para mim, eu me achava uma boba. tipo uma-pessoa-que-não-é-tão-madura-nem-determinada-nem-focada-como-as-pessoas-que-eu-conheço.
e assim fui levando a vida, me divertindo mais do que sofrendo, e nunca tendo a certeza de que este caminho era O MEU caminho - eu não estava enganada, eu não estava perdida, eu não estava num caminho errado.
acho que eu tinha uns 10 anos quando estava passando as longas férias de verão com a minha mãe e meus irmãos na fabulosa casa que tínhamos numa praia feia do rio grande do sul e comecei a escrever. eu pegava uma cadeira de praia e me sentava no ponto mais distante da casa dentro do terreno, que era todo gramado. acho que eu fazia isso no fim do dia, à tardinha, quando ainda tinha luz para escrever, mas o sol já tinha desaparecido. eu não lembro o que eu escrevia, nem onde esses escritos foram parar.



e foi mais ou menos nessa idade que eu comecei a achar esquisitas algumas coisas que eu via. por exemplo, a minha família assistia TV todas as noites. jornais e novelas e outras tranqueiras televisivas depois da última novela, que na minha infância era a "novela das 8". como eu dormia bem cedo, não era um problema grave, mas eu achava estranho que ninguém conversasse. uns anos mais tarde, quando a tristeza da adolescência me massacrava, eu chorava e perguntava pros meus pais por que eles viam tanta TV e não conversavam, nem com os filhos, nem entre eles, e eles, sem resposta, diziam "ssh, a novela voltou".
também achava sinistro quando a minha mãe me contava que fulano e fulana estavam casados por causa dos filhos. não conseguia compreender como duas pessoas podiam viver juntas por causa de terceiros.
minha mãe também costumava me mostrar "a cara de triste" das crianças cujos pais eram separados. eu perguntava pra ela o que ela queria dizer com isso, e ela me explicava calmamente a teoria bizarra dela, de que filhos sem os pais juntos na mesma casa eram crianças cuja tristeza era visível em seus olhos. eu imaginava uma casa horrível quando só tinha uma mãe e não um pai com uma mãe. um lugar vazio, escuro, úmido e frio, muito frio.
anos depois escutei da mãe de um colega do meu filho que o filho dela estava tendo uns comportamentos muito estranhos, e ela nem era separada. quando ela terminou a frase, olhou pra mim, lembrou que EU era separada e pediu desculpas. eu achava aquilo que ela dizia tão, mas tão besta, que não devo nem ter ficado irritada. isso faz uns sete, oito anos, e a minha memória não é das que guarda muitos detalhes do passado.
mas lembro muito bem que quando terminei a faculdade de jornalismo, que era um dos cursos mais bem avaliados num ranking que a playboy fazia, mas que eu achava insuportável, eu prometi pra mim mesma que não faria nenhum outro curso universitário. minha promessa está sendo cumprida, passados mais de 20 anos. mas só agora eu tenho orgulho de dizer isso. até pouco tempo atrás eu via meus amigos fazendo mestrados e doutorados e pós doutorados e outras especializações menores e pensava que eu tinha uma disfunção. como uma pessoa pode fazer UMA faculdade, que não gosta, e depois nunca mais fazer nenhum outro curso?
não é que eu não me interessasse por nada. eu sempre me interessei por muitas coisas. mas sempre achei um saaaaaaco ficar numa sala de aula, normalmente com uma pessoa com o ego inflado falando na frente dos alunos sentadinhos. acho incrível que algumas pessoas gostem. mas como trabalhei em trocentos lugares, fazendo sempre coisas diferentes, meu currículo acabou virando um bom currículo, mesmo sem uma lista de cursos de graduação e pós graduação. e eu, finalmente, escutei o que eu sempre soube, para parar de ter dúvidas e ter certeza: podemos aprender em vários lugares, e um deles é a sala de aula. o outro é a vida.
mas a cereja do bolo das minhas dúvidas é sobre planejamento de vida e de carreira. eu estava em uma entrevista de emprego esta semana, quando a entrevistadora, uma mulher mais jovem do que eu, com um sorriso largo e um jeito muito delicado, me pergunta quais eram os meus planos para a minha carreira.
oh no! eu não estava preparada para isso. aliás, eu não lembrava que isso era uma pergunta em processo seletivo. a minha última entrevista assim, no modelo "vamos massacrar o candidato para ver o que ele tem a me dizer", tinha sido em 2010, quando fui trabalhar num lugar incrível, onde podia dizer o que eu pensava tanto para os colegas quanto para os donos da agência. e, muitas vezes, para os clientes também!
voltando à entrevista, eu tive de dizer a verdade para a minha querida entrevistadora. eu acho que eu sempre disse a verdade, mas desta vez eu tinha CERTEZA de que estava falando a verdade, e não me senti uma desajustada que não cresceu e continua infantilizada sem um projeto de carreira. disse que eu não tinha um plano para a minha carreira, e que nunca tinha tido nenhum plano para a minha carreira. disse que tinha trabalhado em muitos lugares, e que eu sempre escolhia os trabalhos considerando o que eu achava razoável. que eu gostava de trabalhar com textos, com redação e edição, e que eu também sabia fazer outras coisas, comunicação institucional, relatórios de desempenho bem lindos. e devo ter dito algo pra ela como "eu vivo um dia depois do outro". ou será que eu só PENSEI em dizer, mas não chegou a sair da minha boca?
quando a minha mãe morreu, uma amiga que estava muito próxima de mim me deu um texto do caio fernando abreu.
eu achei lindo. colei ao lado da minha cama, e lia todos os dias. mas isso não fazia sentido pra mim naquele momento. logo depois a minha amiga se apaixonou, se separou do marido e começou a namorar. hoje eu acho que o texto que ela me deu na época era pra ela mesma. mas agora o texto faz sentido pra mim. a liberdade é o maior frio na barriga que eu já senti.


