bom te ver!

existem as pessoas finas. e não é o meu caso.
entrei no escritório falando alto, bufando, reclamando de uma reunião dura que eu tinha acabado de ter com os meus advogados. bem louca. afinal, quem tem a ver com isso? mas a discrição não veio junto quando eu nasci.
há os dias tranquilos. e há os dias insanos. mas o pior de tudo é quando vem a semana insana. e assim foi.


eu pendurei na sala as bandeirinhas de tecido que costurei há séculos. minha filha achou lindo, e meu filho perguntou por que cazzo eu pendurava bandeirinhas coloridas no teto. expliquei que no mês em que se comemora são joão e são paulo, enfeitamos a casa também. ele não se convenceu.
também segui fazendo as coisas de todos os dias. mas uma enxurrada de pensamentos desnecessários tomou conta da minha cabeça, que por sua vez tomou conta do meu corpo, que por sua vez tomou conta da minha alma. e eu andei me arrastando, fingindo interesse, sorrindo sem vontade.


e hoje fui encontrar meu amigo no escritório dele. eu não queria desmarcar só porque a semana parecia estar sendo ingrata. dois dias atrás tinha almoçado com uma amiga, que me contou os planos do marido, que está partindo para uma nova profissão, de mestre cervejeiro, mas sem abandonar a antiga, de maestro de coral, e também dos planos dela, de começar a vender assinaturas de pão feitos com fermentação natural. e não, ela não ia largar o jornalismo. contou da reforma da casa, dos novos bichos que eles tinham, além do gato, mais dois cachorros. e eu, super fofa, dizia que na minha vida não tinha nada de novo, e que tudo tava um saco do além, o desemprego, a impossibilidade de requerer o seguro desemprego, o dinheiro das férias que foi pro saco por conta de um processo judicial de uma pessoa próxima contra mim, o meu medo de nunca mais conseguir um trabalho (este é um clássico do desempregado, por isso peço desculpas pela falta de criatividade), o PM que sacou uma arma mais ou menos na minha orelha quando eu estava na frente do poupatempo de praça de sé, no fétido centro de são paulo, porque estava perseguindo um camelô que vendia armações de óculos.
mas amigo de verdade dá conta de ficar conosco quando o assunto é alegre e também quando é triste. e assim foi hoje.
na hora do tchau, ele disse "bom te ver!" e eu pedi desculpas por ser uma pessoa tão chata e que fala de coisas tão duras quanto não as crianças não têm encontrado o pai e sim elas estão sempre comigo. saí chorando, descendo a rua só para pedestres que ia dar na praça da república, onde eu desceria escadas e mais escadas para entrar no metrô. ele seguiu reto, para o escritório onde eu tinha entrado duas horas antes bufando, suando e reclamando.
eu sei que os pensamentos são sabotadores. como a nuvem cinza bem escuro que anda em cima da cabeça da gente quando passamos reclamando de tudo. mas o fato de eu saber disso não faz com que eu consiga mandar esses pensamentos ó vida ó céus embora.
como diz o outro, um dia depois do outro. ainda bem que os dias terminam, e as semanas também. e depois vêm outros dias e outras semanas.



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