sobre largar a borda da piscina para se jogar

"se pra mim já foi difícil largar a borda da piscina e me jogar na travessia marítima, imagino fazer isso com filhos."
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meu avô morava numa casa em cujo jardim, que ficava num terreno em suave declive, tinha uma piscina. eu era muito pequena e, para o meu tamanho, aquilo tudo era enorme. o jardim, a piscina, as árvores. a piscina tinha um formato arredondado, e ao redor de toda a borda, pelo que me lembro, tinha uma espécie de cano de metal pintadinho (o que fazia com que não parecessem canos) que ficava preso aos azulejos e permitia que os banhistas se segurassem ali. nós, os netos, éramos crianças e não sabíamos nadar. mas podíamos - uau! - andar ao redor de toda a piscina, na parte funda inclusive, segurando as mãozinhas nesse cano que estava em toooooooda a borda da piscina.
mesmo com essa engenhoca, cuja existência está provada na foto abaixo, meu avô, quando nadava, tinha ajuda. o generino, jardineiro da casa, ia andando pela beirada da piscina, segurando algo que, imagino eu, era um cabo de vassoura de madeira. os adultos nos explicavam que o acompanhamento do generino, que eu acho que era tão velho quanto o meu avô, era para o caso de o opa (assim que chamávamos o velho alfred) passar mal.
respeitávamos. afinal, para crianças a cena não era tão patética, em se tratando de um avô bravo, alemão, surdo de um (ou seriam os dois?) ouvido e com uma perna mais curta que a outra por conta da paralisia infantil.

Paulo, meu irmão, e eu dentro da piscina que tinha "canos" na borda (no alto)


hoje, imaginando a cena, cujas cores são bem apagadinhas porque faz uns 40 anos, eu fico perplexa. imagino que o opa, que pra nós, os pequenos, era um homem tão bravo, que gritava bem alto e em alemão!, era um homem medroso. mas como ele sabia nadar, diferentemente dos cinco netos, ele ia fazendo voltas pela piscina arredondada, mas um cabo de madeira salvador o seguia. nós, sem o cabo segurado firmemente pelo generino para nos salvar. íamos com as mãozinhas bem firmes, uma depois a outra, como quando as crianças se penduram em êxtase no trepa-trepa da pracinha gritando "olha  como eu sou corajoso!".
no dia em que temos coragem de entrar numa piscina sem bóia e, com valentia, largamos a borda da piscina, ah, meus deus, isso É a glória. que braveza, que destemor.
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minha amiga alessandra, que foi quem escreveu a primeira frase deste texto, largou a borda da piscina faz pouco. ela tinha uma empresa, duas amigas como sócias, adorava o trabalho. mas ela não queria "ir para o escritório todos os dias". ela queria fazer muitas outras coisas ALÉM de ir ao escritório. ela queria cuidar da horta, cuidar dos bichos dela, viajar, cozinhar (quem acha que comida vegana é ruim deve conhecer a alessandra e comer na casa dela. é um escândalo tudo o que ela faz na cozinha. t-u-d-o), fotografar, ensinar.
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é muito bom quando a vida nos mostra UM caminho. comumente são muitos, mas às vezes só há um. vendemos nosso carro ontem. tirei tudo de dentro antes de ir ao cartório. pensei coitado do josé, ficar esperando eu tirar as sacolas de compras do porta-malas, os cds da caixa ao lado do motorista, a zoe (do muppet show) que vivia dependurada no espelho retrovisor, as "coisas esquecidas" nos bolsos dos bancos, como um kit de talheres de picnic e uma pomada para picadas de insetos. quando voltei do cartório e entreguei o carro a ele, cheguei em casa sem sentimentos. meu filho, que sabia onde eu havia estado, perguntou se eu estava feliz de ter vendido nossa espaço-nave. não, eu não estava feliz, nem estava triste. eu tinha feito a coisa certa, disse pra ele. a única coisa de deveria ter sido feita neste momento.

Lívia, quando pequena, faz cara de "oh no". Que cuia escolher? 


quando estamos na frente de uma kombi que vende cachorro-quente com ketchup e mostarda e só, é uma maravilha. não há dúvidas além dos molhos. é só o que tem.
eu gosto muito quando faço o que tem de ser feito sem reclamar nem elogiar. fiquei muito cansada com as andanças desde ontem. escola nova, ônibus novo, ponto do ônibus para descer e para subir também novos. e então fui para a escola, voltei, fui de novo buscar a minha filha e voltamos. depois teve uma ida ao supermercado, além de uma caminhada para encontrar uma amiga. exausta e feliz, estou fazendo o que tem de ser feito.
minha mentora diria "yay". e eu, que não digo "yay", sinto um alívio. dá no mesmo.

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