Vai menina, fecha os olhos. Solta os cabelos. Joga a vida. Como quem não tem o que perder. Como quem não aposta. Como quem brinca somente. Vai, esquece do mundo. Molha os pés na poça. Mergulha no que te dá vontade. Que a vida não espera por você. Abraça o que te faz sorrir. Sonha que é de graça. Não espere. Promessas vão e vem. Planos, se desfazem. Regras, você as dita. Palavras, o vento leva. Distância, só existe pra quem quer. Sonhos se realizam, ou não. Os olhos se fecham um dia, pra sempre. E o que importa você sabe, menina. É o quão isso te faz sorrir. E só.





quinta-feira, 10 de agosto de 2017

o dia em que aprendi que orquídeas florescem só quando querem

eu já ganhei muitas orquídeas. e sempre as tratei da mesma forma: já que NUNCA deram flores na minha casa, nunca mantive nem um vaso sequer. pra dizer a verdade, não lembro o que eu vazia com as plantas depois que suas flores caíam.
mas quando fiz 45 anos foi diferente. uma amiga querida e vizinha me trouxe um lindo vaso com orquídeas amarelas, iguais às orquídeas que eu ganhei da minha sogra quase 16 anos atrás, quando o meu filho não nascia e a avó achou que faltavam flores na minha casa para a criança querer nascer.
as orquídeas amarelas que eu ganhei de aniversário ano passado enfeitaram a minha casa por um tempo, e um dia não tinha mais nenhuma flor. em vez de eu me livrar do vaso, resolvi levá-lo até a minha pequena horta, que eu mantenho no pátio da garagem do prédio onde moro.
e então se passaram meses e mais meses, um ano e meio, e a planta seguia sua vida, murcha e desfalecida, no mesmo vaso. uma vizinha que diz cultivar orquídeas disse que poderia levar minha orquídea que parecia tão infeliz para fazer companhia para as outras que ela mantém nas árvores do escritório dela.
mas nem isso aconteceu. acho que a deni esqueceu da oferta e minha pobre orquídea seguiu ao lado do vaso da menta, do da beterraba e do da salsinha e da cebolinha.
eu não sou uma baita cuidadora de horta, mas todos os dias encho o meu regador azul enorme, desço as escadas e molho todos os meus vasos. e num desses dias eu olhei pra orquídea e pensei "como eu sou besta de achar que ela é uma pobre orquídea". e pela primeira vez na minha vida pensei que eu poderia ter orquídeas sem flor, ora bolas, afinal a planta não TINHA que ter flores. isso era só um desejo meu.
eis que duas semanas depois, eu olho pro vaso da minha planta desmilinguida e vejo várias bolinhas num dos seus galhos. fiquei boquiaberta, e levei o vaso pra minha casa. eram mais de 20 botõezinhos. minúsculos, redondinhos e encantadores.

