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Mostrando postagens de 2018

obrigada, SPTrans, por nos tratar como lixo

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estudantes de escolas públicas de São Paulo têm gratuidade no transporte coletivo. eu soube disso no começo deste ano, quando meus dois filhos saíram de escola particular e foram para escolas públicas.
funciona assim: todo mês, carrega-se o bilhete com as cotas determinadas pelo governo. então o aluno pode ir e voltar da escola sem pagar nada. mas as cotas são para ir para a escola, somente. ir ao cinema no sábado? encontrar os amigos no parque no domingo? só pagando a tarifa de R$ 4.
eis que em julho as escolas estaduais tiveram férias de 30 dias, e a municipal onde a minha filha estuda, somente uma semana. e então as cotas do bilhete de ônibus dela terminaram, e eu achei a coisa mais natural do mundo dar a ela o bilhete do irmão, que estava em casa de férias, para ela ir à escola.
esta semana, chegaram em casa duas correspondências da SPTrans para o meu filho. assinada pela gerência de comercialização e prevenção de fraude, as cartinhas, idênticas, informavam que o passe livre do me…

os cabelos vermelhos e a família feliz de josé

josé entrou no vagão acompanhado do pai, da mãe e dos dois irmãos mais velhos. como eles eram muitos, e estavam bem na minha frente, não pude deixar de notar.
ele tinha os cabelos muito crespos e ruivos. sentou-se num banco individual, e em segundos estava de pé sobre o banco. logo estava sentado novamente. o pai, um homem muito magro e com a cara enrugada, possivelmente com menos idade do que parecia, ficou em pé, ao lado do banco onde o filho caçula estava sentado.
mãe e filha sentaram-se nos dois bancos próximos ao de josé, e o filho do meio sentou-se sozinho e de costas para toda a família.
eu olhei para o pequeno ruivo e ele abriu um sorriso enorme. os dentes da frente não eram brancos, mas de onde eu estava não dava para ver se eram dentes escurecidos por alguma batida ou se eram dentes podres. o sorriso do menino era maravilhoso.
assim que as portas do vagão fecharam, um gorducho que estava de pé anuncia que faz parte de uma organização, eu não consigo entender tudo o que ele d…

eu vou ser feliz. beijo, te amo

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ela sempre diz 'te amo' quando peço algo que ela não quer fazer. eu tinha voltado da minha caminhada, e ela tinha acabado de acordar e estava tomando café da manhã quando eu perguntei "vamos ao supermercado?" ela respondeu "vou ser feliz. beijo, te amo" e saiu da cozinha, me deixando sozinha. comecei a rir. como ficar brava com uma pessoa que responde "eu vou ser feliz"?
eu sinto muito tédio. ficar sem trabalho me provoca aflições que começam no estômago, sobem pra cabeça (onde rola o blá blá blá destruidor de autoestima) e toma conta do meu corpo inteiro. e então nesses dias em que acordo chafurdando na lama do tédio vou andar - mesmo que na velocidade de uma minhoca cansada. ando feliz com o sol esquentando a minha pele branquela, mas me sentindo mais um saco de batatas bem pesado do que uma pessoa. às vezes tenho a impressão de que uma nuvem preta de cansaço e desânimo veio morar em cima da minha cabeça e aqui ficará para todo o sempre.
a coisa…

ninguém mandou ter filho

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filhos que moram só com um adulto costumam ter uma vida um pouco mais exposta à, digamos, vida como ela é.
eu sou o único adulto na minha casa. até dois anos atrás, éramos dois: a santa Nalva, que trabalhava de segunda a sexta no meu pequeno apartamento, e eu. então eu tinha, ALÉM DOS MEUS FILHOS, uma interlocutora adulta. eu entrava na cozinha de manhã, antes de sair para o trabalho, e quem tinha de me dizer se a roupa que eu estava usando estava decente? quem escutava meu blá blá blá sobre os telefonemas que eu recebia da minha mãe, que adorava contar muitas coisas quando me ligava, mas sempre esquecia de perguntar como eu estava? quem sabia de todas as minhas chateações no trabalho, na escola das crianças? a santa nalva.
mas os filhos crescem, e as santas nalvas vão embora. e então, por mais que eu me esforce, e eu me esforço muiiiiiiito, meus filhos costumam ser meus ÚNICOS INTERLOCUTORES em alguns, ou melhor, vários dias. é um pouco constrangedor admitir isso e escrever sobre o t…

