quinta-feira, 8 de junho de 2017

bom te ver!

existem as pessoas finas. e não é o meu caso.
entrei no escritório falando alto, bufando, reclamando de uma reunião dura que eu tinha acabado de ter com os meus advogados. bem louca. afinal, quem tem a ver com isso? mas a discrição não veio junto quando eu nasci.
há os dias tranquilos. e há os dias insanos. mas o pior de tudo é quando vem a semana insana. e assim foi.


eu pendurei na sala as bandeirinhas de tecido que costurei há séculos. minha filha achou lindo, e meu filho perguntou por que cazzo eu pendurava bandeirinhas coloridas no teto. expliquei que no mês em que se comemora são joão e são paulo, enfeitamos a casa também. ele não se convenceu.
também segui fazendo as coisas de todos os dias. mas uma enxurrada de pensamentos desnecessários tomou conta da minha cabeça, que por sua vez tomou conta do meu corpo, que por sua vez tomou conta da minha alma. e eu andei me arrastando, fingindo interesse, sorrindo sem vontade.


e hoje fui encontrar meu amigo no escritório dele. eu não queria desmarcar só porque a semana parecia estar sendo ingrata. dois dias atrás tinha almoçado com uma amiga, que me contou os planos do marido, que está partindo para uma nova profissão, de mestre cervejeiro, mas sem abandonar a antiga, de maestro de coral, e também dos planos dela, de começar a vender assinaturas de pão feitos com fermentação natural. e não, ela não ia largar o jornalismo. contou da reforma da casa, dos novos bichos que eles tinham, além do gato, mais dois cachorros. e eu, super fofa, dizia que na minha vida não tinha nada de novo, e que tudo tava um saco do além, o desemprego, a impossibilidade de requerer o seguro desemprego, o dinheiro das férias que foi pro saco por conta de um processo judicial de uma pessoa próxima contra mim, o meu medo de nunca mais conseguir um trabalho (este é um clássico do desempregado, por isso peço desculpas pela falta de criatividade), o PM que sacou uma arma mais ou menos na minha orelha quando eu estava na frente do poupatempo de praça de sé, no fétido centro de são paulo, porque estava perseguindo um camelô que vendia armações de óculos.
mas amigo de verdade dá conta de ficar conosco quando o assunto é alegre e também quando é triste. e assim foi hoje.
na hora do tchau, ele disse "bom te ver!" e eu pedi desculpas por ser uma pessoa tão chata e que fala de coisas tão duras quanto não as crianças não têm encontrado o pai e sim elas estão sempre comigo. saí chorando, descendo a rua só para pedestres que ia dar na praça da república, onde eu desceria escadas e mais escadas para entrar no metrô. ele seguiu reto, para o escritório onde eu tinha entrado duas horas antes bufando, suando e reclamando.
eu sei que os pensamentos são sabotadores. como a nuvem cinza bem escuro que anda em cima da cabeça da gente quando passamos reclamando de tudo. mas o fato de eu saber disso não faz com que eu consiga mandar esses pensamentos ó vida ó céus embora.
como diz o outro, um dia depois do outro. ainda bem que os dias terminam, e as semanas também. e depois vêm outros dias e outras semanas.