meu lindo vaso de orquídea enfeitando a minha cozinha
parece uma história de mentirinha, mas não é.
e me fez lembrar a história que eu ouvi durante os ensinamentos do mestre Tarchin Hearn aqui em são paulo. ele viajou o mundo ensinando, e tem uns anos decidiu sossegar. foi quando resolveu plantar uma horta. comprou livros e mais livros sobre hortas, leu-os, e um dia plantou algumas sementes.
no dia seguinte, foi ver como estavam as batatas que ele havia plantado. e não viu nada. no outro dia, voltou à horta para ver se algo tinha acontecido com as batatas. e, de novo, não viu nada.
e então ele concluiu que, apesar de ter viajado por anos e anos ensinando paciência às pessoas, ele mesmo não tinha paciência. queria que a horta crescesse logo, e não no tempo da batata e das outras verduras que ele tinha plantado.
...

terça-feira, 1 de agosto de 2017

sobre inspirações, a mãe boa, a alegria e o SPA emagrecedor

como voltar para a nossa vida de todos os dias depois de um retiro? o meu professor diz que devemos acordar na hora de sempre, tomar banho, aprontar-se, tomar café, colocar a bolsa pendurada no ombro e sair para o trabalho.
sim. ele é simples e direto assim.
mas desta vez, no meu quarto retiro, eu não perguntei ao Tarchin o que eu deveria fazer quando voltasse para casa. aliás, desta vez eu passei o retiro todo sem fazer nenhuma pergunta. o que é quase um feito que merece uma medalha, em se tratando de mim, uma pessoa tão tagarela.



um retiro é sempre um presente. sai o cenário de todos os dias e entra um cenário de todos os dias longe de casa. você leva você mesmo, de preferência. e tudo o que faz parte do pacote: suas alegrias, seus medos, seus horrores e suas expectativas. 
eu não sabia o que era um non-residential retreat, mais urbano, como me foi explicado. sabia que iria dormir fora do local das aulas. e só. como sempre, convidei alguns amigos, mas todos tinham afazeres que não podiam ser deixados de lado na semana em que eu estaria na zona rural de Botucatu, a umas três horas de carro de São Paulo, aprendendo sobre o despertar natural e a ciência contemplativa.



claro que eu não tinha ideia do que esses termos significavam. sim, eu sou uma retirante desavisada. toda vez que arrumo minha mala para ficar uns dias em retiro, sei pouco do que vai acontecer. não é nem bom nem ruim, é só o jeito que eu lido com "ir a retiros". quando contei para Jangchub, meu professor, ele disse com vigor e alegria: "that's right, Patricia". era pra eu arrumar a minha bagagem e ir. como toda pessoa que foi criada num ambiente "faça a coisa certa", eu adoro quando o meu professor diz "that's right" pra mim. a menina que também sou eu ri de contentamento e alívio. 
bem, passados os seis dias de ensinamento, soube que o despertar natural é exatamente o que parece ser, um despertar natural (despertar para quê? para a vida, para o que acontece na frente do meu nariz, para como me sinto no momento, para a cor do céu e para a claridade do sol e a escuridão da noite). e que a ciência contemplativa também é exatamente o que parece ser (bingo!), uma ciência contemplativa, em que o sujeito contempla a natureza/a vida e a partir disso faz descobertas científicas. incrível não? como tudo é tão simples que até parece explicação para uma criança pequena.