o filho que volta

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ele voltou.
na minha casa, acordamos cedo todos os dias da semana. as escolas dos meus filhos não ficam longe de casa, mas eu gosto de fazer tudo lentamente, principalmente ao acordar, e meus filhos não são do tipo "a mãe chamou e todos estão fora da cama", como era na casa dos meus pais. o velho nem chegava perto da gente, eu acho. ele só acendia a luz e dizia algo como "tá na hora". quem não saísse da cama perdia a carona e pronto. jamais perdemos.
hoje não foi diferente. o despertador tocou um pouco antes das 5h. eu me atrapalhei na hora de desligar, porque troquei de lado o criado-mudo ontem e estou com a sensação de que tenho um novo quarto, desconhecido. fiz minhas preces diárias e fui acordar as crianças que não são mais crianças.
quando abri a porta do quarto deles, sabia que ia sentir o cheiro da casa cheia, da casa com todo mundo dentro, da casa com o joão e com a lívia.


meu filho saiu de casa pela primeira vez aos 14 anos. foi morar com o pai, a madrasta…

a vida sem carro

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eu virei uma andarilha. sempre gostei de andar, mas desde que deixei de ter um carro, ando compulsoriamente.
e então alguém comentou comigo que no rio de janeiro havia postos vendendo gasolina a 10 reais. por quê?, perguntei, espantada, mas meu amigo não soube me dizer. foi só quando vi o posto da esquina da minha casa com cones e com os painéis que mostram o preço do álcool e da gasolina sem número nenhum que descobri que havia uma greve de caminhoneiros que, num efeito dominó, parou o país.
é engraçado quando um problema afeta diretamente algumas pessoas, mas não você. é claro que isso é um pensamento estúpido se eu pensar que só porque não compro gasolina o fato de o país parar não é um problema meu. é claro que é. mas eu não tinha de procurar posto de gasolina com combustível nem fazer cara de espanto com os preços cobrados.
mas a greve parou o país, parou meu bairro, e me parou também. eu trabalho em casa, então não preciso sair de casa todos os dias. porém, toda vez que eu tinha…

o dia das mães em um quase haikai

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amanhã é dia das mães, e descontando o fato de eu ter comprado dois presentes para os meus filhos me darem, eu acho tudo isso uma chatice.
se alguém precisa de um dia especial para dizer pra alguém "eu te amo" ou pra dar um abraço, esse alguém não sou eu. e se alguém precisa de uma data para fazer um almoço não usual, também não sou eu.



aí que eu recebo de dois amigos queridos um texto, o mesmo texto, em que uma pessoa fala o que ela herdou dos filhos. eu li e achei estranho. primeiro, meus filhos herdaram muito de mim, mas eu, infelizmente, não tenho como herdar nada deles. tenho, isso sim, como abrir meus olhos e meu coração para poder aprender tudo o que eles me ensinam - não sei qual é a lógica, mas filhos ensinam muito mais aos pais do que o contrário. segundo, porque dizer que filho nos ensina a ter medo e nos dá estria é o oposto da minha experiência com a maternidade - que evidentemente não é cor de rosa, mas é divertida. 
e então, num guardanapo da companhia aérea q…

