o rolo compressor e a elizabeth bishop

o banheiro teria de ser parcialmente quebrado. diferentemente do que eu tinha imaginado - vamos quebrar tudo, colocar outros azulejos, pensar noutro piso, e adeus fabuloso trabalho de mosaico com a bela carpa! -, a coisa ficou simples. dez dias, 4m² de pastilhas brancas. ponto final.
mas nesses dez dias, passamos a usar o exíguo banheirinho. chuveiro elétrico, toalha fora do banheiro para não molhá-la, só uma pessoa dentro do pequeno espaço de cada vez. e no primeiro banho o joão começou a chorar. disse que aquilo era frio, horrível. eu comecei a rir. como nos acostumamos a tudo e não damos conta do que é diferente!
depois contei a história da reclamação dele no escritório, e todos foram às gargalhadas. é claro que meu filho já tomou zilhões de banhos num chuveiro elétrico, mas isso nas férias, na casa de praia do avó, na bahia. nunca em casa. e em casa não conseguimos fazer algo diferente. tudo tem de ser sempre igual. por isso nos desesperamos se o gás acaba, se falta luz, se o sinal da internet some, se a geladeira estraga.
...
olho pros quadros perfeitamente tortos na parede que está na minha frente e penso em como as coisas realmente importantes são poucas. pouquíssimas. por isso é preciso tomar cuidado pra gente não virar um bicho.
quero morar em lugares menores. quero ter menos coisas para limpar. quero ter menos roupas no armário, pouquíssimos sapatos - menos que o meu atual limite de 15, sapatos de festa e galochas incluídos -, um carro pequeno e econômico. quero ter amigos de verdade, comer comida fresca e dar muita risada. não quero pensar em aplicações financeiras, ascenção profissional, viagens caras. quero andar de bicicleta, fazer piquenique e poder falar no que eu acredito. quero que meus filhos saibam que a felicidade é gratuita.
...
a sensação de um rolo compressor passandro sobre o meu corpo era clara. ainda bem. como consegui enxergar, consegui também andar cansada e mau humorada mas soube evitar o esmagamento.
edvandro, que está consertando meu banheiro, me liga. diz que a bomba da banheira chegou, mas as franjas não. ligo para o sujeito que me vendeu a bomba, e pergunto das franjas. ele me diz que são caras. volto a falar com o edvandro, que me diz que vai providenciar não sei o quê de plástico, que é melhor. não entendi lhufas, e acredito que tanto o edvandro quanto o marcelino - que atende o telefone quando ligo pra comprar a bomba - saberão fazer o melhor.
ando trabalhando muito. ligo para o pai dos meus filhos, mesmo sabendo que o carro dele está no mecânico. não, ele não pode buscar as crianças na terça. quinta-feira. ligo de novo. terei de ir ao escritório fechar um trabalho que está ficando cabeludo. não, ele não pode. mas o carro não está pronto? não, diz ele, a peça chegará daqui a dez dias. e ele também tem consulta no oculista. não vou ligar amanhã. as crianças voltarão de busão. essa é a graça de não ter dinheiro: proporcionar uma vida um pouco mais de verdade do que eu poderia se tivesse grana.
as crianças me dizem a cada 15 dias que nunca mais irão à casa do pai. eu tento entender, rebolo, ligo pra ele, converso com as crianças. eles parecem irredutíveis. assim como eu, que ligo toda semana para perguntar se ele pode buscar as crianças na escola. por que sou tão teimosa?
...
para terminar, um poema lindo da elizabeth bishop: 

uma arte 

A arte de perder não é nenhum mistério
tantas coisas contém em si o acidente
de perdê-las, que perder não é nada sério.
Perca um pouco a cada dia. Aceite austero,
a chave perdida, a hora gasta bestamente.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Depois perca mais rápido, com mais critério:
lugares, nomes, a escala subseqüente
da viagem não feita. Nada disso é sério.
Perdi o relógio de mamãe. Ah! E nem quero
lembrar a perda de três casas excelentes.
A arte de perder não é nenhum mistério.
Perdi duas cidades lindas. Um império
que era meu, dois rios, e mais um continente.
Tenho saudade deles. Mas não é nada sério.
Mesmo perder você ( a voz, o ar etéreo, que eu amo)
não muda nada. Pois é evidente
que a arte de perder não chega a ser um mistério
por muito que pareça (escreve) muito sério.

(tradução de Paulo Henriques Brito)




Comentários

  1. ADOREI o poema! Ando pensando muito em tudo isso, Ti! De verdade...Mas ainda não consegui chegar em alguns lugares do meu insconsciente/consciente...em breve chego! Tenho ainda mais alguns meses reflexivos e transformadores que me acalentam...a natureza é sábia em nos dar 9 meses de preparação! um beijo cheio de saudades, Ana

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    Respostas
    1. não é belíssimo o poema? eu não conhecia, e uma amiga me mandou.
      saudades también, chica.

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  2. Lindo post,lindo poema!
    Bj,
    Dani

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