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Mostrando postagens de 2018

dia 1 - um ano sem comprar roupas

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existem as ideias que precisamos amadurecer, dar um tempo para pensar. e existem as ideias que já vêm prontinhas, que não nos deixam em dúvida. hoje enquanto eu meditava eu tive uma ideia desse segundo tipo. na verdade, eu resgatei uma ideia de uns anos atrás que eu nunca tive coragem de pôr em pratica. e agora me parece que este é o momento correto para fazer a ideia virar uma ação. não estou criando nada, mas estou precisando de um desafio para colocar no lugar o meu consumismo.
éramos 18 mulheres e dois pequenos rapazes, gustavo, de quase 2 anos, e rafael, de pouco mais de 1 ano. num determinado momento, eu fiquei em silêncio e percebi que o barulho feito por nós era quase ensurdecedor. assim é que é quando mulheres se reúnem, principalmente quando estamos celebrando.
eu não lembro de ter feito um swishing - encontro de mulheres para troca de roupas que não usam mais - com tanta gente. talvez já tenha feito. mas costumeiramente somos em menor número. eu ia tirar fotos das comidas e…

parando. de reclamar. e de correr.

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eu só lembro do primeiro nome dela. Pilar. é um nome inesquecível.
era uma palestra sobre educação, possivelmente focada nos primeiros sete anos da criança. Pilar falava maravilhas. uma delas sobre a importância de as crianças terem lugares pra se mexer dentro de casa - um colchão velho em frente à TV, pra que elas possam ficar pulando enquanto assistem algo na tela, ou uma rede pra elas poderem se balançar.
ela é uma mulher de poucas palavras, e de palavras diretas. ela me disse duas coisas que eu nunca mais esqueci. 1 - eu levantei a mão e disse que no meu pequeno apartamento não cabia uma rede, ao que ela respondeu "você pode derrubar uma parede". 2 - eu levantei a mão novamente e disse que meu filho passava o dia todo reclamando. o que eu poderia fazer? ela, maravilhosa, perguntou: "você reclama muito?" ah ah ah, nada como estar na frente de uma pessoa inteligente, forte e direta para aprender lições valiosíssimas.
o exercício de NÃO reclamar é diário. talvez a…

eu não acredito em milagres, mas eles existem

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"tirou B na prova."
"melhor aluno, articulado, responsável, adequado. é o único que sabe todas as respostas."
"só vou elogiar, tira de letra. é bem esperto."
"se esforça. contribui de forma positiva. opina, argumenta."
"nota [para ele] não é um problema."
"A na prova, B+ no trabalho, B na apresentação."
"a participação dele em aula é incrível. ele está acima da classe."
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existem pessoas que mudam. em algumas, a mudança acontece aos 16 anos.
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foram duas reuniões. nas duas, eu tinha a impressão de que estava no lugar errado. ou que estavam falando de outra pessoa. ou que eu não estava entendendo. ou que algum milagre tinha acontecido.
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eu não acredito no sistema escolar tradicional. nunca acreditei. nunca disse aos meus filhos que eles precisavam tirar uma nota x ou y. ao contrário: sempre disse a eles que eu não dava (e continuo não dando) a mínima para notas. é um sistema cretino, que massacra as crianças e…

dezembro, o mês perfeito para desentulhar a vida da gente

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quanto menos você tem, mais livre você é.
isso não fui eu que inventei, e na verdade ainda estou engatinhando na arte de ter uma vida simples, não cheia de coisas, mas ao contrário: só com as coisas necessárias.
(em inglês o oposto de só ter as coisas necessárias é uma palavra maravilhosa, cluttering. e o ato de se livrar das coisas inúteis é decluttering. não temos em português uma palavra com esse significado. na verdade a tradução de clutter é bagunçar, entulhar. então declutter seria desentulhar. a tradução do dicionário é limpar ou criar mais espaço em algum lugar.)
foi uma bobagem. eu estava sentada em frente ao meu computador, que é a minha ferramenta de trabalho, e fui ver alguma foto no meu celular. lembrei que havia fotos tiradas havia mais de um ano ali. eu até transfiro pra minha máquina, mas não apago as do celular. quem sabe eu vou precisar de alguma foto, não é mesmo? e elas vão ficando. foi então que senti uma coceira nos dedos e apaguei todas as mais de mil fotos e de…

por que raios um retiro de silêncio?

