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obrigada, SPTrans, por nos tratar como lixo

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estudantes de escolas públicas de São Paulo têm gratuidade no transporte coletivo. eu soube disso no começo deste ano, quando meus dois filhos saíram de escola particular e foram para escolas públicas.
funciona assim: todo mês, carrega-se o bilhete com as cotas determinadas pelo governo. então o aluno pode ir e voltar da escola sem pagar nada. mas as cotas são para ir para a escola, somente. ir ao cinema no sábado? encontrar os amigos no parque no domingo? só pagando a tarifa de R$ 4.
eis que em julho as escolas estaduais tiveram férias de 30 dias, e a municipal onde a minha filha estuda, somente uma semana. e então as cotas do bilhete de ônibus dela terminaram, e eu achei a coisa mais natural do mundo dar a ela o bilhete do irmão, que estava em casa de férias, para ela ir à escola.
esta semana, chegaram em casa duas correspondências da SPTrans para o meu filho. assinada pela gerência de comercialização e prevenção de fraude, as cartinhas, idênticas, informavam que o passe livre do me…

os cabelos vermelhos e a família feliz de josé

josé entrou no vagão acompanhado do pai, da mãe e dos dois irmãos mais velhos. como eles eram muitos, e estavam bem na minha frente, não pude deixar de notar.
ele tinha os cabelos muito crespos e ruivos. sentou-se num banco individual, e em segundos estava de pé sobre o banco. logo estava sentado novamente. o pai, um homem muito magro e com a cara enrugada, possivelmente com menos idade do que parecia, ficou em pé, ao lado do banco onde o filho caçula estava sentado.
mãe e filha sentaram-se nos dois bancos próximos ao de josé, e o filho do meio sentou-se sozinho e de costas para toda a família.
eu olhei para o pequeno ruivo e ele abriu um sorriso enorme. os dentes da frente não eram brancos, mas de onde eu estava não dava para ver se eram dentes escurecidos por alguma batida ou se eram dentes podres. o sorriso do menino era maravilhoso.
assim que as portas do vagão fecharam, um gorducho que estava de pé anuncia que faz parte de uma organização, eu não consigo entender tudo o que ele d…

eu vou ser feliz. beijo, te amo

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ela sempre diz 'te amo' quando peço algo que ela não quer fazer. eu tinha voltado da minha caminhada, e ela tinha acabado de acordar e estava tomando café da manhã quando eu perguntei "vamos ao supermercado?" ela respondeu "vou ser feliz. beijo, te amo" e saiu da cozinha, me deixando sozinha. comecei a rir. como ficar brava com uma pessoa que responde "eu vou ser feliz"?
eu sinto muito tédio. ficar sem trabalho me provoca aflições que começam no estômago, sobem pra cabeça (onde rola o blá blá blá destruidor de autoestima) e toma conta do meu corpo inteiro. e então nesses dias em que acordo chafurdando na lama do tédio vou andar - mesmo que na velocidade de uma minhoca cansada. ando feliz com o sol esquentando a minha pele branquela, mas me sentindo mais um saco de batatas bem pesado do que uma pessoa. às vezes tenho a impressão de que uma nuvem preta de cansaço e desânimo veio morar em cima da minha cabeça e aqui ficará para todo o sempre.
a coisa…

ninguém mandou ter filho

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filhos que moram só com um adulto costumam ter uma vida um pouco mais exposta à, digamos, vida como ela é.
eu sou o único adulto na minha casa. até dois anos atrás, éramos dois: a santa Nalva, que trabalhava de segunda a sexta no meu pequeno apartamento, e eu. então eu tinha, ALÉM DOS MEUS FILHOS, uma interlocutora adulta. eu entrava na cozinha de manhã, antes de sair para o trabalho, e quem tinha de me dizer se a roupa que eu estava usando estava decente? quem escutava meu blá blá blá sobre os telefonemas que eu recebia da minha mãe, que adorava contar muitas coisas quando me ligava, mas sempre esquecia de perguntar como eu estava? quem sabia de todas as minhas chateações no trabalho, na escola das crianças? a santa nalva.
mas os filhos crescem, e as santas nalvas vão embora. e então, por mais que eu me esforce, e eu me esforço muiiiiiiito, meus filhos costumam ser meus ÚNICOS INTERLOCUTORES em alguns, ou melhor, vários dias. é um pouco constrangedor admitir isso e escrever sobre o t…

o filho que volta

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ele voltou.
na minha casa, acordamos cedo todos os dias da semana. as escolas dos meus filhos não ficam longe de casa, mas eu gosto de fazer tudo lentamente, principalmente ao acordar, e meus filhos não são do tipo "a mãe chamou e todos estão fora da cama", como era na casa dos meus pais. o velho nem chegava perto da gente, eu acho. ele só acendia a luz e dizia algo como "tá na hora". quem não saísse da cama perdia a carona e pronto. jamais perdemos.
hoje não foi diferente. o despertador tocou um pouco antes das 5h. eu me atrapalhei na hora de desligar, porque troquei de lado o criado-mudo ontem e estou com a sensação de que tenho um novo quarto, desconhecido. fiz minhas preces diárias e fui acordar as crianças que não são mais crianças.
quando abri a porta do quarto deles, sabia que ia sentir o cheiro da casa cheia, da casa com todo mundo dentro, da casa com o joão e com a lívia.


meu filho saiu de casa pela primeira vez aos 14 anos. foi morar com o pai, a madrasta…

a vida sem carro

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eu virei uma andarilha. sempre gostei de andar, mas desde que deixei de ter um carro, ando compulsoriamente.
e então alguém comentou comigo que no rio de janeiro havia postos vendendo gasolina a 10 reais. por quê?, perguntei, espantada, mas meu amigo não soube me dizer. foi só quando vi o posto da esquina da minha casa com cones e com os painéis que mostram o preço do álcool e da gasolina sem número nenhum que descobri que havia uma greve de caminhoneiros que, num efeito dominó, parou o país.
é engraçado quando um problema afeta diretamente algumas pessoas, mas não você. é claro que isso é um pensamento estúpido se eu pensar que só porque não compro gasolina o fato de o país parar não é um problema meu. é claro que é. mas eu não tinha de procurar posto de gasolina com combustível nem fazer cara de espanto com os preços cobrados.
mas a greve parou o país, parou meu bairro, e me parou também. eu trabalho em casa, então não preciso sair de casa todos os dias. porém, toda vez que eu tinha…

o dia das mães em um quase haikai

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amanhã é dia das mães, e descontando o fato de eu ter comprado dois presentes para os meus filhos me darem, eu acho tudo isso uma chatice.
se alguém precisa de um dia especial para dizer pra alguém "eu te amo" ou pra dar um abraço, esse alguém não sou eu. e se alguém precisa de uma data para fazer um almoço não usual, também não sou eu.



aí que eu recebo de dois amigos queridos um texto, o mesmo texto, em que uma pessoa fala o que ela herdou dos filhos. eu li e achei estranho. primeiro, meus filhos herdaram muito de mim, mas eu, infelizmente, não tenho como herdar nada deles. tenho, isso sim, como abrir meus olhos e meu coração para poder aprender tudo o que eles me ensinam - não sei qual é a lógica, mas filhos ensinam muito mais aos pais do que o contrário. segundo, porque dizer que filho nos ensina a ter medo e nos dá estria é o oposto da minha experiência com a maternidade - que evidentemente não é cor de rosa, mas é divertida. 
e então, num guardanapo da companhia aérea q…