domingo, 28 de maio de 2017

como adoçar e aquecer um domingo com os biscoitos da prof dora

desde sempre eu acho divertido estar na cozinha. mesmo nunca tendo sido uma criança daquelas que recebem elogios por conta das habilidades com comidinhas de verdade.
num natal, ganhei um livrinho de receitas, e resolvi experimentar uma das receitas. para isso, preparei uma mesinha no quintal da casa onde morávamos. não lembro o que era a receita que eu tentei fazer, mas imagino que era um bolo ou biscoitos. tenho somente uma vaga lembrança de tudo dar muito errado, de os ingredientes virarem uma meleca dentro da bacia onde eu os misturava. talvez uma batedeira tenha sido envolvida - mas como eu ligaria a batedeira no quintal? não lembro dos detalhes, mas lembro que no fim, tudo foi pro lixo.
uns anos mais tarde, um grupo de meninas da turma da escola se reunia na casa de uma de nós para fazer um bolo e compartilhar a receita com as amigas. devíamos ter uns 12, 13 anos. talvez 14. achávamos essa reunião muito divertida. agora as minhas receitas já viravam um bolo, e dos bons.
mas depois que a gente cresce, casa e procria, a gente passa a ter uma fada em casa, e as aventuras na cozinha diminuem - ou terminam. nossa fada, por muitos anos, respondia por nalva. e todas as delícias que a gente comia em casa eram feitas pelas mãozinhas da nalva. bolos, biscoitos, pães, suflês, sopas.
ainda que eu não colocasse a mão na massa - almoços e jantares em casa eram preparados pela nalva, os bolos que comíamos em casa ou que eu levava a reuniões também, assim como pratos para levar a jantares na casa de amigos e bolos de aniversário -, eu segui anotando receitas.
e hoje, em vez de encher o carrinho do supermercado de cookies bauducco ou de biscoitinhos integrais mãe terra, eu resolvi fazer os maravilhosos biscoitos de aveia que a professora dora nos ensinou. no caso, todos os pais da classe do 1º ano do colégio micael. isso faz oito anos. eu lembrava que os biscoitos eram uma delícia, porque a nalva fazia para o lanche das crianças. mas eu nunca tinha tentado fazer.

 essa é a massa super fácil


a receita é incrivelmente fácil. e os ingredientes são simples, daqueles que a gente sempre tem casa.

BISCOITOS DE AVEIA DA PROF DORA

ingreditentes

2 xic de aveia fina
1 xic de farinha de trigo
1 xic de açúcar mascavo
1 ovo
120g de manteiga sem sail

modo de preparo

misturar todos os ingredientes em uma bacia. fazer bolinhas e colocar em uma forma. levar para assar em forno pré-aquecido. tirar do forno assim que sentir o cheiro bom dos biscoitos assados (mais ou menos 15 minutos). deixar esfriar e guardar em um vidro hermeticamente fechado.

os biscoitos prontos

como toda receita, a gente pode adaptar pra o que tem em casa. eu achei a massa um pouco seca, e coloquei uma colher cheia de óleo de coco. e também coloquei chocolate em pó. e ainda um pouco de canela. ah, e a aveia que eu tinha era a grossa, não a fina. por isso o biscoito ficou tão lindo!
pode-se colocar uva passa ou qualquer noz - castanha do pará, avelã, nozes. eu não coloquei porque queria ver como ficava com chocolate e canela.
ficou s-e-n-s-a-c-i-o-n-a-l. dei pros meus filhos provarem assim que tirei do forno, que é o melhor momento de se provar um biscoito. depois proibi repetecos, senão não teríamos almoço hoje, porque as barrigas ficariam cheias de aveia...
enquanto eu ia mexendo essa massa incrivelmente fácil e deliciosa, eu fiquei pensando na alegria que eu sinto quando estou na cozinha fazendo algo com amor. por "algo" eu quero dizer qualquer coisa, desde preparar uma refeição até lavar os pratos do café da manhã. mas assar biscoitos traz mais alegria ainda, porque você tem que meter as mãos na massa e lambuzá-las para fazer as bolinhas. e depois você tem de ficar perto do forno para espiar os biscoitinhos assando e não deixá-los assar demais. e, melhor de tudo, a casa fica toda perfumada.
o único problema é que os 60 biscoitos devem terminar muito antes desta semana acabar. quando eu voltarei pra cozinha pra experimentar outra versão. com nozes.
bom domingo.    

