terça-feira, 23 de dezembro de 2014

sozinha,

fiz uma pequena escavação na areia fofa, e juntei num bolinho a areia, para que servisse de almofada para eu sentar e meditar.
a praia tava ficando cheia, apesar do dia cinza e com muito, muito vento. cheia quer dizer com mais gente do que eu tinha encontrado duas horas antes, quando cheguei na beira do mar para andar até a ponta da praia.
fiquei quase com vergonha de meditar num lugar público, mas acabei fechando os olhos e ficando quieta. o corpo parecia balançar suavemente com o vento. mas da cintura pra baixo eu estava sentada e imóvel.
eu sempre tenho um pouco de vergonha de fazer algumas coisas em público por poder parecer ridícula. aprendi com a minha mãe que temos de sempre olhar para ver "se os outros estão olhando o que estamos fazendo". mas agora, passados quase 44 anos, estou aprendendo a NÃO olhar para os outros porque afinal de contas a vida deles é deles e a minha é minha. é muito difícil aprender coisas diferentes das que aprendemos desde pequenos.
vim pra praia pela primeira vez na vida podendo escolher qual praia qual pousada qual dia. ninguém deu pitaco. estava morrendo de medo - um pouco pior do que a minha quase vergonha de meditar. eu quase não vim. o medo paralisa.
mas eu pensei bem e concluí que não havia mal nenhum em vir SOZINHA pra praia.
aprendi também com a minha mãe que devemos andar acompanhados. ela até dizia que rezava para eu ter uma família, porque para ela uma mulher sem marido não era ninguém. mas eu era alguém e continuo sendo, apesar de não ter marido e andar pra cima e pra baixo com meus dois filhos.
então eu vim. muito cansada, com dor no corpo, a ponto de nem perceber que o meu carro é muito, mas muito confortável. minha filha vinha feliz na estrada, olhando as nuvens e me dizendo como ela gostava de olhar para o céu e ver nuvens claras e escuras, nuvens grandes e pequenas, nuvens baixas e nuvens altas, nuvens velozes e nuvens lentas. a alegria dela era como se fosse uma música linda para mim, apesar daquele cansaço tão grande. dirigir muitos e muitos quilômetros sozinha exige disposição e confiança. eu estava confiante, mas não muito disposta, o que colocava em dúvida até a minha confiança.
eu gostaria de ter uma casinha na beira da praia ou no alto de um morro com vista para o mar. acho que eu sempre quis ter essa casinha, a ponto de aos 20 e poucos anos ter pedido 3 mil dólares emprestados para o meu pai para comprar um terreno numa praia fim de mundo em santa catarina. mais de 20 anos depois, encontrei o terreno, em cima do qual eu jamais construí nada, e o vendi.
mas a vontade não passou.
a casinha dos meus sonhos é bem simples. tem uns dois quartos amplos e arejados, uma sala com um enorme pé direito, com cozinha e com varanda e com janelas gigantescas. e um pouco de grama para pisar ou para sentar ou para deitar e ver o céu estrelado de noite.
o quarto da pousada, apesar de ter muitas janelas e três varandas e ser muito arejado, não se parece em nada com a casa dos meus sonhos. mas ainda assim é um belo quarto, de onde escuto os galhos das árvores balançando de um lado pro outro, os cachorros latindo e muitos passarinhos cantando cedo de manhã.
à noite tinha tanto vento que o barulho me deu um pouco de medo. por que eu estava sozinha numa noite tão perto do natal? por que meus filhos não estavam indo dormir perto de mim? por que eu não tinha com quem conversar?
ora bolas. eu queria muito ficar sozinha. poder andar até a ponta da praia com o vento quase incomodando, dormir cedo e acordar sem despertador, escrever sem precisar parar para fazer outra coisa mais urgente, ler alice no país das maravilhas até sentir sono e adormecer.
este ano eu me dei muitos presentes preciosos de natal. o mais importante deles não é uma coisa e não custou dinheiro. mas me deu um pouco de trabalho. é a possibilidade de sentir alegria, e muita, estando só.
ps - minha filha diz que viajou não para ficar comigo, mas para ficar com as primas. "você não acha que eu vim pra floripa pra ficar numa pousada com você, né mãe?" não, não acho.

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