devagar, menina

não há nada com um dia após o outro, diria a minha avó. mas não há nada como um ano após o outro. eu adoro ficar mais velha. a-d-o-r-o. e hoje eu descobri, mais uma vez, por quê.
uma das habilidades que todas as pessoas podem desenvolver depois de procriar é a flexibilidade. e eu não estou falando de cancelar um compromisso, ou marcar algo de última hora. estou falando de mudar COMPLETAMENTE o seu dia porque um filho adoeceu - exemplo light.
e então hoje eu não fui nadar. em vez de mergulhar na piscina quentinha às 7am, nessa hora estava chegando à escola das crianças. meu filho pediu para levá-lo até a classe - houston, we have a problem. por milagre, não chegamos atrasados. ninguém queria sair da cama, e meu filho, em vez de fazer um desenho para o amigo com quem ele havia brigado de forma medieval no dia anterior, ficou lendo o caderno de esportes da folha de s. paulo. lovely.
chegamos. os meus pequenos herdeiros foram para suas respectivas salas, eu tomei um cafezinho e parti. cheguei em casa em inacreditáveis 30 minutos, pegando o caminho que costuma ser mega parado. a intuição vai funcionando mais com o passar dos anos e com o surgimento acelerado de cabelos brancos.
bem, tudo isso pra dizer que eu não estava tensa com o possível atraso na escola, nem com as trocentas tarefas que eu tinha de realizar hoje. peguei a estrada para voltar pra casa e, descontando meus pensamentos homicidas que tomam minha mente toda vez que vejo mais de oito motoqueiros por segundo buzinando histericamente, vim dirigindo bem feliz. mas minha felicidade teve uma pausa quando meu celular tocou e a irmã da doce nlava disse que ela, a nalva, pode estar com dengue.
cheguei em casa e brinquei de ah-como-é-bom-morar-em-paris. digo paris porque não falo francês mas acho o suprassumo do charme falar francês e bem, acho que na frança as pessoas "comuns" como eu não têm serviçais. lembrei da renata, que mora na terra do tio sam, adora, mas não tem empregada. e rala.
e então, em outros inacreditáveis 30 minutos, arrumei as camas, dobrei as roupas e pijamas jogados, guardei sapatos, coloquei roupas para lavar, soquei as toalhas na secadora, recolhi os lixos seco e comum, limpei as mesas - a da sala e a da cozinha -, guardei a louça que havia lavado ontem, tirei a mesa, lavei a louça e, suando, sentei aqui onde estou sentada novamente agora e comecei a trabalhar, esbaforida, mas sem ódio.
esqueci de contar que esfreguei violentamente a panela onde ontem muito arroz havia queimado. a doce nalva estava passando muito mal, e pelamordedeus, queimar o arroz era o mínimo que podia acontecer.
e enquanto eu esfregava a panela que tinha ficado de molho por umas 20 horas e tinha ido pro fogo com água e sabão de coco - achei que isso poderia fazer a creca preta soltar -, fiquei pensando na tal da sustentabilidade.
eu trabalho com comunicação para sustentabilidade - mas será que existe comunicação "insustentável??? - e lembrei quando uma colega de trabalho escreveu sobre sustentabilidade e a relacionou com a criação de filhos. ela tem conhecimento de causa: tem quatro filhos. e estudou sobre o tema. fez faculdade, especialização, pós e mestrado. e o que ela escreveu: "a maternidade (é) o mais importante aprendizado sobre sustentabilidade".
bem, o ponto é esse. hoje pensei muito nas minhas amigas que reclamam dos afazeres. muitas têm duas empregadas e um marido. eu acho um luxo. morro de inveja - mesmo lendo os textos da danuza leão, que me lembram que reclamar é besta e que o melhor é agradecer o que temos. salve o krishnamurti e o eckhart tolle! mas o luxo não reduz a carga dos afazeres nem ensina a gente a andar devagar. para isso é preciso beber noutra fonte.
trabalhei à tarde com dois filhos gritando no meu ouvido. eu tento explicar que é um privilégio poder trabalhar em casa, mas pra eles privilégio é jogar futebol - coisa que fizemos hoje, sob um vento gélido e dando muita risada -, jogo da velha e comer pipoca à tarde. o resto é o resto.
eles queriam dormir na casa do pai, mas o pai disse que não dava. não sei por que, nem quero saber. meu filho ligou para saber, e me disse que a irmãzinha deles (dos meus filhos) ficaria sob os cuidados de uns amigos dos pais (da irmãzinha), e que por isso ele e a irmã não podiam ir dormir no pai. minha filha chorou, disse que o pai era um cocô de algum animal, e eu chorei com ela. a mochila ela tinha arrumado quando chegou da escola, para ir dormir fora de casa.
contei lindas histórias, e eles dormiram. eu adoro sentir a doçura da vida e ver que meus filhos também veem a beleza, a delícia, o amor, o preenchimento. mesmo com o vazio, que é sempre insuportável.
amanhã vamos tomar café na padaria. e eu vou brincar que moro em paris. de novo.

Comentários

  1. Tita, agora mãe de quaaaaase dois, te admiro ainda mais! Nunca tive muitas dúvidas dos teus inúmeros talentos, mas, ainda assim, consegues me surpreender! Super beijo,
    Juli

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  2. putz juli,
    vou usar essa frase no meu currículo: "inúmeros talentos". acho um exagero da tua parte, mas me sinto lisonjeada. quanto aos filhos, respire aliviada: dar conta de dois é beeeeeem mais fácil que só de um, querida!

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  3. Nalva já voltou às lides? Como vai a vida em Paris?
    Bjs,
    Dani

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  4. tita, hoje fui numa casa onde o income é, com certeza, várias e várias vezes maior do que o nosso. casa não. mansão. e não que nem aquela do osama. os dois trabalham. ela trabalha uma semana aqui e outra fora. a filha deles tem 6 anos. eles tem uma faxineira a cada duas semanas. como a gente aqui em casa.... no mais, eles tem só uma pessoa que faz o 'after school' para eles das 3 às 6h. e é isso. a mulher impecável, a casa idem. a menina, educadíssima. e ela não é a única aqui. a maioria das pessoas só tem mesmo uma faxineira... e olhe lá! e a maioria das pessoas tb participa ativamente das atividades da escola, da igreja e ainda faz voluntariado em algum lugar. i'm not sure i've got this whole american way of life thing yet!

    eu tenho uma amiga no brasil q tinha uma babá para cada filho, mais uma empregada, uma faxineira, uma cozinheira, um motorista e.... um marido. ela não trabalhava.... e não tinha tempo para nada, filhos inclusive.

    em tempo: melhoras para a nalva!

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