quinta-feira, 25 de maio de 2017

o perrengue nosso de cada dia

eu tenho uma amiga que dá os parabéns toda vez que alguém pede demissão ou, melhor, é demitido. "foi demitido? ai que bom!", é a frase que ela adora. e sem lembrar disso, ontem assisti ao vídeo de uma palestra que ela deu sobre trabalho e propósito, e dei risada. eu me sentindo um asno, sem trabalho, sem ganhar dinheiro, e a ale nahra ali fazendo uma plateia inteira gargalhar com aquelas palavras de ordem - sejamos felizes.
mas depois das risadas que eu dei assistindo ao vídeo da tela do meu computador, o dia foi indo sem muita graça. as chances de a sensação de ser um asno tomar conta da gente quando estamos desempregados é grande, e é por isso que é preciso estar atento.


porém, diferentemente de um dia ordinário em que eu colocaria meu pijaminha e pularia na minha cama, ontem eu iria tomar uma cerveja com um amigo que estava fazendo 55 anos. eu tinha combinado comigo mesma que eu TINHA DE IR ao bar para, pelo menos, dar um abraço e um beijo e um feliz aniversário. depois podia dar tchau e ir embora. mas eu precisava chegar lá antes.
cumpri o combinando e subi o morro que separa pinheiros da vila madalena. uma maravilha. quando tinha a impressão de que estava chegando, ainda faltavam uns 3 quarteirões, os últimos, de aclive acentuado. cheguei ao bar suada e bufando.
conhecia poucas pessoas - pouquíssimas -, mas me sentei ao lado de um ex-colega de trabalho que largou o jornalismo para ser palhaço e professor de robótica para crianças. que presente a noite estava me dando! conversamos e eu ri muito. ele me contou como uma doença de uma pessoa próxima o fez mudar o jeito de ver a vida, e também o fez mudar de trabalho.
outro ex-colega de trabalho chega quando já estávamos, eu e o ex-jornalista, decididos a ir embora. e então escuto outra história de mudança de trabalho, um começo numa área nova, um mestrado. tudo novo, um caminho desconhecido e árduo, me conta o segundo ex-colega.
eu estava calma, no modo "economia de palavras", porque não queria vir com meu discurso de asno. quem nunca ficou desempregado? quem nunca criou filho sozinho? quem nunca ficou com medo de não ter dinheiro? hellooooooo. fiquei quietinha, e o máximo que falei era que estava procurando trabalho porque tinha sido demitida. ponto.
mas ir embora de um bar, mesmo quando são poucos os conhecidos, é um movimento lento. sempre tem mais uma coisinha pra dizer, ah, então tchau, sim, vamos almoçar, você ainda mora naquela ruazinha?, as crianças estão bem sim.
me despeço do aniversariante, e pergunto se ele ainda tem o escritório maravilhoso no centro velho da cidade, que eu conheci uns anos atrás e fiquei encantada. sim, ele ainda tem. mas está à venda.
oi? um escritório que ele amava, e que tinha tantas salas que algumas podiam ser alugadas para amigos/conhecidos, e que fica num prédio do começo do século passado. sim, está à venda por conta de uma conta de condomínio que soma vários milhares de reais, causada por um síndico insano e a necessidade de alguns ajustes de adequação do prédio, que é tombado.
saí de lá me sentindo muito uma pessoa como qualquer outra. só com mais emoções, talvez, por conta desta fase estonteante que é o desemprego. um dia, uma promessa de trabalho, no outro, envio de currículos para 3 ou 4 amigos, no outro, o trabalho que ia rolar mas não rolou, no outro, a lembrança de contratar um novo plano de saúde, já que o da "firma" vai acabar. e assim parece que a cada dia dou algumas cambalhotas. algumas rápidas, outras lentas. mas todas me deixam tonta.
tudo isso pra dizer que é preciso lembrar das coisas boas todos os dias. e que é preciso aproveitá-las também: ter tempo para cozinhar devagar, dormir cedo, estar com os filhos durante o dia para resolver bobagens do dia a dia, levar e buscar os filhos da escola sem ter de voltar correndo pro escritório, ver um filme à noite sem pensar que vai dormir tarde e no outro dia terá de trabalhar feito louca, deixar o carro na garagem por vários dias e só sair de casa a pé. e ainda colocar umas roupas esquisitas e sair feliz da vida de casa, afinal não vou encontrar ninguém, ah ah ah. até uma bolsinha vermelha de vovó saiu do meu armário depois de anos de confinamento.
tim-tim aos perrengues de todos os dias. e às alegrias também.

