o mundo que nós mostramos aos nossos filhos

- mãe, a cata pode ir em casa?
era pouco antes do meio-dia, e a mensagem apareceu na tela do meu celular e, acho que por instinto, eu vi na hora que era da minha filha. de manhã é o horário em que ela está na escola e onde, evidentemente, o uso de aparelhos celulares não é permitido.
perguntei do que ela estava falando, e COMO estava falando comigo se estava na escola, em horário de aula. ela estava no banheiro - possivelmente escondida para mandar as mensagens pra mim e conseguir resolver a tarde de hoje.
já estava combinado que a laura, uma colega da lívia, viria com ela pra casa hoje. elas voltariam de ônibus. e almoçariam e fariam a lição e brincariam, e eu chegaria em casa no fim da tarde. mas agora os planos estavam mais ambiciosos: tinha uma segunda amiga e um pedido de ir ao cinema. cinema?
- sim, mãe, a gente vai depois de fazer a lição. purf purf.
- NÃO.
é difícil dar essa resposta quando a pergunta vem de uma menina tão doce como a lívia. mas eu não ia enrolar nem pensar nem ser suave na resposta. não iriam ao cinema porque 1 - voltar de ônibus COM AMIGAS é uma aventura; 2 - almoçar com amigas em casa SEM A MÃE é libertador e 3 - hoje é um dia de semana e amanhã tem aula.
em poucas mensagens eu disse que a cata poderia vir em casa, desde que a mãe dela deixasse. a mãe dela deixou, depois de falar com o marido, e eu a avisei que precisava de 5 reais para o ônibus. a cata ficaria muito feliz, me disse a mãe dela, porque seria a primeira vez que andaria de ônibus só com as amigas.
fui recebendo reportes da lívia. liguei pra saber se já tinham chegado em casa, depois recebi uma mensagem "estamos indo ao shopping", que respondi "mas é pra ir e voltar logo", ao que a lívia escreveu "só vamos tomar um chá e já voltamos". eu estava em reunião, e me senti um picolé derretendo ao vento nas mãos de uma criança em êxtase na beira da praia. mas eu estava na reunião e fiquei quieta, mantive a compostura, e fiquei com o coração explodindo de alegria por ser mãe.
ao chegar em casa, e já sabendo que as três já tinham tomado chá no shopping e estavam a caminho da academia (!), encontrei uma pia entupida de pratos talheres panelas e uns macarrões parafuso que jaziam no fundo de tudo isso.
aha!, pensei, ANTES DE FICAR FURIOSA. elas não comeram o arroz nem o feijão que estava na geladeira, tampouco a salada de alface ou as cenouras. elas cozinharam macarrão e, de sobremesa, brigadeiro, cuja panela estava sobre o fogão, com uma colher de pau lambuzada dentro.
eu lavei tudo, porque sou do tipo que janta e era impossível pensar num jantar com uma pia nojenta. e comecei a rir quando me dei conta da lindeza que deve ter sido o almoço das três, que solenemente ignoraram a comida pronta que estava na geladeira e preparam um macarrão!
pensei na coragem dos pais que deixam seus filhos voltarem de ônibus com os meus. a escola é longe de casa. o ônibus percorre uma estrada. em casa não temos ninguém para nos ajudar, portanto as crianças colocam a mesa e preparam o almoço e tiram a mesa e lavam os pratos (ups, hoje a rotina foi quebrada).
fiquei pensando na alegria dessas crianças que têm pais que têm coragem. em cima da mesa da cozinha encontrei RG da cata e certidão de nascimento da laura. sim, elas vieram com documentos. que lindeza.
a vida foi gentil o suficiente comigo para me fazer criar filhos para o mundo. eu já acreditava nisso em teoria, e quando tive meus filhos a crença virou o nosso dia a dia. criar filhos é um ato de coragem e um ato de amor, que no fim são a mesma coisa.
eu sempre acreditei que o mundo era belo. não, isso não é piegas. eu não conseguiria criar meus filhos se não enxergasse um mundo belo diante de mim. e assim foi desde sempre. o joão tinha febres homéricas, o pai dele ficava tenso, e eu tinha uma calma quase estranha pra uma mãe de primeira viagem. depois eu viajava sozinha com os meus filhos pequenos e tinha certeza de que as coisas andariam a contento.
mas o que seria "andar a contento"? acho que é dar conta. não quer dizer que tudo será lindo e perfeito, mas que vamos dar conta do que a vida nos traz. e então aprendi a fazer viagens longas de carro sozinha com as crianças. aprendi a deixá-los atravessar a rua e comprar figurinhas na banca. aprendi a ensiná-los a pegar o ônibus. aprendi a ouvir quando ELES estavam prontos para andar de ônibus sozinhos.
ter filho dá dor de barriga. e dá alegria também. e acho que as duas coisas vêm juntas, como a coragem e o amor.
eu tenho gratidão por ter tanta alegria e tanta dor de barriga na minha vida. vai ver é por isso que não consigo mais andar de montanha-russa. tenho emoções suficientes pra achar um horror andar num carrinho daqueles.

Comentários

  1. Como eu gosto de ler teus textos! Sempre vejo tantas imagens neles. E um bom texto é um texto que faz a gente pensar por imagens, né?
    Bjs e muitas saudades, que serão matadas com um violento churrasco pós-defesa do doc!
    Guto

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