o que faltava

meditar requer prática. requer esforço. requer persistência.
sentei sobre a minha surrada almofada de meditação. os vidros triplos da janela antirruído já estavam fechados, para amenizar os barulhos estridentes do trator e da serra da obra do metrô. eu estava orgulhosa: tinha meditado 40 minutos ontem à noite e agora, passadas menos de 12 horas, me preparava para meditar outros 40 minutos.
mas eu não consegui. o siricutico típico que me acomete quando paro de sentir as pernas chegou. e eu me mexi, mudei de posição, senti calor, as pernas formigavam, me levantei para ligar o ventilador. depois voltei à posição sentada, mas num salto fiquei de pé e achei que não estava bom. resolvi me aprontar e partir para o escritório.
era uma animação estranha. a pessoa levanta do chão e fica animadíssima ao desistir de meditar e resolver chegar cedo ao escritório numa sexta-feira cinzenta.
eu tinha tido a ideia de ir de bicicleta. carro enche o saco, e numa sexta-feira um carro enche muiiiiito o saco. em inglês a palavra para isso é perfeita. "it sucks".
felicíssima, em poucos minutos eu estava vestida. e andava pelo apartamento catando o necessário para partir: o pote de salada na geladeira, o capacete e as luvas que estavam com pó no cabide de bolsas e casacos, um agasalho para eu não congelar como tinha congelado ontem. e minha bolsa.
ops, não é uma bolsa. é um alforje.

e que alforje!
arrumei tudo (esqueci de falar das duas maçãs, que faziam parte do meu farnel para hoje), desci até a garagem, amarrei o alforje na bike (!!!) e saí.
pneus vazios, uma parada no posto, dificuldade para calibrar, e eu seguia feliz, sem nenhum traço de mau humor, nenhuma reclamação, nenhum suspiro. muito suspeito, comportamento estranho para uma sexta-feira.
garoava. eu não tinha pegado minha capa de chuva. e então eu resolvi acelerar. vim pedalando rapidamente e sem parar até o escritório. e eu acho que era por isso que eu estava tão animada. algum anjo deve ter soprado no meu ouvido, enquanto eu dormia, que hoje seria um bom dia. o vento gelado batia na minha cara, a chuva fina molhou as lentes dos meus óculos e eu tive de tirá-los no meio do caminho porque tava difícil de enxergar a cor do farol.
eu torcia pra que a chuvinha parasse e, ao mesmo tempo, pedalava feito louca tomando um vento gelado e molhado na cara.
cheguei ao escritório com bochechas e braços vermelhos. e morrendo de calor.
sigo achando o dia maravilhoso.
acho que era o que faltava: ter um alforje para não andar de bicicleta carregando uma mochila grande e às vezes pesada nas costas. e um par de tênis também.
eu não tinha um par de tênis havia anos. acho que é coisa de mãe. cuida dos filhos, da casa, trabalha, faz comida, paga a semanada dos herdeiros, vai a reuniões da escola, leva e busca da festa, assiste a filmes com ou sem as crianças, mas não lembra que precisa de um tênis.


nem tô achando ruim. acho bom. me lembrar de como esqueço de coisas que são importantes para mim: um par de tênis, uma chuva gelada, chegar ao trabalho descabelada. e achar uma sexta-feira cinzenta e chuvosa um dia lindo.
...
o alforje é feito pela Priscila, da Alforjaria. demora um pouco pra chegar. mas qual é o problema?

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