sexta-feira, 19 de maio de 2017

uma dieta para parar você

eu lembro de ter feito duas dietas daquelas que se faz para emagrecer. a primeira, quando quis parar de fumar pela primeira vez (depois eu teria de parar de fumar mais uma vez). a segunda, quando quis ter um filho e achei conveniente engravidar magra (depois eu engravidaria outra vez sem fazer nenhuma dieta antes e fiquei gigantesca).
mas ao longo da minha vida tenho colecionado outros tipos de dieta. sigo o que os meus adoráveis médicos recomendam, e costumo ficar felicíssima. uns 20 anos atrás passei 40 dias sem carboidratos. depois faria isso algumas outras vezes. depois conheci uma dieta detox daquelas que perto da segunda semana a gente tem certeza de que vai morrer, mas não só não morre como ao fim da temporada com muito caldo de verdura sente-se revigorado, mais forte, sadio e magro, é claro.
desta vez repeti uma dieta duríssima, que apesar de durar só uma semana exige esforços hercúleos. da primeira vez, fiquei uma semana trabalhando em casa - tudo acordado no escritório, de forma que eu não sairia de casa de segunda à sexta daquela semana -, mas sem filhos. isso quer dizer que virei uma mulher das cavernas. saía de casa para uma rápida caminhada ao sol de manhã cedo, e depois passava o dia em casa, sozinha, trabalhando. como a ingestão de alimentos é pífia, eu ia dormir quando anoitecia, e acordava quando amanhecia. quando terminou aquela semana e eu saí de casa para comprar tofu e voltar a comer (quase) normalmente, me senti um ser extraterrestre, fiquei tonta com o barulho dos ônibus e voltei pra casa meio apavorada.
mas desta vez o cenário era diferente. 1- eu estou desempregada, portanto minhas atividades diárias são procurar trabalho e fazer tudo o mais que uma pessoa que mora com dois filhos faz durante o dia. 2 - os meus filhos estariam em casa, iriam pra escola todos os dias e dela voltariam.
a oportunidade era imperdível. quando eu trabalho demais não há como fazer essa dieta. e eu estava aflita com a possibilidade de pegar muitos trabalhos ao mesmo tempo e ter de dizer bye bye dieta. então, corajosamente, segunda-feira comecei meus rituais detox. 
hoje foi o último dia - ou melhor, está sendo. costuma ser o pior de todos (costuma não. tinha sido o pior de todos da outra vez). mas desta vez não foi o pior de todos. uns dias foram ruins, outros foram bons, mas ontem eu acordei morrendo de medo e pensei em desistir. 
fazer dietas medievais com filhos dentro de casa é um desafio. aliás, sempre é um desafio ter filhos dentro de casa. lamúrias à parte, eu tentei não expor os meus filhos a detalhes desnecessários. então eles sabiam que eu estava sem fazer refeições e por isso não sentava com eles à mesa. e sabiam que como eu não estava comendo (eu só estava bebendo), não iria cozinhar muito pra eles. 
ou seja, uma insanidade. uma pessoa que não vai comer fica fazendo comida e lavando louça. e pensando no que vai oferecer pros filhos na refeição seguinte. e colocando pão e geleia na mesa para o café da manhã (deles).
fiquei intrigada, pensando em por que raios uma pessoa tem uma ideia dessas que eu tive. e acho que descobri: faço dietas para parar. ou melhor, para diminuir drasticamente a minha velocidade. dietas mudam o ritmo da gente. fazem a gente não fazer nada no automático, porque tudo está diferente. você não tem como fazer tudo o que faz quando está em casa se está hospedado em um hotel. numa dieta é a mesma coisa. tudo é diferente. 
ao mesmo tempo em que fui me transformando de novo na mulher das cavernas, tinha minhas meditações interrompidas pelos gritos dos meus filhos discutindo quem ia tirar ou por a mesa, quem tinha deixado não sei que luz acesa, quem ia fechar a janela. o que era pra ser uma espécie de retiro, mas dentro da própria casa, às vezes parecia uma prisão num lugar de loucos. mas isso também faz parte, a paciência e a tentativa de fazer coisas que são quase uma insanidade para uma mãe com dois filhos dentro de casa. e no meio de tudo isso terminei de ler quatro livros em cinco dias. havia muitos anos que eu não lia tanto.
amanhã vou ter um café da manhã farto (tofu com couve e broto de alguma coisa), e um almoço com arroz, depois de uma semana sem ingerir sólidos. terei de dirigir, também, depois de uma semana. a vida vai voltando ao normal, assim como voltará quando eu estiver trabalhando de novo. 
resumo de ópera: sobrevivi. mas agora vem o mais difícil: seguir lenta, calma, num ritmo são, mesmo com o barulho lá fora e com os gritos dos dois aqui dentro.  