A bagagem dos quatro retirantes que voltaram juntos no mesmo carro


voltei faz dois dias. busquei a minha filha na casa de uma família que é minha família aqui em São Paulo e viemos pra casa. a Lívia pisou em casa e suspirou um que-bom-estar-em-casa. eu tinha ganhado um pão feito em casa, brócolis e couve-flor da horta da Tina, minha anfitriã na zona rural de Botucatu. com isso, Lívia e eu teríamos o que comer num jantar e no café da manhã. 
a parte mais linda de voltar de um retiro para sua mesma casa, seus mesmos filhos, suas mesmas contas a pagar, o mesmo porteiro que gentilmente molhou sua horta e tudo o mais que é seu, é que você enxerga tudo sob outro ponto de vista. eu passei pela avenida Rebouças, gigante, cheia de ônibus e carros, e achei que estivesse passando por um lugar desconhecido. fui até o aeroporto buscar meu filho, e tudo me pareceu agradável, procurar vaga num estacionamento gigantesco, ficar de pé esperando a horda de passageiros saindo da porta automática do desembarque, o pagamento do estacionamento que vale quase uma pizza. voltando pra casa num caminho muito conhecido, de novo olhei para uma rua - esta arborizada, só de casas, uma lindeza - e tive a impressão de estar passando por ali pela primeira vez. delícia ter a sensação de que estou andando por lugares desconhecidos mesmo estando na cidade cinza.
durante o retiro, tínhamos aula de manhã. as tardes eram livres. "Você vai poder falar?", me perguntou Mirco logo que cheguei à casa dele. Mais novo dos quatro filhos da Tina, o Mirco e eu ficamos amigos um mês atrás, quando me hospedei na casa dele para fazer um curso de uma semana também na zona rural de Botucatu.

Tarchin, sua aluna e o pequeno Mirco, atacando de fotógrafo


eu não sabia se eu poderia falar. Mirco e eu falamos muito. não sei quem ganha. mas pensei que se eu tivesse de ficar em silêncio, não poderia olhar para o meu amigo, porque não conseguiria não falar. na segunda-feira, na hora do almoço, terminada a primeira aula, cheguei à casa da Tina com a ótima notícia: eu poderia falar, pois o retiro não seria um retiro de silêncio.
um retiro em que se volta pra casa depois da aula, em que se pode falar e em que não há exigência de algumas práticas de meditação formais (por exemplo, meditar sentado por uma hora) é muito desafiador. e é chamado de "non-residential retreat" e também "mais urbano". prestar atenção ao momento presente FALANDO com o Mirco e cozinhando e saindo para passear para conhecer montanhas e vales e pedras e rios é muito divertido, mas exige conexão e concentração.

Dudu, à frente, e seu irmão Mirco dando uma volta de barco


eu não consigo imaginar nada mais delicioso e confortável do que isso: um retiro não residencial com hospedagem num SPA emagrecedor e amoroso. 
"você emagreceu horrores." foi a primeira frase do meu filho ao me abraçar no portão de desembarque do aeroporto, onde eu tinha ido buscá-lo depois de uma semana de férias na casa do vô. sim, eu emagreci horrores em uma semana, comendo "muito", segundo o meu amigo Mirco. café da manhã, almoço e jantar com muita comida boa.

Minha anfitriã com o seu caçula


a Tina é uma cozinheira de mão cheia. faz um pão maravilhoso, patês de azeitona e tomate seco, sucos de frutas frescas, saladas de folhas tão tenras que não dá pra comer só um prato. comida fresca, orgânica, magra e quase sem sal. eu, que parei de comer glúten porque pelamordedeus-você-tem-de-emagrecer-assim-não-dá-mais, passei a semana comendo o pão da casa. com manteiga, geleias feitas em casa (uma delas era de goiaba com maçã. tâmara, cravo, canela, cardamomo e nada de açúcar), patês com azeite. andávamos muito, pelos campos com vacas pastando. e imagino que comer comida boa e andar sobre o pasto úmido de manhã cedo, desviando da bosta da vaca, deva ter tido um efeito emagrecedor.
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PS - a mãe boa, no caso, é a Tina. :)
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"freedom is not given to us by anyone; we have to cultivate it ourselves." thich nhat hanh