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eu queria tirar férias de mim mesma. sentadas em um café metido a besta na vila madalena, minha professora me olhava com seus olhos azuis claros e brilhantes enquanto eu chorava ininterruptamente. era um choro desses discretos, eu conseguia seguir contando a ela por que eu estava determinada a não ir ao retiro de silêncio que ela conduziria com o parceiro dela a partir do dia seguinte. ela escutava com os ouvidos, com o corpo todo e com o coração.
as lágrimas escorriam sem trégua. iam molhando meu pescoço, e eu seguia falando. vez ou outra ela dizia algo como "tita, vai ser muito bom se você for ao retiro", ou "pense e decida, porque ir ao retiro será muito benéfico para você".  eu sabia o que ela estava querendo dizer, mas eu sou cabeção e estava certa da minha decisão. eu não iria.
depois de uma hora e meia de conversa, nos despedimos gentilmente na esquina de uma rua tão íngrime que há um corrimão no meio da calçada, para as pessoas terem onde apoiar suas mãos m…

tentando não levar uma vidinha de merda

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meu relacionamento com órgãos públicos e serviços de atendimento ao consumidor não costuma ser amigável. tenho raiva da lerdeza e da burocracia num nível tamanho que não consigo enxergar quando as coisas FUNCIONAM. mas com a SPTrans, com quem tenho de ter uma relação por conta de dois filhos que andam de ônibus e para isso utilizam bilhetes de estudante, está sendo diferente.
descobri faz pouco que existe um posto de atendimento à população no centro da cidade - por telefone não existe atendimento, porque o 156 da prefeitura não informa lhufas, e pelo site é um caminho tortuoso, um incrível teste de paciência e resiliência. esse posto costuma ter filas que dão várias voltas. algo perto de 100 pessoas ou mais. porque como em todo sistema ineficiente, tem uma fila para dar uma senha e informações e outra fila para o serviço propriamente dito.
o posto abre às 7h, e meu sangue germânico influenciou minha decisão de chegar o mais cedo possível. nos meus planos insanos de mãe super eficient…

"a vida é uma luta permanente, com avanços e retrocessos"

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tudo o que eu aprendi sobre alegria, resiliência, não julgamento e fé está de férias.
fui andar para sentir no corpo o prazer de suar e esticar os músculos que todos os dias eu esqueço que tenho. mas não andei. eu me arrestei feito uma lesma infeliz pelas calçadas limpíssimas do bairro onde moro. uma senhora preta mas bem pretinha lavava o telhado de vidro da garagem de uma casa. ela estava debruçada sobre a janela aberta, onde imagino que seja o seu quarto, e segurava uma mangueira com a qual ia lavando o vidro que estava na frente e um pouco abaixo da janela. ela usava uma touca de lã justa na cabeça. cruzando a pracinha onde eu corro, mas por onde hoje eu só passei me arrastando, outra senhora de uniforme de empregada doméstica (aqueles vestidos de algodão abotoados na frente, com um avental combinando amarrado na cintura) e sandálias havaianas novinhas brancas com solado azul-calcinha varria a calçada e a entrada da garagem de outra casa. eram cerca de 7h.  eu ia andando e olhando…

eu vou comemorar

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eu fiz uma torta maravilhosa, que na verdade assou demais e ficou dura, mas mesmo assim é uma bela torta. na receita vai maçã, mas hoje eu fiz diferente e em metade da torta coloquei pêssegos nacionais, doces e saborosos.



eu vou comemorar. aliás, eu já comecei a comemorar, e por isso fiz a torta cuja receita original, que hoje eu mudei muito, é da minha mãe. a fabulosa torta de maçã da gerda.
às vezes, por falar muito rápido, expresso de forma equivocada ou tosca o que quero dizer. vou me esforçando dia a dia para ser mais lenta. isso já faz anos. mas décadas de aceleração não desaparecem num piscar de olhos. é preciso paciência. lá vou eu tentando escrever devagar o que penso rápido.
mas o que eu estou comemorando? o fato de termos feito tudo o que fizemos nos últimos dias e semanas para que o nosso país seja um lugar livre, civilizado e com alto índice de justiça e paz. 
sempre tive orgulho de ser brasileira, de ter nascido num país vasto e belo, diverso e surpreendente. e hoje eu t…

buscando a paz em tempos de guerra

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era um dia qualquer, num fim de semana. um domingo. e eu achava que devia colocar ordem numa parte da casa que parece não fazer muita diferença no dia a dia da minha pequena família: a área de serviço.
o lugar pode ser considerado inútil quando penso que vivi um ano num apartamento sem área de serviço e sobrevivi. era nos estados unidos, onde apartamentos podem até ter uma lavadora e uma secadora de roupas, mas nunca têm área de serviço. não lembro onde eu guardava o que no brasil seriam as vassouras e lá era um rodo sinistro com uma esponja na ponta. mas tudo funcionava. com um filho bebê inclusive.
mas voltando à minha área de serviço, porque eu moro no brasil e sempre tive áreas de serviço aqui. estou aqui pensando por que raios uma pessoa vai falar da sua área de serviço. bem, eu vou falar porque pela primeira vez na minha vida, pelo que minha memória dá conta, eu peguei uns panos e uma escada, além de uma esponja com detergente, e lavei o armário da área. usei uma escovinha, um p…