terça-feira, 9 de maio de 2017

as dores do chute na bunda

boa sorte. um bom novo trabalho. volte logo.
assim se despediu o pequeno e enrugado médico do trabalho com quem eu fiz meu exame demissional - e que também tinha feito o meu exame admissional e um outro entre esses dois.
ser demitida é chato. fazer o exame demissional é chatíssimo. eu estava naqueles primeiros dias de demitida, me esforçando pra fazer cara de quem NÃO levou um chutão na bunda. requer esforço e elegância.
mas eu achei tão doce a frase do médico que saí feliz da vida daquele cafofo onde todos os dias dezenas de pessoas vão fazer algum exame relacionado ao trabalho.
depois da tontura da primeira semana, me dei conta de uma coisa que eu já falava, mas precisava sentir: todo pontapé que levamos é bom, mesmo quando achamos ruim. a vida vai nos chutando e a gente vai sendo arremessado pra frente. até porque na vida não tem pra trás: não podemos voltar, só ir.
e hoje, mais de um mês depois, me dei conta de outra coisa: que quem fala que é bom "sair da zona de conforto" possivelmente tem uma vida beeeeeeeem cheia de conforto estabilidade posses e mimos, e diz o que diz porque acha que isso é bacana, traz uma imagem de wow-você-é-mesmo-descolado.
quem gosta de desconforto? quem gosta de não saber quanto vai receber em um mês - e SE vai receber, porque se não trabalhar não vai receber nada? quem gosta de não saber se vai ter dinheiro na conta no dia que vencer a mensalidade da escola dos filhos?
não conheço.
e sem rodeios, a verdade é que é muito duro viver. com ou sem trabalho, com ou sem filhos, com ou sem dinheiro. não existe um modus vivendi mais fácil - para desapontamento de personnal coachers (será que é assim que se escreve?) e magos da felicidade. e é aqui que entra outra descoberta minha após o chute na bunda: se o que temos para hoje é um dia de ócio, lá vou eu vivê-lo.
devemos vir com algum defeito de fabricação pra pensarmos que a vida sem um emprego é uma vida vã. que quem não vai pro escritório não tem o que fazer e fica deprimido. que procurar trabalho é uma atividade enfadonha.

quem não vai pro escritório pode fazer quiabos crocantes para o almoço!

o ócio pode ser uma fonte de alegria gigantesca. procurar trabalho pode ser divertido e animador, afinal, se você for bom nisso, você vai almoçar ou tomar café da manhã ou sair pra jantar ou só pra tomar um café com muitas pessoas legais, que você às vezes não via fazia muito tempo. ou pra quem você nem dava muita bola. é sempre bom mudar a perspectiva do olhar para também mudar os velhos e tão chatos pontos de vista.
mas gastar dinheiro sem estar recebendo um salário? o quêêêê?
sim. faz parte da alegria de estar desempregada - ou mais politicamente correto "em situação de ócio", ah ah ah.
graças à maternidade tenho alicerces pesados que me ligam à realidade concreta e me impedem de ir pra grécia passar uns dias mergulhando, ou à nova york para passar uns dias comprando. ou visitar minha amiga no sul da bahia e comer muito peixe fresco.