quarta-feira, 12 de julho de 2017

o 576M - Vila Clara e tudo o que eu precisava escutar do mestre

o nome do ônibus que eu deveria tomar é 576M - Vila Clara. pelo menos era a opção que parava mais perto do lugar onde eu tinha de ir, dentro do parque do Ibirapuera, à noite. segundo o google maps, o 576M passa no ponto a cada 15 minutos. eu acreditei. e fui pro ponto.
as pessoas que andam de ônibus todos os dias em são paulo, onde o transporte público é um lixo, aparentam ter muita paciência. elas SABEM que o busão não vai passar logo, sabem que vai estar cheio, sabem que vai estar sujo. eu, que não ando de ônibus todos os dias, sempre acho que o ônibus não vai demorar horrores, afinal são paulo é uma cidade tão grande, por que iriam tratar tão mal as pessoas que sacodem de um lado pro outro da cidade todos os dias dentro dos ônibus xexelentos que são o nosso transporte público?
ora, que tolinha.
cheguei ao ponto do ônibus uma hora e meia antes do meu compromisso. o google tinha me informado que em 45 min eu chegaria ao meu destino. mas passados 15 minutos, nenhum 576M tinha passado. fui até o cartaz que informa as linhas cujos ônibus param em cada ponto e lá estava o Vila Clara. mais 5 minutos e outros 5 minutos e nada. vi o ponto de ônibus cheio ficar vazio e cheio de novo e eu lá, vendo o trânsito parado na grande avenida enquanto eu ia criando raízes na calçada. eu olhava no relógio e pensava ah, vou esperar mais cinco minutinhos. olhava de novo e os minutinhos tinham passado, mas nem sinal do Vila Clara.
depois de uns 40 minutos plantada no ponto, eis que surge o Vila Clara. vazio! alegria. entrei, sentei, tirei o casaco porque suava - a falta de paciência faz a gente suar. e então o ônibus foi indo e parando nos pontos e em cada um deles muitas pessoas entravam. até que em 15/20 minutos viramos sardinhas em lata.
eu já tinha feito planos enquanto suspirava na calçada à espera do ônibus. chega de são paulo. não quero mais. trânsito, rodízio, ônibus lotados, metrô idem. eu vou-me embora. vamos morar num lugar civilizado, sem obras do metrô na janela de casa. sem bares que não têm alvará em todas as esquinas, sem uma prefeitura inoperante que há mais ou menos 400 anos não dá conta da cidade. já me sentia uma besta por estar no ônibus, porque só com um milagre eu chegaria no horário que eu precisava chegar.
desci do ônibus graças ao mapa do meu celular, que me mostrava onde eu estava. ia andando no escuro, cruzei uma faixa para ciclistas e não para pedestres e fui parar na ciclofaixa. arborizada, linda. até que cheguei na calçada do parque e não sabia se a entrada era andando para a direita ou para a esquerda.
mas como os santos dos mal humorados não são fracos, quem eu vejo passar na calçada logo à minha frente? o professor que falaria na aula a que eu estava indo. acompanhado de sua mulher.
fui andando atrás deles, e entrei na grande sala ANTES do começo da conversa.
uma pequena pausa, uma mini meditação, antes de começar. e Tarchin Hearn, mestre que veio da Nova Zelândia ensinar Buddha Dharma, nos chama a atenção para o barulho do trânsito - que era intenso. "eu estou aqui para você", sugeriu Tarchin para todos os que estavam ali sentadinhos escutando o mestre atentamente. sim, ele queria dizer que nós estávamos lá para também escutar aquele barulho.
enquanto escrevo estas palavras, na manhã seguinte à aula de Tarchin, escuto o barulho ensurdecedor e enlouquecedor da obra do metrô, minha vizinha de janelas (todas do apartamento, menos a da cozinha), que começou quase cinco horas atrás, às 7h, e só vai parar às 17h. minto, eles param um pouco antes do meio-dia - acabaram de parar - e por uma hora jogam dominó aos gritos e com urros, o que é um pouco assustador quando estou distraída e imagino uma briga horrorosa até me lembrar que são meus vizinhos da obra num momento relax.
voltando à aula de ontem, Tarchin abordava o tema "como podemos viver bem juntos?" oh my god!
ele conta que viaja pelo mundo ensinando paciência. mas o que é paciência? ele diz que paciência é aquilo que sentimos quando não temos de usar a palavra paciência. oh my god de novo.
e conta uma historinha pra todo mundo entender: depois de viajar pelo mundo ensinando, Tarchin resolveu ficar um tempo onde mora, na Nova Zelândia. e decidiu plantar um jardim.
um dia depois de ter plantado as sementes, ele foi ver o que já estava brotando. para sua surpresa, não havia nada. no outro dia, lá foi ele de novo no canteiro recém-plantado checar a evolução das sementinhas que ele havia colocado na terra. nada. e então ele se deu conta de que ele não tinha paciência. que as sementinhas plantadas iriam germinar e virar uma planta no seu tempo.
cada coisa tem seu tempo. e quando temos este insight, ensinou Tarchin, conseguimos relaxar.
eu devo ter babado ao escutar o que ele dizia durante a aula - que foi curtinha, das 19h30 até as 21h. porque tudo fazia tanto sentido, mas tanto sentido, que tive uma noite de princesa. daquelas que a gente deita na cama e dorme quentinha e ininterruptamente até o dia amanhecer.
sem palavras para agradecer o 576M, que passou no ponto antes que eu desistisse de esperá-lo.
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para saber mais, ou para momentos de glória, o link da programação dos ensinamentos de Tarchin no Brasil é este: https://www.tarchinnobrasil.com/

