quarta-feira, 12 de julho de 2017

o 576M - Vila Clara e tudo o que eu precisava escutar do mestre

o nome do ônibus que eu deveria tomar é 576M - Vila Clara. pelo menos era a opção que parava mais perto do lugar onde eu tinha de ir, dentro do parque do Ibirapuera, à noite. segundo o google maps, o 576M passa no ponto a cada 15 minutos. eu acreditei. e fui pro ponto.
as pessoas que andam de ônibus todos os dias em são paulo, onde o transporte público é um lixo, aparentam ter muita paciência. elas SABEM que o busão não vai passar logo, sabem que vai estar cheio, sabem que vai estar sujo. eu, que não ando de ônibus todos os dias, sempre acho que o ônibus não vai demorar horrores, afinal são paulo é uma cidade tão grande, por que iriam tratar tão mal as pessoas que sacodem de um lado pro outro da cidade todos os dias dentro dos ônibus xexelentos que são o nosso transporte público?
ora, que tolinha.
cheguei ao ponto do ônibus uma hora e meia antes do meu compromisso. o google tinha me informado que em 45 min eu chegaria ao meu destino. mas passados 15 minutos, nenhum 576M tinha passado. fui até o cartaz que informa as linhas cujos ônibus param em cada ponto e lá estava o Vila Clara. mais 5 minutos e outros 5 minutos e nada. vi o ponto de ônibus cheio ficar vazio e cheio de novo e eu lá, vendo o trânsito parado na grande avenida enquanto eu ia criando raízes na calçada. eu olhava no relógio e pensava ah, vou esperar mais cinco minutinhos. olhava de novo e os minutinhos tinham passado, mas nem sinal do Vila Clara.
depois de uns 40 minutos plantada no ponto, eis que surge o Vila Clara. vazio! alegria. entrei, sentei, tirei o casaco porque suava - a falta de paciência faz a gente suar. e então o ônibus foi indo e parando nos pontos e em cada um deles muitas pessoas entravam. até que em 15/20 minutos viramos sardinhas em lata.
eu já tinha feito planos enquanto suspirava na calçada à espera do ônibus. chega de são paulo. não quero mais. trânsito, rodízio, ônibus lotados, metrô idem. eu vou-me embora. vamos morar num lugar civilizado, sem obras do metrô na janela de casa. sem bares que não têm alvará em todas as esquinas, sem uma prefeitura inoperante que há mais ou menos 400 anos não dá conta da cidade. já me sentia uma besta por estar no ônibus, porque só com um milagre eu chegaria no horário que eu precisava chegar.
desci do ônibus graças ao mapa do meu celular, que me mostrava onde eu estava. ia andando no escuro, cruzei uma faixa para ciclistas e não para pedestres e fui parar na ciclofaixa. arborizada, linda. até que cheguei na calçada do parque e não sabia se a entrada era andando para a direita ou para a esquerda.
mas como os santos dos mal humorados não são fracos, quem eu vejo passar na calçada logo à minha frente? o professor que falaria na aula a que eu estava indo. acompanhado de sua mulher.
fui andando atrás deles, e entrei na grande sala ANTES do começo da conversa.
uma pequena pausa, uma mini meditação, antes de começar. e Tarchin Hearn, mestre que veio da Nova Zelândia ensinar Buddha Dharma, nos chama a atenção para o barulho do trânsito - que era intenso. "eu estou aqui para você", sugeriu Tarchin para todos os que estavam ali sentadinhos escutando o mestre atentamente. sim, ele queria dizer que nós estávamos lá para também escutar aquele barulho.
enquanto escrevo estas palavras, na manhã seguinte à aula de Tarchin, escuto o barulho ensurdecedor e enlouquecedor da obra do metrô, minha vizinha de janelas (todas do apartamento, menos a da cozinha), que começou quase cinco horas atrás, às 7h, e só vai parar às 17h. minto, eles param um pouco antes do meio-dia - acabaram de parar - e por uma hora jogam dominó aos gritos e com urros, o que é um pouco assustador quando estou distraída e imagino uma briga horrorosa até me lembrar que são meus vizinhos da obra num momento relax.
voltando à aula de ontem, Tarchin abordava o tema "como podemos viver bem juntos?" oh my god!
ele conta que viaja pelo mundo ensinando paciência. mas o que é paciência? ele diz que paciência é aquilo que sentimos quando não temos de usar a palavra paciência. oh my god de novo.
e conta uma historinha pra todo mundo entender: depois de viajar pelo mundo ensinando, Tarchin resolveu ficar um tempo onde mora, na Nova Zelândia. e decidiu plantar um jardim.
um dia depois de ter plantado as sementes, ele foi ver o que já estava brotando. para sua surpresa, não havia nada. no outro dia, lá foi ele de novo no canteiro recém-plantado checar a evolução das sementinhas que ele havia colocado na terra. nada. e então ele se deu conta de que ele não tinha paciência. que as sementinhas plantadas iriam germinar e virar uma planta no seu tempo.
cada coisa tem seu tempo. e quando temos este insight, ensinou Tarchin, conseguimos relaxar.
eu devo ter babado ao escutar o que ele dizia durante a aula - que foi curtinha, das 19h30 até as 21h. porque tudo fazia tanto sentido, mas tanto sentido, que tive uma noite de princesa. daquelas que a gente deita na cama e dorme quentinha e ininterruptamente até o dia amanhecer.
sem palavras para agradecer o 576M, que passou no ponto antes que eu desistisse de esperá-lo.
...
para saber mais, ou para momentos de glória, o link da programação dos ensinamentos de Tarchin no Brasil é este: https://www.tarchinnobrasil.com/

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