bom dia, 2018

era uma cidade diferente.
de manhã, nem tão cedo assim, podia-se escutar os passarinhos. muitos deles, cantando com a alegria que é típica de todo canto de passarinho. as ruas vazias, muito vazias, como se eu estivesse em uma cidade que foi abandonada pelos seus moradores.
tive a impressão de que os passos das pessoas que andavam com seus cachorros também eram diferentes. eram passos lentos, sem pressa. passos de quem anda não para chegar a algum lugar, mas para andar.
fiz um caminho mais curto. e cruzei com somente três guardinhas de rua. trocamos "feliz ano novo" com gentileza. sem alegria nem tristeza.
na pracinha, sempre tomada de crianças, babás, pais e mães, somente três crianças eram embaladas nos balanços - por três adultos que faziam o movimento ritmado de empurrar seus filhos e esperar que o balanço voltasse para empurrar novamente as crianças. parecia uma coreografia.
ao redor da praça, ninguém andava além de mim e de um velho não tão velho assim, mas com idade suficiente para ter as pernas lisas, sem nenhum pelo. o rosto dele era o de um homem velho, cansado, mas o corpo ainda andava com o vigor dos que ainda andam mais rápido do que devagar. dei bom dia e ele, quase espantado, respondeu com outro bom dia.
o silêncio era tanto que dava para escutar os aviões. não os que passam em cima da cabeça da gente e que parece que podemos acenar com um "tchau" imaginando que os passageiros vão nos ver pequenininhos, lá de cima, através da janelinha arredondada. dava para escutar os aviões que vão lá no alto e que não podemos ver, porque estão escondidos pelas nuvens. aquele barulho abafado de avião que chama a nossa atenção quando estamos num campo, num sítio, num fim de mundo qualquer.
em uma hora de caminhada, contei os carros que passaram pela pracinha. dois.
e então, tranquilamente, cruzam por mim três pessoas, cada uma segurando a coleira de um cachorro. um garoto, que não devia ter mais de 8 anos, soltou a coleira sem querer, e a resgatou do asfalto da rua serenamente, sem susto. eu achei a cena tão linda que disse pra ele ter cuidado para não deixar a coleira cair e o cachorro sair correndo. ao que ele respondeu: "o cachorro não é meu, é dela ali". ela ali era uma senhora, a mais velha do grupo, que deu risada e disse que ele pensava que o cachorro era dela, mas não era. segui andando e cruzei com os três novamente. descobri que era uma mãe, sua filha e seu neto. a filha estava maravilhada: havia na praça um pé de mexerica, outro de limão, talvez um de manga - ela disse manga, mas eu jamais vi uma mangueira na praça. a velha, por sua vez, olhou pra mim e disse: "eu não conhecia esta praça. eu trabalho há 21 anos na rua santa cristina e nunca tinha vindo aqui. minha patroa viajou, e nós demos banhos nos cachorros e viemos andar, porque ficar em casa dá muito tédio". eu concordei com dela, dizendo que sim, a praça é muito linda.
as árvores da praça, que é pequena mas cheia de árvores gigantescas e maravilhosas, estavam muito verdes. tive a impressão de que as chuvas dos últimos dias de dezembro foram ultra generosas e eficientes e deixaram o verde tão verde que a gente olha e baba, maravilhado.
já é de tarde. a cidade segue silenciosa. como se todos os seus moradores tivessem ido embora. é quase como um conto do irmão grimm.
o ano novo começou, e isso não faz a menor diferença para mim. celebramos ontem de forma muito singela. meu filho, a avó dele e eu. depois de muitos anos, fui dormir quando já era o ano novo. foi quase um milagre para uma dorminhoca mau humorada como eu.
e depois da caminhada pela praça tão linda, eu voltei pra casa respirando o ar incrivelmente puro da cidade cinza e me sentindo muito feliz.

voltando das compras no dia 31, na cidade abandonada

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