por que raios um retiro de silêncio?

eu queria tirar férias de mim mesma. sentadas em um café metido a besta na vila madalena, minha professora me olhava com seus olhos azuis claros e brilhantes enquanto eu chorava ininterruptamente. era um choro desses discretos, eu conseguia seguir contando a ela por que eu estava determinada a não ir ao retiro de silêncio que ela conduziria com o parceiro dela a partir do dia seguinte. ela escutava com os ouvidos, com o corpo todo e com o coração.
as lágrimas escorriam sem trégua. iam molhando meu pescoço, e eu seguia falando. vez ou outra ela dizia algo como "tita, vai ser muito bom se você for ao retiro", ou "pense e decida, porque ir ao retiro será muito benéfico para você".  eu sabia o que ela estava querendo dizer, mas eu sou cabeção e estava certa da minha decisão. eu não iria.
depois de uma hora e meia de conversa, nos despedimos gentilmente na esquina de uma rua tão íngrime que há um corrimão no meio da calçada, para as pessoas terem onde apoiar suas mãos morro acima ou morro abaixo.
fazia um calor insuportável, o sol ardia e eu preferi ficar plantada esperando por um ônibus a descer o morro a pé e chegar em casa talvez mais rapidamente. eu tinha parado de chorar, e meu estado emocional estava ficando menos irado e mais triste.
cheguei em casa considerando os conselhos da doce e sábia karen. sem eu perceber, meus sentimentos graves de ódio se dissolveram e eu comecei a considerar minha ida ao retiro. não sei quanto tempo passou, mas eu sabia que durante a tarde poderia arrumar minha mochila para partir no dia seguinte. e foi o que eu fiz. peguei a mochila que me transforma numa tartaruga de meia-idade e comecei a colocar as roupas confortáveis sobre a cama, evitando as vestes mais velhas que mais se assemelham a panos de chão e que eu mantenho com certa alegria arrebatadora dentro do meu armário. avisei meus filhos que eu tinha mudado de ideia. escrevi num papelzinho as tarefas imprescindíveis até a minha partida: combinar a ida com a patricia, outra participante do retiro que eu não conhecia, comprar nossas passagens de ônibus pelo site da viação cometa. sacar dinheiro para deixar com os herdeiros, checar se havia comida suficiente para a sobrevivência deles por alguns dias, pagar uma conta e colocar resposta automática de ausência no email.
à noite, ainda não totalmente recuperada dos meus sentimentos desagradáveis, peguei um ônibus e desci perto da esquina onde havia me despedido da karen no começo da tarde. andei meia quadra e cheguei à livraria onde um amigo e ex-chefe estava lançando um livro. reencontrar ex-colegas de trabalho que não vemos há cinco, dez ou mais anos é divertido, e mais divertido ainda é dizer que no outro dia você irá para um retiro de silêncio. eu sou o exemplo vivo de que qualquer pessoa pode ir a um retiro de silêncio e sobreviver. mas é comum ninguém acreditar nisso.
por que raios um ser humano se organiza, paga e se enfia em um retiro de silêncio?

vendo a foto tirada pela patricia até parece que eu estava sussa


eu nunca tinha me feito esta pergunta. ou, se tinha, não lembrava. a pergunta ficou fazendo toc toc toc na minha cabeça durante todos os dias em que estive enfurnada numa pequena chácara perto de são paulo. não é permitido falar, nem com a boca, nem com os olhos, nem com as mãos. tampouco usar o celular, checar whatsapp, ligar para o marido, ver emails. leituras também estão fora da programação.
assim como toda viagem ao mesmo destino é sempre diferente, ir a retiros é sempre uma caixinha de surpresas.
eu sabia que não estava saindo de férias. retiros são oportunidades de trabalho árduo. ao não falar, bingo!, você pode olhar para lugares onde você não costuma olhar e/ou nunca tenha olhado. por isso é necessária uma dose de coragem cavalar. eu costumo ter coragem, mas eu estava sem vontade. ou melhor, sem energia.

nem tão sexy assim., ah ah ah


passados seis dias, voltei para casa. minha raiva por não ter meditado com tranquilidade passou. de todas as vezes que meditei - o que fazíamos sentados de olhos fechados ou andando lentamente e de olhos abertos, claro, de oito a dez vezes por dia -, contei quatro em que senti alegria.
sobrevivi à minha raiva, a seis dias de retiro de silêncio e ganhei de presente a humildade de entender que retiros podem não ser divertidos nem agradáveis. também descobri que andar mais louca do que sã pode ser ok, que meditar sem tranquilidade pode trazer insights, que minha raiva é gigantesca e toma conta de mim. no penúltimo dia, acordei sem saber onde estava e tive a sensação clara de que quando tenho raiva eu fico possuída. mas a possessão passa, como tudo na vida.
o melhor de tudo, e que eu ia esquecendo, é que sim, eu tirei férias de mim mesma. não foi em paris, como eu queria, mas numa chácara perto de são paulo. foram férias curtas, sem vinho, com comida vegana saborosa e bonita, num quarto compartilhado. o chuveiro era elétrico, os cachorros eram amorosos e a vista do lugar é espetacular. o ar era puro, árvores dançavam com o vento e me faziam perceber que eu devo aprender a balançar como elas, que seguem firmes no chão, mas deixam seus galhos e folhas irem pra um lado e pro outro. tirei férias da chata em mim, que reclama de tudo. tirei férias da caga-regras em mim, que dá ordens sem parar. e tirei férias da coitada em mim, que passa o dia resmungando que a vida poderia ser melhor.

chegando, entre karen e duncan


ir é infinitamente mais fácil do que voltar. a dica do meu professor está sendo útil. duncan sugeriu que eu colocasse o alarme quando fosse ver mensagens no celular ou no email: em dez minutos, um lembrete para eu parar, levantar, andar e respirar. voltando para checar mensagens, o alarme toca em 20 minutos. usei o alarme de 20 minutos umas três vezes. aí me levanto, vou lavar a louça e volto. depois fui preparar algo para o almoço e voltei. por último, fui até a sala e fiquei sentada cinco minutos respirando fundo.

bicho-cabeludo de arrasta na janela no fim do retiro


o fim do retiro não é quando saímos do lugar idílico onde não era preciso fazer compras para o almoço nem preparar nenhuma refeição. o fim do retiro vai terminando aos poucos, e leva alguns dias. é mais ou menos como andar na areia perto do mar quando o dia está nascendo. primeiro está escuro, aí você percebe que o céu está clareando, depois vai surgindo a bola de fogo, que começa com um pontinho minúsculo até virar um círculo, que vai subindo pelo céu e esquentando a sua pele pouco a pouco. é como tudo na vida: cada coisa tem seu tempo, e esse tempo não é o imediato, que é o que sempre queremos.
é engraçado comparar a nossa velocidade habitual com a velocidade reduzida que toma conta da gente ao voltar pra vida como ela é depois de dias de silêncio. e agora a tarefa é descobrir como NÃO voltar à velocidade de sempre. como manter a calma ou como perceber a sua ausência, vivendo a vida como ela é. haja coragem.
abaixo, fotos tiradas em ordem cronológica, começando pelo primeiro dia, no alto, quando cheguei à chácara, e terminando sete dias depois, quando estava pronta para voltar pra casa. mostrar essas fotos também é um ato de coragem.













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