vista do começo da subida do rio em itacaré (BA), numa tarde de segunda-feira.

nesses dias de procura por frilas e fixos, descobri pessoas queridas, e outras gentis, que me mandam links como vagas de trabalho. descobri também pessoas fuçando no meu linkedin, de onde sempre desconfio que nunca sairá nenhuma oportunidade legal de trabalho.
você gosta de trabalhar ou você precisa trabalhar?, ela me perguntou.
eu fiquei olhando, pensando que se eu dissesse "os dois", talvez a minha resposta fosse de baixo impacto, e eu queria que fosse uma resposta de alto impacto. quieta, respirei, e saiu da minha boca um nada lisonjeiro "sou mãe solteira".
fim de papo. ela ficou impressionada. eu nem queria tanto, mas a frase escapou antes que eu pensasse em algo melhor pra dizer.

casinha remanescente em pinheiros. pessoas demitidas andam muito.



segunda-feira, 1 de maio de 2017

lidando com a (própria) sujeira

um fim de semana grudado com um feriado na segunda-feira e com uma greve geral na sexta-feira é um fim de semana longo. 
depois de uma sexta-feira gloriosa - sim, a greve rolou; não, eu não fui à manifestação; sim, eu tenho vergonha da cobertura jornalística feita por quase todos os veículos; e não, eu não consegui lavar roupas na lavandeira porque ela estava fechada! -, acordei sábado com a certeza de que a minha adorável faxineira chegaria a qualquer momento. mas este momento não chegou. ainda que na minha casa já tenhamos passado daquela fase em que se não tem alguém para limpar arrumar guardar a casa fica parecendo um campo de guerra, as vindas da ana a cada 15 dias deixam a nossa casa de um jeito que nós não conseguimos. usamos vassoura e sapólio, mas a ana usa cândida e álcool...
eu conheci a ana mais de 20 anos atrás, quando ela limpava a casa onde eu morava com meu ex-marido. depois nunca mais tive dinheiro para ter uma faxineira, mas ela era um anjo da guarda que aparecia em horas difíceis, como quando a santa nalva tirava férias de 30 dias, eu seguia trabalhando e meus filhos estavam comigo DURANTE AS FÉRIAS ESCOLARES deles, não minhas.


montanha de roupas sujas socadas no cesto

liguei pra casa dela algumas vezes, mas estava sempre ocupado. e como a ana é dessas pessoas raras, que não usa celular, eu não tinha mais o que fazer senão partir pra luta. lavar a louça, varrer a casa, lavar banheiro e, oh my god, começar a lavar a roupa suja que aguardava no cesto fazia quase duas semanas, desde que a minha lavadora tinha quebrado. mas a minha máquina nova tinha acabado de ser instalada. wow!
o dia estava cinza e fazia frio. eu estava desapontada em ter de trocar passeios de bicicleta por uma faxina meia-boca que eu mesma teria de fazer. em algum momento na minha vida de menina mimada (provavelmente quando nasci) me acostumei com alguém arrumando e limpando a casa onde eu morava. e o caminho para se acostumar a arrumar e limpar a própria casa é longo - e feliz também.
...
no domingo duas amigas viriam em casa para fazermos um almoço alemão. mas eu tinha de fazer a sobremesa antes. enlouqueci e resolvi fazer uma receita que eu nunca tinha feito, uma nusstorte. a receita, austríaca, é de um livro de receitas maravilhoso da rosa belluzzo, prima do meu ex-marido (cozinha dos imigrantes).  


o pão de ló com chocolate meio amargo ralado e nozes picadas
 
a calda 
as nozes para a decoração
aha! a torta 
eu adoro ter amigos na minha casa. mas dessa vez foi mais adorável ainda, porque o gustavo era o nosso convidado especial. ele veio para o primeiro evento social da vida dele fora da barriga da mãe. 

