Como sobreviver ao mês de dezembro em 17 lições

Eu moro num bairro muito movimentado de São Paulo. Não é o centro da cidade, mas é como se fosse. De segunda a sexta, pessoas andam com seus crachás pendurados no pescoço, normalmente em grupos que variam de tamanho – de 2 a 10 pessoas -, em passos rápidos, com caras compenetradas. Ocupam a calçada animadamente, e andar pela vizinhança perto da hora do almoço é quase uma brincadeira de ultrapassagem e redução de marcha e aceleração e ops, não dá pra passar de novo. Caminhões param em todos os lugares onde é proibido parar e estacionar para descarregar gelo, engradados de cerveja, caixas com hambúrgueres congelados e caixotes de madeira com verduras. Mas nos fins de semana a vizinhança se transforma. Pessoas de todas as idades, cores e felicidades andam pelas calçadas, de mãos dadas ou empurrando carrinhos de bebê ou segurando coleiras ou discutindo ou dando risada. O bairro é cheio, bombado, metido a besta, feliz.
Mas nesses dias de dezembro, o bairro fica mais cheio, mais bombado, mais nervoso, e acho que menos feliz. A agência dos Correios, que vive às moscas, parece uma festa. Pessoas de todas as alturas, larguras, sexos e cores entram com sacolas e caixas de tamanhos variados, numa quantidade de “coisas a serem postadas” que é muito impressionante.
Eu costumava ficar animada com o mês de dezembro. A parte alemã do meu sangue me fazia organizar tudo com antecedência, e eu me achava uma pessoa muito civilizada quando percebia que no começo de dezembro eu tinha férias marcadas, viagem organizada, presentes comprados.
Só que neste ano foi diferente. Além de estar desempregada e, portanto, sem férias, em vez de me organizar para todas as festividades, eu não fiz nada. Não organizei viagem, não comprei nenhum presente, não chamei os amigos para brindar o ano que termina, não coloquei os armários abaixo para ter tudo arrumadinho e limpinho para o começo do novo ano.
Tô fora. 
Faz 15 dias que o último mês do ano começou. E eu sigo minha vidinha de todos os dias. Quer dizer acordar e procurar trabalho e respirar fundo e olhar pro céu e pensar que alguma coisa mais interessante vai acontecer porque pelo-amor-de-deus-não-é-possível.
Sem árvore de natal. Sem enfeite pendurado na porta. Na verdade, colocamos quatro velas vermelhas em quatro castiçais, e à noite acendemos uma ou duas velas. Isso é tudo. Fiquei pensando: por que vou enfeitar a minha casa se todos os dias do ano eu acordo antes do sol dar o ar da graça e medito e desejo a paz para todos os seres e ensino meus pequenos herdeiros que só com amor que a vida vale a pena e que devemos ser gentis e amáveis com todos porque o que todos queremos é amar e ser feliz??? Eu costumo celebrar todos os dias. E dar presentes o ano todo. 
Neste dezembro, nenhum presente. Nenhum amigo secreto. Nenhuma comemoração.
Minto. Saí para jantar com os meus filhos e a vó deles. Para celebrar que eles terminaram a escola e que passaram de ano e que estão de férias.

o vinho, que tinha o nome da avó das crianças

E então listei algumas IDEIAS SIMPLES E ALEGRES para sobreviver ao último mês do ano sem sucumbir à loucura que domina ruas calçadas apartamentos casas escritórios e parques.
Lá vai:
  • Faça uma celebração que importe. Só uma. Pode ser sozinho
  • Ao fazer a “Lista 2018”, coloque somente itens palpáveis e que tragam alegria. Exemplo: “ter um sabonete francês de cereja ao lado do chuverio ” EM VEZ DE “emagrecer 23kg e nunca mais engordar”
  • Compre um presente pra você. Um
  • Não viaje se quiser um feriado tranquilo. Sim, é isso mesmo. Não vá a lugar nenhum. Sem filas, sem voos lotados, sem estradas paradas, sem hotéis superlotados. Parece radical, mas é o contrário do que parece. Isso se chama luxo
  • Só tire os enfeites natalinos da caixa se isso for bom. Senão, deixe-os lá dentro até o ano que vem


presépio maravilhoso da minha médica: fiquei babando

  • Procure tomar banho com tempo. Durante todo o mês. Bem devagar
  • Comprometa-se a falar baixo todos os dias, em todos os lugares. Mesmo quando a caixa do banco depositar seu rico dinheiro em uma conta de mesmo número que a sua, mas de outra agência – e você só descobrir quando estiver em casa e o banco já tiver fechado e você tiver de pagar uma conta que vence à meia-noite
  • Ao sentar para qualquer refeição, respire três vezes ANTES de começar a comer. Pode fazer disso um hábito para os 365 dias do próximo ano
  • Preste atenção. Ao acordar, ao andar, ao falar no telefone, ao se vestir. Há muitas surpresas quando prestamos atenção


pedaço de asfalto que estava bem no meu caminho

  • Faça um bolo para quem você gosta. Pode ser para você mesmo, para um amigo, para o seu amor, para o porteiro gentil, para a diarista, para os seus filhos, para um encontro de amigos. Não importa para quem, desde que seja com amor


bolinho de laranja para o café

  • Brincar de Marie Kondo é sempre bom, menos em dezembro. Deixe para atacar de maria em janeiro. Mas em dezembro, tenha uma sacola para arremessar as velharias, as coisas quebradas, o que não serve mais. Parece bobagem, mas você pode encher uma, duas ou dez sacolas sem esforço. Depois doe para alguém que vai ficar feliz com isso. Se tiver dificuldades, entre em contato comigo. Eu sou ótima com isso
  • Prepare uma refeição só para você. Quanto mais simples, melhor


da série o que tem na geladeira hoje?

  • Compre um lindo pão. Não precisa de esforço, só de atenção. Porque ter um bom pão em casa é digno, acolhedor e a garantia de uma noite (ou de um dia) feliz


pão da raca, que criou o fatia pães artesanais

  • Vá a pé. Não a tudo. Mas a algum lugar. E calcule pelo menos 15 min a mais para chegar ao destino. Dá pra ir olhando, tirar uma foto ou parar para tomar um café. E dá tempo também para se sentir feliz
  • Ao se vestir, escolha uma roupa e/ou sapato e/ou acessório que você não usa há muitos meses. É divertido
  • Se encontrar algo de que goste, se jogue. Eu achei um curso de costura para iniciantes. Eu não era iniciante, mas aprendi a fazer umas 20 coisas novas, entre elas colocar zíper e dar risada por 4 semanas seguidas


bolsa térmica feita por mim
  • Agradeça o ano que teve e que está terminando. Sim, é duro. Eu sei. E sofro, porque acho que sou uma psicopata por pensar em agradecer o ano mais duro de todos os que eu me lembro de ter vivido. Mas é assim. A vida nos dá o que precisamos naquele momento. E eu precisei de muitas pauladas em 2017. Muitas. E agradeço cada uma delas. Afinal, é pra frente que se anda. E cada chute, tropeço ou paulada nos faz levantar, tirar o pó e seguir. Como dizem meus conterrâneos, putaquelospariu

Meus sinceros desejos de que em 2018 as pauladas sejam 1 – em menor número; 2 – em menor intensidade; 3 – acompanhadas de alegria, sempre. Amém.

e esta é a bandeirola que eu costurei

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