o bolo, a alegria, a tristeza

ser hóspede na casa dos pais da gente é uma tarefa árdua. você se sente quase em casa, e isso é um problema. quando você é hóspede na casa de um amigo, não há dúvidas: você se comporta como tal e ponto. mas na casa dos velhos o limite entre a casa do outro e eu é tênue. você faz uma coisa achando que está arrasando, afinal se sente mui à vontade. mas não arrasou coisíssima nenhuma.
além da hospedagem, tem o prazo de validade da visita. que não sei quem disse que é o mesmo do peixe fresco na geladeira: depois de dois dias começa a feder.
mas era uma data festiva - natal e ano novo -, tinha um ano que eu não visitava meus pais, as crianças estavam (e seguem!) de férias e minha mãe ia passar por uma pequena cirurgia.
eu ia feliz como uma criança gulosa que come sem pensar na dor de barriga. em todos os sentidos. passei parte do dia 24 de dezembro na cozinha preparando comidinhas para a ceia. e fiz o mesmo no dia 31: fiquei preparando um bacalhau, longe da piscina.
mas tudo que é demais é ruim. e então adoeci. especificamente depois do almoço do último dia do ano. pedi então ao meu gentil pai que fizesse uma canja pra mim. e assim, no fabuloso jantar de despedida do ano, todos comeram bacalhau, e eu tomei uma incrível canja e fui dormir feliz. no primeiro diz do ano mais canja, e muita água.
não era a barriga que doía. era a boca do estômago. um bololô. não lembro de ter sentido essa dor antes. e ela vinha e ia embora pra lembrar que tudo o que é demais faz mal. fui comendo pouco e a dor foi passando.
na noite anterior à nossa partida, fui meditar. estava brava, cansada e com medo. e, enquanto meditva, descobri que estava tristíssima. eu tinha ficado em porto alegre uns dias a mais do que o planejado para estar mais tempo com a minha mãe, e iria pegar a estrada no primeiro fim de semana do ano. coisa que eu jamais faria. aliás, fiz muitas e muitas coisas que eu não costumo fazer nessas curtas férias:
- tomei banho de sol com a minha irmã;
- joguei bola na piscina com as crianças;
- apostei com meu filho quem cataria mais moedas do fundo da piscina;
- passei um dia em gramado fazendo compras;
- adoeci de tanto comer e fingir estar alegre;
- exercitei o silêncio;
- ganhei várias sessões de jin shin jiutsu da minha dinda;
- fui ao cinema ver dois filmes bestas e engraçados;
- comprei bacalhau no mercado público;
- deixei o medo vir, e ele resolveu ir embora.

canja para quem precisa. e viva 2014!

as exuberantes hortênsias pediam uma foto.


por algum motivo que eu ainda ignoro, decidi ir de carro. era um projeto antigo - acho que a gente passa a vida cheio de projetos antigos, e a maioria, eu acho, nunca deixa de ser um projeto -, mas eu sempre era desencorajada: é longe, é perigoso, é cansativo.
um amigo, somente, me disse que era sossegado fazer a viagem. ele nem sabe, mas eu devia imprimir uma foto dele e carregar no carro, como um "santinho protetor". quando eu pensava em desanimar, lembrava dele, e seguia.
o resumo da ópera é que fomos e voltamos felizes. e cansados. num rápido balanço:
- andamos 1.158km para ir, outros 1.158km para voltar;
- meu carro, que eu estava chamando de carroça, foi e voltou firme e forte;
- um caminhão me fechou. mas eu não fiquei brava;
- eu quase bati o carro ao escolher castanhas que estavam no meu colo, quando o carro estava parado e andava a 10km/h num longo trecho de trânsito na serra do cafezal, quase chegando em casa;
- a estrada está excelente, e isso não é uma piada;
- um policial federal estava na minha frente numa curva em declive na serra depois de curitiba, e se eu não fui multada é porque os anjos estavam todos acordados;
- as estradas não têm radar fixo;
- há muitas bananeiras. mas o mais bonito são os pés de bananeira que brotam num morro;
- muitos caminhões levam tratores azuis e vermelhos em direção ao norte do país;
- tem um rio que chama São Joãozinho e outro que chama São Pedrinho. como eu era a única motorista e minha copilota está em formação, não há registros fotográficos;
- eu não tenho medo de viajar sozinha de carro com meus filhos (acho que desde ontem);
- as paisagens paulista, paranaense, catarinense e gaúcha são lindas de chorar;
- viajar de carro é o máximo;
- eu sou louca e minha filha veio me dizendo isso nos dois dias que ficamos na estrada no caminho de volta pra casa;
- é fácil ser feliz.


minha irmã e meu pai nos dão tchau da calçada, antes de o sol dar o ar da graça.


e nós de dentro do carro também damos tchau (lívia no banco de trás).

o marcador do carro zera ao completar 1.000km, coisa que eu ignorava.

claro que tudo isso eu digo agora. porque eu estava com o cu na mão. na minha fantasia infantil o mundo da estrada é um mundo de homens. mas acho que não é. pelo menos não necessariamente.
tenho a impressão de que as palavras estão saindo mais rápido do que meu pensamento consegue processá-las, e que este texto está ficando sem sentido.
voltei com saudade dos amigos que encontrei. e mais saudades ainda dos que eu não encontrei. amigos sempre nos dão de presente um sentimento de pertencimento, e isso faz bem pra alma. os amigos de verdade, é claro. aqueles que quando a gente encontra parece que não deixou de ver.
os últimos 18 dias foram muito bons. e eu faria tudo de novo. mas dessa vez com uma visita às terras do heine, com uma cerveja com o zeca e com risadas com a dani e o luiz.
agora vou trabalhar.

 
"eu nunca mais irei de carro a porto alegre", disse ela.

Comentários

  1. tita, adorei o post! olha, mulher na estrada é o que há, e sete dias com a família é uma missão, parabéns por cumprí-la (mas faça isso de novo só no próximo semestre). como podes ver ao ler esse texto, tu é mesmo forte e louca - e nisso não estás sozinha. ainda bem! beijocas da sua amiga e fã

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    1. rubs, como foram 15 dias, foi esperar um ano. melhor. ah ah ah. até lá, só fns de semana.

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