querido monstro, você não vai me pegar. assinado eu.

diferentemente das propagandas de margarina e das fotos postadas pelos amigos no clima ó-vejam-como-sou-feliz no famigerado Facebook, tem dias em que eu acordo com problemas.
não é nada prático, palpável, tipo "quando será que o meu cliente vai efetuar o pagamento que deveria ter sido feito em fevereiro?" ou "será que a greve da escola da minha filha que já dura quase três semana irá se estender por muitos dias?". são problemas imaginários. é a sabotagem, minha amiga íntima e de longa data. que vem em forma de pensamentos nada gentis como ah-que-vida-dura, ó-como-eu-sou-incapaz ou ai-eu-não-vou-dar-conta. um monstro.
quanto mais rápido eu ando, maior é a rasteira que posso levar da sabotagem. por isso, já tem uns anos que eu tenho me concentrado para andar mais devagar. foi em 2013, precisamente, que descobri que sentar e praticar meditação era uma cura para a minha velocidade estonteante (mais tarde fui descobrir que queria ensinar isso e estou fazendo formação para instrutora de mindfulness). e recentemente percebi que só quando ando devagar consigo cuidar do que tem de ser cuidado. de mim inclusive. quanto mais concentrada estou (o que exige um trabalho árduo, como diz um dos meus professores), mais atenta a golpes sutis eu fico.
por isso, uns dias atrás, foi fácil. eu acordei, como de costume, antes do sol. e fiz as coisas que faço antes de sair para andar. percebi que meu desconforto era um sinal de que eu tinha "acordado com problemas". (eu tenho dificuldade de escrever sobre isso porque tenho a impressão de que estou me abrindo com um corte. como se fosse uma boneca e eu a cortasse em dois pedaços, no sentido longitudinal. e aí tudo o que tem dentro de mim pode ser visto. nojento e amedrontador)
nos dias em que estou assim, sentindo meus problemas imaginários me acenando alegremente para ver se eu caio na deles, eu olho pro céu. não interessa se a cena é azul, cinza claro, cinza chumbo, preta, com estrelas ou com a lua. olhar pro céu é sempre o equivalente a ter um tubo de oxigênio disponível para eu inspirar.
na praça e nas ruas por onde eu ando, ao olhar pro céu há sempre árvores no "meio do caminho". são muitas delas (não dá pra entender como em são paulo alguns lugares têm tantas árvores. será que em todos os lugares onde não há árvores elas foram cortadas para não atrapalhar a vida insana da cidade grande?). e acompanhando esse monte de árvores há passarinhos. que não são poucos. é tipo um espetáculo. um canta, aí o outro canta, e de repente um grupo faz uma sinfonia - ou uma gritaria quase ensurdecedora, se forem as maritacas que estiverem fazendo o solo.
eu olhei pra uma árvore cujas flores são cor de laranja, mas tão forte que são quase avermelhadas. e no alto da árvore tinha um passarinho. ele estava sobre uma flor. ele estava no equivalente à ponta de um para-raios se comparado com um prédio. muito alto, na pontinha. e ele cantava lindamente. esticado, elegante, tranquilo e feliz. era uma cena bonita que grudou em mim. e eu sabia que aquela beleza deveria estar dentro de mim ao longo do dia para eu aguentar a sabotagem, que tinha acordado junto comigo naquela manhã.
eu gosto de andar porque eu consigo olhar para o que está ao meu redor com olhos de uma turista que passeia cheia de interesse pela paisagem. quando brincamos de turista na nossa cidade, não é preciso pegar avião nem pagar hotel nem estar de férias para ficar boquiaberto com as cenas novas e lindas ao nosso redor.
duas palavras em inglês, e para as quais não há uma palavra equivalente na língua portuguesa, expressam perfeitamente isso: o andar e tropeçar em cenas maravilhosas (serendipity, que pode ser traduzido por "feliz acaso") e conseguir tratar-se bem (indulge. que é "tratar bem alguém", sendo que o alguém pode ser você mesmo). me parece que uma coisa depende da outra.
juntando serendipity e indulge, temos a receita para escapar dos problemas imaginários que vez ou outra tentam nos afligir, amassar e, eventualmente, nos engolir.


esta folha estava no meu caminho

este bicho estava na escada da entrada do prédio onde moro

quem disse que são paulo é cinza?

chuva de planta

chuva de flor


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