segunda-feira, 29 de setembro de 2014

depois do sequestro, pinhão

shit happens. e um dia a merda acontece com você.
hoje aconteceu comigo. uma coisa fina, elegante e rápida. enquanto eu estava entrando no carro, vejo um sujeito entrando do outro lado. ele falou mui rapidamente. eu devia seguir as instruções, e ele não ia mostrar a arma para não assustar o bebê.
a lívia tem 9 anos. e não percebeu que o malaco era um malaco. olhei pelo espelho retrovisor e vi a carinha dela bem feliz. ela achou que eu estava dando carona para alguém. ponto.
malaco ia me acalmando, me indicava o caminho e dizia que se cruzássemos com a polícia eu deveria ficar calma. aliás, ele dizia que eu devia ficar calma, e eu respondia "obrigada por me acalmar". fofo. e patológico. ah, e qualquer coisa o malaco era "o meu filho", me instruiu o próprio.
ladeiras e mais ladeiras abaixo, chegamos. descemos do carro e fomos andando num belo campo de futebol. o malaco mandou que esperássemos. o malaco chefe estava chegando.
quando chegou, mandou eu olhar para o outro lado. pediu meu cartão, minha senha, o limite de saque da minha conta e vazou. malaco júnior mandou que lívia e eu andássemos até o fim do campinho, onde ficamos sentadas.
eu rezei rezei rezei e mostrei o céu azul e um bicho que andava com muita destreza sobre o areial do campinho. malaco júnior se juntou aos meninos que jogavam bola. nos ofereceram água, e eu tomei, pra provar pra mim mesma que não era fraca e que não podia desmaiar.
rezei rezei rezei.
malaco júnior atende o celular, e minutos depois anda até nós para dizer que podemos ir embora. ele fica com meus dois celulares - um motorola de 1920 do escritório e um samsung branco brega modelo mais barato que tinha. peço os chips, que malaco júnior me entrega desde que eu siga andando.
chegamos ao carro, lívia e eu, entramos e partimos. malaco pergunta se sei ir embora, digo que não. e ele me dá instruções.
soube que não mora por ali, e que não estuda. mas ele sabe que sou separada, jornalista, moro em pinheiros e tenho dois filhos. desconfio que malaco júnior tenha mãe, porque quando os que jogavam bola no campinho me ofereceram água, ele disse "mas essa água tá suja". ao que os boleiros disseram "suja nada, nós estamos bebendo". gente fina.
em casa, uma hora depois, abracei meu filho. e comecei a tremer. liguei pro banco, pra professora de piano que ficou esperando minha filha, pro meu trabalho pra dizer que eu tinha sumido mas tinha voltado.
minha filha ficou passada porque tratei malaco júnior muito bem. disse a ela que devemos desejar o bem de todas as pessoas.
malaco júnior perdeu a compostura quando ia andando comigo até o carro, para a libertação das reféns. "podia ter dado uma relada na senhora."
claro que eu poderia ter um canivete suíço e saber uns golpezinhos pra assustar o malaquinho, mas numa boa, achei ótimo não ter canivete nem saber golpe nenhum.
voltei pra casa. tremi e chorei. e cozinhei pinhões pra gente comer vendo o jogo.
deus esteja. e que todos os seres sejam felizes, pelamordedeus.
...
isso aconteceu mais de três meses atrás. e o jogo era um jogo do brasil. estávamos na copa. e só agora tenho coragem de publicar.
e sobre tudo isso, posso dizer que o medo paralisa. e amor, não. ele nos faz voar.

2 comentários:

  1. CARALEO!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! sem mais!

    agora voltando ao normal... que saudades e mais saudades! Porque fiquei tanto tempo sem vir aqui?????

    quero muito te ver e dividir mais a vida com você!!!!!!

    beijos mais que saudosos
    Ana

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    1. puxa, escrevi uma resposta e o google a comeu.

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