lívia distrai o pequeno gustavo enquanto as mulheres se divertiam na cozinha 

e entre uma chorada e outra, troca de fralda e mamadeira, e uma ida ao supermercado para comprar vinhos, fizemos um almoço espetacular. goulasch com spätzle. a paula, cozinheira-chefe do nosso almoço, nunca tinha feito goulasch. então dividimos, eu fiz a carne, ela fez a massa.
o gustavo resmungava, a paula dizia que assim não ia dar pra fazer o almoço, e eu pensava em voz alta que não tínhamos pressa. 
...
a paula é mãe solteira, uma mulher brava e corajosa. a judith não tem filhos biológicos, mas tem uma enteada e convive muito bem com as amigas que são mães. 
juntar amigos na cozinha é sempre uma alegria. talvez por isso a minha cozinha seja muito frequentada - ah ah ah, frequentada parece coisa de clube, "o clube é muito bem frequentado". 
poder falar sobre a nossa vida enquanto comidas são preparadas no fogão é bom. do que está bom e do que está ruim. do que temos feito e do que temos de fazer. 
eu estava com a boca cheia de água para picar as dez cebolas que eu tinha de picar quando escuto o seguinte: "nesta semana eu me senti muito incompetente. e ainda bem que a tita está com a boca cheia de água porque ela não vai poder dizer nada". eu seguia com a boca cheia de água picando as cebolas e ela seguia explicando como foi horrível chegar a uma visita atrasada por conta de um pau no computador. chegar a um encontro com amigas atrasada por conta de um cliente insano, ter o computador quase morto mas conseguir fazê-lo voltar à vida sozinha, esquecer do imposto de renda e se sentir muito incompetente. e então ela disse o melhor de toda a história: que resolveu fazer UMA coisa de cada vez durante a semana. 
comemos muito, falamos muito e o almoço acabou quando já era noite e todas tínhamos falado de como era especial ter esses encontros.
...
o fim de semana longo de quatro dias vai terminar hoje. para o almoço terei um maravilhoso goulasch. e de sobremesa, a torta de nozes, fabulosa, que me fez pensar tanto na minha mãe, que amava e sabia fazer tortas inesquecíveis. 
finalmente fui cuidar da minha horta, colocar terra nova, adubo, cortar galhos secos, trocar algumas plantas para vasos maiores.

o alecrim, que é vizinho de vaso do manjericão, cuja sombra aparece na parede

eu não sou dessas que cuida muito bem da horta. só cuido bem. 
enquanto eu cortava com uma tesoura os galhinhos secos do manjericão e pensava que uma das abelhas gorduchas que sobrevoavam por ali poderia me picar, percebi que mexer na minha pequena horta me faz não pensar em nada. ops! sem palavras para descrever.

o capim cidró da horta que eu nem cuido com tanto afinco
lembro agora da conversa de ontem na cozinha. "o que você está fazendo?" eu terminei um frila. e não tenho nenhum outro. então eu vou ter de ir atrás de trabalhos. 
e em vez de sentir falta de ar, eu sinto uma alegria enorme. enorme mesmo, não estou exagerando. acho muito massa poder ir atrás de trabalho. acho que bons trabalhos podem - e vão - surgir.
bom fim de feriado.
:)



