o ano que acaba e a minha promessa de NÃO viajar

a chuva começou devagar. eu estava sentada não muito perto da janela, e não conseguia ver se caíam pingos ou se eu estava imaginando que estava chovendo. mas em poucos minutos a chuva começou a cair com força. dava pra ver a cortina de água que se formava no ar e que agora eu podia enxergar perfeitamente de onde estava.
eu estava meditando. e chorando.
andamos mais ou menos 2.500 km nos últimos dias. foi um pedido dos meus filhos: passar o natal com o avô que mora em porto alegre e com a prima que morava em florianópolis, mas faz duas semanas mudou-se para porto alegre.
eu sempre tenho vontade de ficar em casa no natal. é nessa época que a cinza e barulhenta são paulo fica calma, serena e silenciosa. é o melhor de são paulo. mas meus filhos nunca gostam da minha ideia. e todo ano pedem para passar o natal com o pedaço da família que mora em porto alegre.
eu fui e voltei bem concentrada. não queria passar a semana feito um papagaio não criativo dizendo "eu não queria vir pra cá eu não queria vir pra cá eu não queria vir prá". então eu meditava todos os dias bem cedinho, por uma hora, e passava os dias mais ou menos tranquila, três em porto alegre, um em floripa, quatro na estrada.
nesta época do ano os amigos viajam. os amigos, não. todas as pessoas que acham que o natal e o ano novo são datas comemorativas que devem ser celebradas longe de casa. então o mundo vira de ponta-cabeça. as cidades sem praia ou sem atrações turísticas ficam vazias. as estradas ficam entupidas. e as praias, intransitáveis, barulhentas e bregas. sim, multidões gritando e bebendo e escutando música alta é brega. é sem graça, é insuportável.
fui até uma praia belíssima em floripa para mostrá-la ao meu filho e quando cheguei lá vi que umas 5 mil pessoas tinham tido a mesma ideia que eu. mas tive a impressão de que todos que chegavam, estavam ou partiam da praia da joaquina estavam felizes - menos eu. achei assustador. claro, a pessoa mora em são paulo, nunca vai pra praia e, quando vai, é na semana do ano novo. ah ah ah. meu bom humor é gigantesco, e quando ele parte, deixa um buraco tão grande que o mau humor chega chegando - derruba tudo, e eu fico estatelada, sem saber o que fazer.
e então, entre uma praia lotada e o calor insano do forno alegre, resisti bravamente.

BR-116 sentido norte, em 29/12, sexta-feira

na volta, no carro, fizemos uma brincadeira. cada um tinha de dizer cinco coisas de que não tinha gostado e cinco que tinham sido legais. é libertador falar do que gostamos e do que não gostamos quando podemos dar risada. por exemplo, quando faz 30 graus no mês de dezembro em porto alegre, é muito difícil manter o bom humor. e isso não é culpa de ninguém, nem maldade, nem "algo que deu errado". assim é que é e ponto.
o passeio de barco pelo rio guaíba foi um dos top 5. e encontrar minha amiga dos tempos da escola em floripa também. sim, algumas pessoas NÃO viajam nesta época insana, e foi assim que encontrei meu amigo que mora na beira do guaíba, em itapuã, com sua adorável família. e foi assim também que encontrei minha amiga dos tempos da escola em floripa, com os filhos que eu tinha visto pequenos mas agora são adultos. os 2.500 km não foram em vão.


lívia e ana no barco no guaíba

lívia e lia, que beberica suco de uva


joão, mana (a amiga da escola), zé, eu e jay


eu fiz uma promessa, quando estava com a bunda quadrada e faltavam uns 200 km para chegarmos à nossa casa.




até pouco tempo atrás, eu mandava cartões de natal pelo correio para minhas tias queridas, para os meus amigos, para os meus pais. eu achava muito divertido. também gostava de comprar presentes.
no ano novo, seguia a crença da minha mãe, de que usar uma calcinha nova era muito importante, e que os nossos desejos deveriam estar representados na cor da roupa de baixo. amarelo era pra trazer dinheiro. rosa, amor. na época em que as crianças passavam o natal ou os dias que antecediam o natal na casa do pai delas, eu tirava tudo o que estava nos guarda-roupas para limpar, descartar e organizar.
agora eu não mando mais cartões pelo correio, tampouco mensagens por email ou whatsapp. também não comprei calcinha nova para reforçar meus desejos de um ano rico, amoroso, bom. meus armários estão arrumados, e não há nada dentro deles para descartar.
não consigo entrar na vibração de "agora que o ano está acabando eu desejo tudo de bom para você". porque eu sempre desejo tudo de bom para todos. e porque todos os dias quando eu acordo eu arranco um sorriso sei lá de onde, para começar o dia sorrindo. e porque meus amigos moram dentro do meu coração, e eu estou com eles todos os dias do ano.
estava me sentindo uma velha ranzinza com meu visível mau humor até o momento em que olhei pra mesa da cozinha hoje cedo. eu tinha colocado um vidro de farinha de mandioca, um pacote de ervilhas e uma caixa de cuscus marroquino. pra farofa, pra sopa de ervilha e pro cuscus com legumes.
daqui a pouco todo o comércio que ainda está aberto vai fechar. e então todos seguirão para as suas casas. parece que o mundo para. não sei se todo o mundo, mas o brasil, sim. trabalham os que estão em hospitais e redes de TV e restaurantes localizados em pontos turísticos. os outros comerão lentilha com os amigos.
quando der meia-noite, eu estarei dormindo. mas terei feito uma refeição adorável, e mesmo sem tomar banho numa cachoeira gelada nem estar no meio do mato ouvindo "o barulho do silêncio", repousarei para amanhã acordar e lembrar de sorrir. afinal, há os dias de chuva e os dias de sol. e assim é que é.

vista do restaurante em canasvieiras, no norte da ilha de florianópolis



para terminar o ano, palavras lindas do mestre Tarchin Hearn:

que você seja feliz.
que você realize os seus mais profundos desejos.
que você seja abençoado com boa saúde e alegria ilimitada.



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