como potencializar sensações incômodas

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ele é um cabeleireiro muito ocupado. isso quer dizer que MESMO marcando hora para ser atendida, a possibilidade de ter de esperar além da hora marcada é de 150%, no mínimo.
eu sei disso há uns 20 anos. faz parte. e quando sabemos que alguma coisa não andará a contento, pensamos que é mais fácil lidar com ela. por exemplo: sair de carro em são paulo no fim da tarde é sempre uma ideia infeliz. sempre. se for imprescindível sair, você prepara doses extras do seu saquinho de bom humor, coloca-os na bolsa e sai.
assim eu tenho tentado lidar nas raras vezes em que vou ao cabeleireiro. reservo mais do que uma hora do meu dia, não marco nada na sequência, vou e espero. todas essas medidas deveriam ser suficientes para que eu ficasse tranquila, mas não. oh shit. eu quero funcionar sem ansiedade, mas como ela é minha amiga de longa data, ela gruda em mim feito chiclete mascado. eca!
nessas horas em que estou no salão, eu fico fingindo que estou ótima, ah-que-delícia-ter-um-tempo-para-não-fazer-…

o domingo de amélia

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amélia acordou e viu a hora no despertador que fica ao lado da sua cama. passava das 9h. nada mal para um domingo.



ela era uma mulher comum. e como muitas mulheres comuns, achava muito bom poder acordar sem o ti-ti-ti do alarme do seu despertador, que a acordava todas as manhãs, de segunda a sexta.
como uma mulher comum, amélia cuida da sua casa. ela é o que o IBGE chama de responsável pelo domicílio. e, como tal, ela não só paga todas as contas da casa, como também cuida de toda a casa. e no domingo não foi diferente.
a regra que amélia instituiu na sua casa, "usou lavou", que deveria fazer com que a pia da cozinha não ficasse com pilhas de louças, não funciona todos os dias. então a primeira coisa que amélia fez naquele domingo ensolarado foi dar um jeito na pia tomada da louça. ela não gostava de tomar café quando a cozinha parecia um campo de batalha.



a segunda tarefa do dia foi colocar roupas na máquina de lavar.
quando a cozinha tinha se transformado em um lugar civili…

obrigada, SPTrans, por nos tratar como lixo

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estudantes de escolas públicas de São Paulo têm gratuidade no transporte coletivo. eu soube disso no começo deste ano, quando meus dois filhos saíram de escola particular e foram para escolas públicas.
funciona assim: todo mês, carrega-se o bilhete com as cotas determinadas pelo governo. então o aluno pode ir e voltar da escola sem pagar nada. mas as cotas são para ir para a escola, somente. ir ao cinema no sábado? encontrar os amigos no parque no domingo? só pagando a tarifa de R$ 4.
eis que em julho as escolas estaduais tiveram férias de 30 dias, e a municipal onde a minha filha estuda, somente uma semana. e então as cotas do bilhete de ônibus dela terminaram, e eu achei a coisa mais natural do mundo dar a ela o bilhete do irmão, que estava em casa de férias, para ela ir à escola.
esta semana, chegaram em casa duas correspondências da SPTrans para o meu filho. assinada pela gerência de comercialização e prevenção de fraude, as cartinhas, idênticas, informavam que o passe livre do me…

os cabelos vermelhos e a família feliz de josé

josé entrou no vagão acompanhado do pai, da mãe e dos dois irmãos mais velhos. como eles eram muitos, e estavam bem na minha frente, não pude deixar de notar.
ele tinha os cabelos muito crespos e ruivos. sentou-se num banco individual, e em segundos estava de pé sobre o banco. logo estava sentado novamente. o pai, um homem muito magro e com a cara enrugada, possivelmente com menos idade do que parecia, ficou em pé, ao lado do banco onde o filho caçula estava sentado.
mãe e filha sentaram-se nos dois bancos próximos ao de josé, e o filho do meio sentou-se sozinho e de costas para toda a família.
eu olhei para o pequeno ruivo e ele abriu um sorriso enorme. os dentes da frente não eram brancos, mas de onde eu estava não dava para ver se eram dentes escurecidos por alguma batida ou se eram dentes podres. o sorriso do menino era maravilhoso.
assim que as portas do vagão fecharam, um gorducho que estava de pé anuncia que faz parte de uma organização, eu não consigo entender tudo o que ele d…

eu vou ser feliz. beijo, te amo

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ela sempre diz 'te amo' quando peço algo que ela não quer fazer. eu tinha voltado da minha caminhada, e ela tinha acabado de acordar e estava tomando café da manhã quando eu perguntei "vamos ao supermercado?" ela respondeu "vou ser feliz. beijo, te amo" e saiu da cozinha, me deixando sozinha. comecei a rir. como ficar brava com uma pessoa que responde "eu vou ser feliz"?
eu sinto muito tédio. ficar sem trabalho me provoca aflições que começam no estômago, sobem pra cabeça (onde rola o blá blá blá destruidor de autoestima) e toma conta do meu corpo inteiro. e então nesses dias em que acordo chafurdando na lama do tédio vou andar - mesmo que na velocidade de uma minhoca cansada. ando feliz com o sol esquentando a minha pele branquela, mas me sentindo mais um saco de batatas bem pesado do que uma pessoa. às vezes tenho a impressão de que uma nuvem preta de cansaço e desânimo veio morar em cima da minha cabeça e aqui ficará para todo o sempre.
a coisa…