a mãe louca voltou

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R$ 16,65. o valor da corrida de uber apitou no meu celular. eu estava no rio, a trabalho. meus filhos estavam em são paulo. e meu filho estava se mudando para a casa da avó dele.
era fim de tarde, eu já tinha voltado para o hotel. e já tinha visto várias mensagens do meu filho reclamando que ele não conseguia chamar um carro da cabify.
eu sempre reclamei muito, e de tudo. e consegui ensinar esse comportamento para o meu filho. e dentro do gigantesco rol de reclamações, ele pediu para ir morar com a avó dele. não era um pedido recente. fazia muito tempo que ele pedia. a avó dele concordou, depois de uma conversa franca, e ele, prontamente, arrumou a mala no domingo e mudou-se na segunda.
antes de ser mãe, eu tive a sorte de ler um texto do khalil gibran sobre filhos. e, desde então, sempre tive a certeza de que meus filhos não eram meus coisa nenhuma. eram da vida. ser mãe é o maior exercício de desprendimento que eu conheço.
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enquanto meu filho se mudava, a minha filha ficava sozin…

deixando ir

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eu fui criada por uma mãe que era incapaz de manter qualquer coisa organizada. a vida dela era um caos ambulante. a bolsa, as gavetas, os armários, os documentos. por onde ela andava, havia caos: ela estava sempre indo para algum lugar, e sempre tinha de ser rápido, porque ela estava atrasada.
talvez o caos assustador em que ela vivia me ensinou o extremo oposto. raramente eu me atraso para chegar a qualquer lugar; minhas gavetas são organizadas e eu sempre sei onde estão as coisas dentro da minha casa. meu armário é quase um quadro zen, e eu estou tentando me livrar da mania das listas, o que é árduo, já que minhas listas me ajudam a ter foco e saber quais são as prioridades do dia, da semana, do mês. não, do mês, não - estou exagerando.

dentro da minha vidinha organizada me acostumei a me livrar de tudo o que eu não uso. t-u-d-o. é legal ser organizada, mas doar o que não usamos às vezes pode ser uma obsessão. eu ainda não sei medir se é uma obsessãozinha, uma obsessão crescente, al…

a poderosa lição dos chatonildos e dos nossos inimigos

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"inimigos, quem tem inimigos além das pessoas do colegial de filmes americanos?", pergunta a minha filha.
talvez seja um pouco exagerado usar essa palavra, e eu nem tenho inimigos. mas tenho uma coleção de pessoas de quem eu não gosto. chatinhos em geral, gentes que me irritam, que fazem dizer coisas irônicas das quais depois eu me arrependo. gente que me faz desconfiar das suas intenções, e cujos olhares costumam me incomodar.
chatonildos podem nos tirar do prumo, fazer a nossa irritação atingir níveis estratosféricos. às vezes podem nos fazer mostrar o nosso pior, o lado mais mesquinho, mais agressivo, mais abominável.
mas eu queria falar BEM deles. e por isso me sentei para escrever este texto.
tem um vídeo belíssimo com a monja Jetsunma Tenzin Palmo sobre paciência, em que ela diz que o antídoto da raiva é a paciência - uma das perfeições, de acordo com o budismo.




diz ela que "nossos inimigos são os nossos maiores amigos espirituais, porque eles estão nos ajudando a…

querido monstro, você não vai me pegar. assinado eu.

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diferentemente das propagandas de margarina e das fotos postadas pelos amigos no clima ó-vejam-como-sou-feliz no famigerado Facebook, tem dias em que eu acordo com problemas.
não é nada prático, palpável, tipo "quando será que o meu cliente vai efetuar o pagamento que deveria ter sido feito em fevereiro?" ou "será que a greve da escola da minha filha que já dura quase três semana irá se estender por muitos dias?". são problemas imaginários. é a sabotagem, minha amiga íntima e de longa data. que vem em forma de pensamentos nada gentis como ah-que-vida-dura, ó-como-eu-sou-incapaz ou ai-eu-não-vou-dar-conta. um monstro.
quanto mais rápido eu ando, maior é a rasteira que posso levar da sabotagem. por isso, já tem uns anos que eu tenho me concentrado para andar mais devagar. foi em 2013, precisamente, que descobri que sentar e praticar meditação era uma cura para a minha velocidade estonteante (mais tarde fui descobrir que queria ensinar isso e estou fazendo formação pa…