sexta-feira, 28 de abril de 2017

tentando ver o lado bom

ia acordar às 5:30 para meditar ANTES de sair do meu quarto e começar a corrida desenfreada do dia. mas antes de o despertador tocar eu acordei e mudei o horário para as 6:30. afinal, um dia sem meditar logo cedo não é tão mal assim.
hoje é dia de greve geral. eu não tenho ideia de como está o mundo lá fora, porque ainda não saí de casa. mas acabei marcando dois compromissos logo cedo. meu adorável faz-tudo viria às 7h para instalar a minha linda lavadora de roupas. e eu faria uma chamada de skype com um cliente para validar trechos do arquivo do livro dele que eu revisei.
saí da cama às 6:30 e fui voando pra cozinha arrumar a zona. ainda que o joel sempre atrase, eu não gosto nem de me atrasar nem de deixar visível que a minha casa está um caos, passados 15 dias que a ana veio limpá-la. tampouco gosto de tomar café da manhã correndo, :(
e então, lentamente, lavei toda a louça, preparei uma sopa para garantir o que comer no almoço e finalmente preparei o meu maravilhoso café da manhã que há meses mais parece um almoço do que um café porque não como mais cardoidratos na primeira refeição do dia.
o tempo ia passando, e eu, vestida, cozinha limpa, pensava ah, tudo bem o joel atrasar um pouco, afinal eu já arrumei tudo e já tenho até uma sopa pronta para o almoço, e ah, como é legal não ficar aflita e ir fazendo as coisas que têm de ser feitas.
esqueci de dizer: HOJE também é o dia que a ana vem na minha casa e a transforma num lugar limpo, arrumado, cheiroso e irreconhecível. ela vem uma sexta sim, outra não. e HOJE é a sexta-feira sim. mas hoje tem greve e os ônibus e os trens e os metrôs pararam em são paulo. isso quer dizer que a minha casa, descontando a pia da cozinha, tá uma pocilga.
enquanto eu ia comendo o meu café-da-manhã-que-parece-almoço e achando muito divertido o fato de eu estar aprimorando meus dotes culinários (cebolas refogadas no óleo de coco com pimentão e cogumelos, e queijo tipo camembert meio ordinário por cima de tudo), o joel me manda uma mensagem dizendo que "nem sequer" saiu de casa. hum, eram 8h, ele tinha de chegar às 7h, e eu pensei que bem que ele podia ter me dito isso às 6h30. mas pra quê?
saí da cozinha e avisei meu filho que ele não ia nem triscar no meu computador pra jogar, porque eu tinha uma reunião às 9h e precisava usar a máquina um pouco antes disso.
chego feliz à grande mesa da sala onde jogamos estudamos comemos e trabalhamos e começo a arrumar o meu escritório móvel. uma canequinha de café, um copo de água, o telefone sem fio da casa, o celular, minha agenda, umas folhas para a minha reunião. piiiim, toca o whatsapp. meu cliente acordou mega gripado e oh-oh, a reunião será remarcada para depois do feriado.
eu senti um frio na barriga quando, esta semana, os noticiários da rádio começaram a dizer que a greve geral seria grande. minha amiga que vai a manifestações me alertou: se eu não quisesse ir a nenhuma, que pelo menos ficasse em casa e não saísse - um adesão tímida à greve, sugeria.
eu pensei meu deus, mais um feriado? eu vou é viajar! mas um dia depois da minha animação repentina pensei que seria ótimo ficar em casa e resolver tantas coisas domésticas, como a minha máquina de lavar - a velha quebrou faz OITO dias e a nova que precisa ser instalada chegou faz TRÊS, o que significa que a pilha de roupas sujas já é uma montanha que transborda o gigantesco cesto de roupas sujas da casa. também pensei nas estradas paradas hoje e me senti uma tola, fiquei com medo e fiquei em são paulo.




quer saber? vou agora à lavanderia "tipo as que têm na europa e nos estados unidos", como me informou por telefone a dona do lugar, colocar pra lavar a montanha de roupas da família. e depois vou aproveitar pra passear de bicicleta e curtir não ter quase nada pra fazer.
mentira. há gavetas entupidas de papéis na minha casa, e eu preciso dar um jeito nelas. arrumando ou não as gavetas, vou aproveitar o ócio e esses longos quatro dias para não fazer quase nada.
"e a sua reunião, o cliente já entrou?", pergunta meu filho, do sofá. "não, ele cancelou, está doente." "ele cancelou? ótimo!" e lá vai ele jogar um jogo bizarro que meninos adoram jogar no computador - e cujo significado e motivo de alegria eu não entendo.