quinta-feira, 8 de junho de 2017

bom te ver!

existem as pessoas finas. e não é o meu caso.
entrei no escritório falando alto, bufando, reclamando de uma reunião dura que eu tinha acabado de ter com os meus advogados. bem louca. afinal, quem tem a ver com isso? mas a discrição não veio junto quando eu nasci.
há os dias tranquilos. e há os dias insanos. mas o pior de tudo é quando vem a semana insana. e assim foi.


eu pendurei na sala as bandeirinhas de tecido que costurei há séculos. minha filha achou lindo, e meu filho perguntou por que cazzo eu pendurava bandeirinhas coloridas no teto. expliquei que no mês em que se comemora são joão e são paulo, enfeitamos a casa também. ele não se convenceu.
também segui fazendo as coisas de todos os dias. mas uma enxurrada de pensamentos desnecessários tomou conta da minha cabeça, que por sua vez tomou conta do meu corpo, que por sua vez tomou conta da minha alma. e eu andei me arrastando, fingindo interesse, sorrindo sem vontade.


e hoje fui encontrar meu amigo no escritório dele. eu não queria desmarcar só porque a semana parecia estar sendo ingrata. dois dias atrás tinha almoçado com uma amiga, que me contou os planos do marido, que está partindo para uma nova profissão, de mestre cervejeiro, mas sem abandonar a antiga, de maestro de coral, e também dos planos dela, de começar a vender assinaturas de pão feitos com fermentação natural. e não, ela não ia largar o jornalismo. contou da reforma da casa, dos novos bichos que eles tinham, além do gato, mais dois cachorros. e eu, super fofa, dizia que na minha vida não tinha nada de novo, e que tudo tava um saco do além, o desemprego, a impossibilidade de requerer o seguro desemprego, o dinheiro das férias que foi pro saco por conta de um processo judicial de uma pessoa próxima contra mim, o meu medo de nunca mais conseguir um trabalho (este é um clássico do desempregado, por isso peço desculpas pela falta de criatividade), o PM que sacou uma arma mais ou menos na minha orelha quando eu estava na frente do poupatempo de praça de sé, no fétido centro de são paulo, porque estava perseguindo um camelô que vendia armações de óculos.
mas amigo de verdade dá conta de ficar conosco quando o assunto é alegre e também quando é triste. e assim foi hoje.
na hora do tchau, ele disse "bom te ver!" e eu pedi desculpas por ser uma pessoa tão chata e que fala de coisas tão duras quanto não as crianças não têm encontrado o pai e sim elas estão sempre comigo. saí chorando, descendo a rua só para pedestres que ia dar na praça da república, onde eu desceria escadas e mais escadas para entrar no metrô. ele seguiu reto, para o escritório onde eu tinha entrado duas horas antes bufando, suando e reclamando.
eu sei que os pensamentos são sabotadores. como a nuvem cinza bem escuro que anda em cima da cabeça da gente quando passamos reclamando de tudo. mas o fato de eu saber disso não faz com que eu consiga mandar esses pensamentos ó vida ó céus embora.
como diz o outro, um dia depois do outro. ainda bem que os dias terminam, e as semanas também. e depois vêm outros dias e outras semanas.