mamãe vai viajar e já volta

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eu não sei se em todas as famílias funciona assim, mas creio que na maioria, sim. quando tem viagem, seja de filho, de mãe, de mãe com filho ou de toda a família, a mãe é a pessoa que fica mais ocupada com os preparativos. bem, me parece que há algumas exceções. caso da minha amiga que é casada com um homem que não é brasileiro e que cozinha todas as noites. suponho que ele também arrume malas e organize o porta-malas do carro e se responsabilize por outras coisas. mas ele é uma versão-quase-aberração do homem que faz.
e então eu peguei um trabalho cujo desenvolvimento exigirá algumas viagens. uma, que aconteceu uns dias atrás, e possivelmente mais uma ou duas.
tudo foi preparado com antecedência. um cliente organizado e tranquilo, eu idem ibidem. datas, agendas, cronogramas. tudo certo.
e as crianças?
eles não são mais crianças. são meus filhos. e exatamente por este motivo desta vez eles, os meus filhos, ficariam sozinhos. deixar filho sozinho não é exatamente um problema. pode ser…

o farol fechado e a pedestre boba (e feliz)

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Tem uma frase do mestre zen Thich Nhat Hanh que questiona por que estamos sempre correndo. É algo como “todos seremos enterrados quando morrermos, então pra que você corre?” As pessoas que sabem que não devemos correr sempre questionam: por que você está correndo? Onde pretende chegar? A frase me veio à cabeça durante o trajeto que estou fazendo, a pé, da minha casa até a redação da revista onde estou trabalhando por duas semanas. Como o tempo que eu levo de ônibus é igual ou superior ao tempo que eu levo se for andando, e como eu tenho um punhado de quilos que acumulei nos último anos e dos quais quero muito me livrar, decidi andar. Vou pelo caminho mais barulhento, mas mais tranquilo para pedestres. A avenida é larga e tomada de carros, e as calçadas também são largas e tomadas de gente apressada. No dia em que assisti a um vídeo sobre como fazer pedestres parar na hora de atravessar a rua, senti um grande alívio. O vídeo contava uma história (tipo uma dança que aparecia no farol p…

sobre largar a borda da piscina para se jogar

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"se pra mim já foi difícil largar a borda da piscina e me jogar na travessia marítima, imagino fazer isso com filhos."
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meu avô morava numa casa em cujo jardim, que ficava num terreno em suave declive, tinha uma piscina. eu era muito pequena e, para o meu tamanho, aquilo tudo era enorme. o jardim, a piscina, as árvores. a piscina tinha um formato arredondado, e ao redor de toda a borda, pelo que me lembro, tinha uma espécie de cano de metal pintadinho (o que fazia com que não parecessem canos) que ficava preso aos azulejos e permitia que os banhistas se segurassem ali. nós, os netos, éramos crianças e não sabíamos nadar. mas podíamos - uau! - andar ao redor de toda a piscina, na parte funda inclusive, segurando as mãozinhas nesse cano que estava em toooooooda a borda da piscina.
mesmo com essa engenhoca, cuja existência está provada na foto abaixo, meu avô, quando nadava, tinha ajuda. o generino, jardineiro da casa, ia andando pela beirada da piscina, segurando algo que, …

Marie Kondo-ing dentro de mim

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digam o que disserem, as lições mais preciosas da vida vêm nos momentos menos, digamos, felizes. isso não é uma escolha nossa, feliz ou infelizmente. assim é que é. quando o mergulho nos momentos não propriamente felizes é profundo, mal conseguimos enxergar. na verdade, por vezes não enxergamos absolutamente nada. e aí todos os comentários que escutamos nos parecem ridículos, fora da realidade ou uma piada de mau gosto.  eu devia estar chorando ao ponto de molhar a mesa sobre a qual estava o meu computador quando minha querida mentora me diz, no seu inglês de mulher irlandesa, que não ter dinheiro é um processo rico (isso não é um trocadilho), de muito aprendizado. ela lá no canadá, onde mora, eu aqui no brasil, e uma tela na cara de cada uma, de forma que ela sempre pode VER minhas lágrimas escorrendo. claro que não demorou muitos minutos do nosso primeiro encontro virtual - viriam mais outros depois - para ela dizer que eu sou fortemente regida pelas emoções. karen é uma mulher fina, …