a vida sem carro

eu virei uma andarilha. sempre gostei de andar, mas desde que deixei de ter um carro, ando compulsoriamente.
e então alguém comentou comigo que no rio de janeiro havia postos vendendo gasolina a 10 reais. por quê?, perguntei, espantada, mas meu amigo não soube me dizer. foi só quando vi o posto da esquina da minha casa com cones e com os painéis que mostram o preço do álcool e da gasolina sem número nenhum que descobri que havia uma greve de caminhoneiros que, num efeito dominó, parou o país.
é engraçado quando um problema afeta diretamente algumas pessoas, mas não você. é claro que isso é um pensamento estúpido se eu pensar que só porque não compro gasolina o fato de o país parar não é um problema meu. é claro que é. mas eu não tinha de procurar posto de gasolina com combustível nem fazer cara de espanto com os preços cobrados.
mas a greve parou o país, parou meu bairro, e me parou também. eu trabalho em casa, então não preciso sair de casa todos os dias. porém, toda vez que eu tinha de sair, andando ou para pegar um ônibus ou o metrô, eu via tudo diferente. as ruas estavam vazias, silenciosas. o metrô estava muito pior do que ruim. e os ônibus circulavam sem problemas, ainda que com menos frequência. num sábado, perguntei ao cobrador se era verdade que os ônibus iriam parar ao meio-dia, informação propagada por uma rede de TV que gosta de tocar o terror. o cobrador me olhou com uma certa ironia e disse que não, claro que não.

rua dos pinheiros segunda, 28/5, às 9h

é legal ficar espantada ao sair de casa, e eu ficava espantada todos os dias. e foi então que me dei conta de algo tão óbvio: não ter um carro faz a gente andar muito mais devagar. não que a gente vire caracóis lentos, mas parece que sem carro não adianta fazer tudo correndo. não dá pra ir ao supermercado em 15 minutos, porque esse é o tempo de chegar lá. tampouco dá pra ir rapidinho comprar verduras, porque demoro 30 minutos para chegar, e outros 30 para voltar pra casa. então uma coisa simples como fazer compras tem de ser planejado minimamente para dar certo - e dar tempo de trabalhar e de fazer as outras coisas de todo dia.
nessa vida de andarilha não tenho mais pressa na fila do caixa, tampouco fico aflita com a lentidão típica da fila que escolho. e foi assim que dia desses olhei pra trás e vi uma senhora com os cabelos muito brancos. perguntei se ela gostaria de passar na minha frente, e ela sorriu, agradeceu, aceitou e disse "que gentileza a sua". a compra dela se resumia a um vidro de geleia. além de me agradecer, ela ainda me elogiou. e contou que tinha 92 anos e ainda trabalhava, como voluntária, no hospital das clínicas. eu fiquei admirada, e disse a ela que eu queria ser como ela quando tiver 92 anos. e então ela prosseguiu: disse que também fazia tricô, crochê e bordado, trabalhos que rendem enxovais, e que dava aula de internet para crianças. nisso a fila inteira estava quase aplaudindo a senhora de cabelos brancos.
se eu estivesse de carro, tenho certo que eu não teria a paciência que eu tenho agora em filas de supermercado, que eu sempre achei tão chatas e agora não acho mais.
e pra aumentar (ou acelerar) a mudança do meu ritmo, eu ainda sento na minha almofada de meditação todos os dias. o risco intrínseco que existe na prática diária de meditação é que podemos passar a aceitar todas as coisas da vida com tranquilidade. e isso também faz com que os nossos olhos olhem pra coisas que antes não víamos - porque o ritmo é outro.
acho que dizer que adoro ser uma pessoa cada dia mais lenta tem um sentido pejorativo nesse mundo apressado e insano. tem gente que abre os olhos com horror quando digo que busco viver cada dia mais lentamente. talvez eu devesse buscar um jeito mais amigável para dizer a mesma coisa.

meditando em Botucatu

pausa para o café

minha coacher diz que temos de viver com alegria todos os dias, e não só quando estamos de biquíni sentados na areia, olhando pro mar e com um copo de caipirinha na mão. isso faz tanto sentido que chega a ser assustador. como todas as verdades simples da vida.
ps - a vida sem carro não foi uma escolha minha, mas uma falta de escolha. eu adoro ter um carro.

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