inéditos

viajar combina com frio na barriga. e com lugares inéditos. pro viajante, é claro.
não é preciso ir até o fim do mundo para pisar em solo desconhecido. às vezes não conhecemos o café que fica na esquina da nossa casa, nem o nosso vizinho de porta.
mas eu SEMPRE acho que os lugares inéditos ficam no fim do mundo. e hoje viemos pro fim do mundo.
desde criança - e tem uma foto em que meu irmão é carregado num cesto de vime pelos meus pais para provar -, minha família viaja pra serra gaúcha. parece que tudo começou com o meu avô, que sendo alemão, adorava um mato e um ar fresco, que eram encontrados na serra nos meses de calor insuportável. minha mãe passava férias em são francisco de paula, e depois meus pais passavam fins de semana comigo e com meus irmãos no mesmo hotel.
mas teve um dia em que o hotel estava lotado, e fomos atrás de pouso em gramado ou canela, e meu pai resolveu mostrar pra gente o prédio onde um amigo tinha acabado de comprar um pequeno apartamento. e nesse mesmo fim de semana em que não tínhamos encontrado vaga no adorado veraneio hampel, adoramos o prédio onde o amigo do meu pai tinha comprado o tal apartamento e em algum momento depois disso meu pai também comprou um pequeno apartamento. vínhamos muito pra gramado. nos divertíamos muito. caminhávamos, comíamos bem, eu fazia tricô e acho que jogávamos. 
depois que fui embora do sul para morar no sudeste do país, vim pouco pra gramado. uma vez com um namorado, outra vez com o pai dos meus filhos, que na época também era meu namorado. mas depois que meus filhos nasceram, comecei a vir pra serra passar a páscoa ou uns dias depois do natal. mais tarde, meu filho viria com os avós, durante as férias que ele mais amava: sozinho, sem a mãe nem a irmã, na casa do nonno e da vovó em porto alegre.
e todas as vezes em que descíamos em direção ao sul do país, nos faltava tempo para conhecer novos lugares. mas isso acabou hoje.
depois de passarmos alguns dias em porto alegre e gramado com a família, partimos na nossa aventura particular, só a minha pequena família, desta vez aumentada com a minha filha japonesa adotada por uns dias, a Cintia. 
viemos conhecer os cânions entre o Rio Grande do Sul e Santa Catarina. onde há dois parque, o da Serra Geral e o dos Aparados da Serra. 
escolhi o caminho com estrada de terra, porque acho muito chato pegar o caminho mais longo e mais asfaltado. a distância é pequena: 119 km a partir de Gramado, onde estávamos. eu fico intrigada pensando por que eu NUNCA tinha vindo até aqui, mas não encontrei a resposta.
uma estrada linda, uma pista vai, a outra, vem. um acostamento tomado pelo verde. e uma sinalização pífia, quase inexistente. 
algumas paradas depois - uma numa ruazinha de Canela, outra num posto de gasolina em São Francisco de Paula e uma última numa entroncamento para falar com um motoqueiro -, e pegamos a "estrada de terra que não está muito boa, mas pode vir por ela com um carro que não seja muito baixo e durante o dia, de preferência", diziam as instruções do pessoal da pousada.

assim é a estrada de terra, versão lisa e sem cerração

íamos felizes, eu e meus três companheiros, quando a estrada ficou tomada de névoa. aqui no Sul chamamos cerração. uma neblina louca, linda e assustadora. eu, que ia a 30 km/h, ou a 40 km/h quando a estrada ficava menos pedregulhosa, passei a andar a 10 km/h. eu olhava no painel a via que ainda faltavam 20 km pra chegar, depois 10 km. era muito lento e eu tinha de prestar muita atenção para ver a beira da estrada e me manter na pista. 
um ou outro carro cruzava por nós, e todos me pareciam carros de moradores locais, menores que o meu e com motoristas mais destemidos e, aparentemente, mais experientes do que eu. de repente percebemos que atrás do nosso carro vinha outro. que foi nos seguindo até eu chegar num ponto da estrada em que eu não enxergava nada. parei, o carro que vinha atrás parou ao meu lado, e eu perguntei pra onde eles iam. estávamos indo na mesma direção, mas eles iriam um pouco além da nossa pousada. eles então foram na nossa frente e eu tive a certeza de que anjos existem. 
a partir do momento em que eu tinha um carro para seguir, a estrada foi ficando cada vez pior, com pedras grandes e muitos buracos, e placas que até então não existiam na beira da estrada diziam "cuidado, penhasco, risco de morte". 

nesta foto dá pra ver o que eu via (e não via) da estrada

nosso medo que me fazia dar umas gargalhadas insanas dentro do carro já tinha aliviado, e eu ia dizendo pros meus filhos que viagens têm graça quando dão frio na barriga, quando não sabemos o que vamos encontrar, quando o desconhecido nos surpreende. essa é a parte bonita, porque eu já tinha falado que eu nunca mais voltaria aqui, e que ninguém jamais me disse que nos cânions o tempo é instável e a cerração, assustadora.

o carro que me seguiu e depois me guiou na cerração 


vimos uma placa velha, torta e descascada, com o nome da pousada. e de repente, sem mais nem menos, vimos a pousada. buzinei e acenei pro carro onde estavam os anjinhos que nos ajudaram a chegar a este maravilhoso fim de mundo.
o chalé de madeira tem janelas grandes. uma banheira gigantesca. camas com lençóis brancos e cheirosos - eu dormi num colchonete inflável nas últimas 12 noites. a piscina térmica tem vista para um dos muitos cânions da serra, mas não enxergamos nada por causa da neblina. faz 22 graus, um luxo para o calor de janeiro. 
e na parede da casinha onde são servidos lanches, um quadrinho: hoje é o dia mais feliz da sua vida.
eu adoro viajar, e adoro ter filhos que topam meus programas de férias que incluem lugares desconhecidos, como este belo fim de mundo. 




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