domingo, 27 de outubro de 2013

a lente dos olhos e a do coração

"preste atenção. o que um dia se inciou tem de ser encerrado: essa é a lei do mundo. isso não é motivo de júbilo. nada vem no tempo certo, a vida não dá nada a quem se prepara. (...) duas pessoas não podem se cruzar nem mesmo na véspera, mas somente quando amadureceram para o encontro..."
lajos, em "o legado de eszter", de sándor márai
...
ela me ligou no meio da tarde. uma amiga querida estava na cidade, e haveria um jantar para poucas pessoas - ela frisou - na casa de outro amigo. e lá fui eu para a operação será-que-as-crianças-podem-ficar-com-o-pai-delas-à-noite-para-eu-poder-ir-ao-jantar-de-última-hora? eu não queria me frustrar, e fiquei pensando que tudo bem se não desse certo, mas deu. elas iriam dormir com o pai, e não na minha casa, como estava combinado.
ficamos, minha amiga e eu, combinando horários e como ir - alguém vai beber? vamos de táxi? você já chegou em casa? deu certo com as crianças?
achei maravilhoso não só ser convidada para o jantar como saber que minha amiga fazia questão que eu fosse. tenho a impressão de que cada vez menos pessoas fazem questão de qualquer coisa: dar um telefonema, tomar um café, cumprimentar com um abraço apertado.
o jantar foi na casa do rodrigo, uma casa que parece ter saído de um conto. a casa tem alma. e uma vista deslumbrante. demos gargalhadas até o momento em que alguém disse que era tarde. não lembro se isso eram 2h, ou 2h30. delícia ficar conversando, fugir da chuva, olhar pras luzinhas da cidade e não se dar conta de que passaram-se muitas horas.
fui dormir feliz, e acordei feliz.
...
eu estava dirigindo, e o dia estava terminando. é uma coisa raríssima de acontecer, eu sair de casa quando começa a anoitecer. eu ia para um curso, e andava no contrafluxo. no lado da avenida em que eu ia os carros andavam, mas na pista oposta estavam todos parados. e isso me fez lembrar dos movimentos contrários. de quando a minha médica me contou de um tipo de peixe (seria o salmão?) que nada no sentido contrário à da corrente do rio. e me fez lembrar também que como é duro fazer as coisas de um jeito diferente.
na aula daquela noite nossa instrutora de meditação nos deu um exercício para ser feito ao longo da semana: fazer cinco coisas impossíveis antes do café da manhã.
falei do exercício para os meus amigos no jantar, e todos disseram "como assim cinco coisas impossíveis?, isso é impossível!". mas essas coisas podem ser simples, como sair pelo outro lado da cama, tomar café da manhã sentado, comer com a outra mão.
é muito divertido. e depois que você começa a fazer o exercício, parece que tudo em você entende que tudo pode ser feito de uma forma diferente. eu posso falar mais devagar, posso ser mais mansa com os meus filhos mesmo em momentos que poderiam ser de fúria, posso trabalhar num domingo com alegria, posso pensar menos, falar menos, reclamar menos. e posso rir mais e olhar com mais cuidado para tudo.
como disse uma amiga, tá tudo igual, mas diferente. é como se mudasse a lente. tanto a do olhar como a do coração.



2 comentários:

  1. acabei de fazer um break do trabalho para comer um pedaço de bolo de coco e resolvi ler o texto... QUE DELICIA! que delícia te sentir leve! Que delícia pensar em praticar as 5 coisas impossíveis antes do café... quero tudo. Estou com sede de vida! beijos com saudades imensas, Ana

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    1. querida, adoro saber que você sempre anda por aqui.

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