domingo, 28 de maio de 2017

como adoçar e aquecer um domingo com os biscoitos da prof dora

desde sempre eu acho divertido estar na cozinha. mesmo nunca tendo sido uma criança daquelas que recebem elogios por conta das habilidades com comidinhas de verdade.
num natal, ganhei um livrinho de receitas, e resolvi experimentar uma das receitas. para isso, preparei uma mesinha no quintal da casa onde morávamos. não lembro o que era a receita que eu tentei fazer, mas imagino que era um bolo ou biscoitos. tenho somente uma vaga lembrança de tudo dar muito errado, de os ingredientes virarem uma meleca dentro da bacia onde eu os misturava. talvez uma batedeira tenha sido envolvida - mas como eu ligaria a batedeira no quintal? não lembro dos detalhes, mas lembro que no fim, tudo foi pro lixo.
uns anos mais tarde, um grupo de meninas da turma da escola se reunia na casa de uma de nós para fazer um bolo e compartilhar a receita com as amigas. devíamos ter uns 12, 13 anos. talvez 14. achávamos essa reunião muito divertida. agora as minhas receitas já viravam um bolo, e dos bons.
mas depois que a gente cresce, casa e procria, a gente passa a ter uma fada em casa, e as aventuras na cozinha diminuem - ou terminam. nossa fada, por muitos anos, respondia por nalva. e todas as delícias que a gente comia em casa eram feitas pelas mãozinhas da nalva. bolos, biscoitos, pães, suflês, sopas.
ainda que eu não colocasse a mão na massa - almoços e jantares em casa eram preparados pela nalva, os bolos que comíamos em casa ou que eu levava a reuniões também, assim como pratos para levar a jantares na casa de amigos e bolos de aniversário -, eu segui anotando receitas.
e hoje, em vez de encher o carrinho do supermercado de cookies bauducco ou de biscoitinhos integrais mãe terra, eu resolvi fazer os maravilhosos biscoitos de aveia que a professora dora nos ensinou. no caso, todos os pais da classe do 1º ano do colégio micael. isso faz oito anos. eu lembrava que os biscoitos eram uma delícia, porque a nalva fazia para o lanche das crianças. mas eu nunca tinha tentado fazer.

 essa é a massa super fácil


a receita é incrivelmente fácil. e os ingredientes são simples, daqueles que a gente sempre tem casa.

BISCOITOS DE AVEIA DA PROF DORA

ingreditentes

2 xic de aveia fina
1 xic de farinha de trigo
1 xic de açúcar mascavo
1 ovo
120g de manteiga sem sail

modo de preparo

misturar todos os ingredientes em uma bacia. fazer bolinhas e colocar em uma forma. levar para assar em forno pré-aquecido. tirar do forno assim que sentir o cheiro bom dos biscoitos assados (mais ou menos 15 minutos). deixar esfriar e guardar em um vidro hermeticamente fechado.

os biscoitos prontos

como toda receita, a gente pode adaptar pra o que tem em casa. eu achei a massa um pouco seca, e coloquei uma colher cheia de óleo de coco. e também coloquei chocolate em pó. e ainda um pouco de canela. ah, e a aveia que eu tinha era a grossa, não a fina. por isso o biscoito ficou tão lindo!
pode-se colocar uva passa ou qualquer noz - castanha do pará, avelã, nozes. eu não coloquei porque queria ver como ficava com chocolate e canela.
ficou s-e-n-s-a-c-i-o-n-a-l. dei pros meus filhos provarem assim que tirei do forno, que é o melhor momento de se provar um biscoito. depois proibi repetecos, senão não teríamos almoço hoje, porque as barrigas ficariam cheias de aveia...
enquanto eu ia mexendo essa massa incrivelmente fácil e deliciosa, eu fiquei pensando na alegria que eu sinto quando estou na cozinha fazendo algo com amor. por "algo" eu quero dizer qualquer coisa, desde preparar uma refeição até lavar os pratos do café da manhã. mas assar biscoitos traz mais alegria ainda, porque você tem que meter as mãos na massa e lambuzá-las para fazer as bolinhas. e depois você tem de ficar perto do forno para espiar os biscoitinhos assando e não deixá-los assar demais. e, melhor de tudo, a casa fica toda perfumada.
o único problema é que os 60 biscoitos devem terminar muito antes desta semana acabar. quando eu voltarei pra cozinha pra experimentar outra versão. com nozes.
bom domingo.    

quinta-feira, 25 de maio de 2017

o perrengue nosso de cada dia

eu tenho uma amiga que dá os parabéns toda vez que alguém pede demissão ou, melhor, é demitido. "foi demitido? ai que bom!", é a frase que ela adora. e sem lembrar disso, ontem assisti ao vídeo de uma palestra que ela deu sobre trabalho e propósito, e dei risada. eu me sentindo um asno, sem trabalho, sem ganhar dinheiro, e a ale nahra ali fazendo uma plateia inteira gargalhar com aquelas palavras de ordem - sejamos felizes.
mas depois das risadas que eu dei assistindo ao vídeo da tela do meu computador, o dia foi indo sem muita graça. as chances de a sensação de ser um asno tomar conta da gente quando estamos desempregados é grande, e é por isso que é preciso estar atento.


porém, diferentemente de um dia ordinário em que eu colocaria meu pijaminha e pularia na minha cama, ontem eu iria tomar uma cerveja com um amigo que estava fazendo 55 anos. eu tinha combinado comigo mesma que eu TINHA DE IR ao bar para, pelo menos, dar um abraço e um beijo e um feliz aniversário. depois podia dar tchau e ir embora. mas eu precisava chegar lá antes.
cumpri o combinando e subi o morro que separa pinheiros da vila madalena. uma maravilha. quando tinha a impressão de que estava chegando, ainda faltavam uns 3 quarteirões, os últimos, de aclive acentuado. cheguei ao bar suada e bufando.
conhecia poucas pessoas - pouquíssimas -, mas me sentei ao lado de um ex-colega de trabalho que largou o jornalismo para ser palhaço e professor de robótica para crianças. que presente a noite estava me dando! conversamos e eu ri muito. ele me contou como uma doença de uma pessoa próxima o fez mudar o jeito de ver a vida, e também o fez mudar de trabalho.
outro ex-colega de trabalho chega quando já estávamos, eu e o ex-jornalista, decididos a ir embora. e então escuto outra história de mudança de trabalho, um começo numa área nova, um mestrado. tudo novo, um caminho desconhecido e árduo, me conta o segundo ex-colega.
eu estava calma, no modo "economia de palavras", porque não queria vir com meu discurso de asno. quem nunca ficou desempregado? quem nunca criou filho sozinho? quem nunca ficou com medo de não ter dinheiro? hellooooooo. fiquei quietinha, e o máximo que falei era que estava procurando trabalho porque tinha sido demitida. ponto.
mas ir embora de um bar, mesmo quando são poucos os conhecidos, é um movimento lento. sempre tem mais uma coisinha pra dizer, ah, então tchau, sim, vamos almoçar, você ainda mora naquela ruazinha?, as crianças estão bem sim.
me despeço do aniversariante, e pergunto se ele ainda tem o escritório maravilhoso no centro velho da cidade, que eu conheci uns anos atrás e fiquei encantada. sim, ele ainda tem. mas está à venda.
oi? um escritório que ele amava, e que tinha tantas salas que algumas podiam ser alugadas para amigos/conhecidos, e que fica num prédio do começo do século passado. sim, está à venda por conta de uma conta de condomínio que soma vários milhares de reais, causada por um síndico insano e a necessidade de alguns ajustes de adequação do prédio, que é tombado.
saí de lá me sentindo muito uma pessoa como qualquer outra. só com mais emoções, talvez, por conta desta fase estonteante que é o desemprego. um dia, uma promessa de trabalho, no outro, envio de currículos para 3 ou 4 amigos, no outro, o trabalho que ia rolar mas não rolou, no outro, a lembrança de contratar um novo plano de saúde, já que o da "firma" vai acabar. e assim parece que a cada dia dou algumas cambalhotas. algumas rápidas, outras lentas. mas todas me deixam tonta.
tudo isso pra dizer que é preciso lembrar das coisas boas todos os dias. e que é preciso aproveitá-las também: ter tempo para cozinhar devagar, dormir cedo, estar com os filhos durante o dia para resolver bobagens do dia a dia, levar e buscar os filhos da escola sem ter de voltar correndo pro escritório, ver um filme à noite sem pensar que vai dormir tarde e no outro dia terá de trabalhar feito louca, deixar o carro na garagem por vários dias e só sair de casa a pé. e ainda colocar umas roupas esquisitas e sair feliz da vida de casa, afinal não vou encontrar ninguém, ah ah ah. até uma bolsinha vermelha de vovó saiu do meu armário depois de anos de confinamento.
tim-tim aos perrengues de todos os dias. e às alegrias também.