tentando não levar uma vidinha de merda

meu relacionamento com órgãos públicos e serviços de atendimento ao consumidor não costuma ser amigável. tenho raiva da lerdeza e da burocracia num nível tamanho que não consigo enxergar quando as coisas FUNCIONAM. mas com a SPTrans, com quem tenho de ter uma relação por conta de dois filhos que andam de ônibus e para isso utilizam bilhetes de estudante, está sendo diferente.
descobri faz pouco que existe um posto de atendimento à população no centro da cidade - por telefone não existe atendimento, porque o 156 da prefeitura não informa lhufas, e pelo site é um caminho tortuoso, um incrível teste de paciência e resiliência. esse posto costuma ter filas que dão várias voltas. algo perto de 100 pessoas ou mais. porque como em todo sistema ineficiente, tem uma fila para dar uma senha e informações e outra fila para o serviço propriamente dito.
o posto abre às 7h, e meu sangue germânico influenciou minha decisão de chegar o mais cedo possível. nos meus planos insanos de mãe super eficiente eu chegaria lá antes de o posto abrir. minha filha deu risada, claro, porque estávamos tomando café da manhã perto das 6h30 quando eu contei a ela minha ideia ansiedade-ambulante.
saí de casa perto das 7h e cheguei ao posto atrasadíssima, segundo o meu plano traçado na noite anterior. o lugar estava vazio e, por isso, passei reto na calçada. parei ao ver um segurança e perguntei se era ali mesmo o atendimento da SPTrans para estudantes. era. dei meia volta e desci os degraus para aquela espécie de porão de repartição pública. sem fila, fui atendida pelo rapaz que entrega a senha e, ao me sentar nas cadeiras de plástico duras e começar a prestar atenção numa cena de barbárie que passava num jornal da TV, minha senha foi anunciada na tela.
em menos de 15 minutos o rapaz que me atendeu pegou o bilhete da minha filha que parou de funcionar, analisou o cartão como um ourives analisa uma joia para ser avaliada, tirou cópia do RG dela, aceitou usar a foto que estava no RG para o novo cartão, me entregou um papel pequeno para eu levar em qualquer posto da SPTrans em 72 horas (sim, leva 72 horas para um bilhete de ônibus de estudante voltar a funcionar) e disse para eu aguardar novamente nas cadeiras de plástico que chamariam pelo nome. o nome foi anunciado em segundos, e lá estava eu colocando na bolsa o novo cartão de ônibus da lívia. nenhum centavo me foi cobrado. 




o que eu mais gosto de ter de ir ao tal do posto é que ele fica no centro velho de são paulo, onde eu raramente vou. e cedo o centro de são paulo é vazio e quase irreconhecível, porque não tem ainda o barulho perturbador de ônibus e carros e rapazes gritando para anunciar estacionamentos e camelôs vendendo o inimaginável e ciclistas tentando andar pela ciclovia cheia de pedestres e engravatados caminhando apressadamente para não perder a hora em meio a mulheres carregadas de sacolas plásticas tamanho GG com compras da rua 25 de março.
ao andar, vou admirando aquele lugar vazio, prédios belíssimos com cara de abandonados. entro no café que já foi mais charmoso 100 anos atrás - segundo uma resenha que acabo de ler, o atual café só tem o mesmo nome do antigo café girondino! - e peço um café.

o mosteiro visto a partir da mesa onde trabalhei


fotografo para me lembrar da difícil arte de aproveitar o café 



o trabalho que levei para fazer enquanto esperaria em longuíssimas filas para resolver o cartão da minha filha que não funcionava foi feito numa mesinha com vista para o mosteiro de são bento. a cada 15 minutos, os sinos tocam, e eu me lembrei do mestre zen Thich Nhat Hanh ao contar que no ocidente ele não escuta tantos sinos de templos budistas como escutava no oriente. e que, por isso, ele passou a admirar os sinas das igrejas na europa:
"toda vez que eu dou ensinamentos na suíça, eu sempre uso os sinos das igrejas para praticar mindfulness. quando o sino toca, eu paro de falar e todos nós escutamos o som do sino por completo. eu gosto tanto disso (eu acho que é melhor do que a minha aula!). quando escutamos, podemos fazer uma pausa e aproveitar a nossa respiração e entrar em contato com as maravilhas da vida que estão ao nosso redor - as flores, as crianças, os belos sons (...)."
fiquei concentrada no meu trabalho na mesinha do café, e o sino tocou algumas vezes. em uma delas eu não escutei, o que só fui perceber quando o sino tocou mais uma vez. terminado o trabalho e o café, entrei na igreja para admirar os vitrais coloridos e fiquei lendo os nomes dos santos cujas estátuas enfeitam a igreja desde a entrada até o altar. os nomes eram lindos, mateus, joão, acho que bartolomeu também. sentei para ficar quieta uns minutos naquele breu típico das igrejas gigantescas e poder sentir a gratidão. se não me sento e não me concentro, eu esqueço de dar espaço à gratidão e deixo a chatice da vida sem sentido tomar conta do meu corpo inteiro, mente incluída.
enquanto eu atravessava a estreita rua que separa a esquina do café da calçada do mosteiro, eu lembrei do primeiro retiro de silêncio que fiz com o meu professor. em uma das aulas que ele dava todos os dias, ele disse algo como "a vida é mais do que trabalhar, pagar contas e juntar dinheiro para a aposentadoria". ao terminar, ele encostou a coluna na cadeira, colocou a cabeça um pouco pra trás e deu uma risada. aquelas palavras ficaram pinicando na minha cabeça. eu estava começando num emprego novo quando fui para esse retiro, e não via sentido nenhum em alguém dizer que a vida era feita de mais coisas além de trabalhar, pagar contas, contribuir para a previdência privada e encontrar um namorado (essa era a razão pela qual eu fui para o retiro). e hoje, passados três anos, eu entendi.
meu professor, Jangchub Reid, sempre diz para nós, seus alunos, que não devemos nos preocupar quando recebemos ensinamentos que não entendemos, que parecem não fazer nenhum sentido. porque na verdade o ensinamento, naquele momento, só não faz sentido para a nossa mente. para as outras partes da gente, aquilo que está sendo ensinado está sendo compreendido.

"onde você acha a paz na sua vida? na próxima respiração. se você está esperando para chegar ao céu, bem, boa sorte. se você está esperando pela próxima noite de sexta-feira ou algo assim, boa sorte.
se você quiser paz, ela está aqui e agora. o corpo compreende isso. o corpo sabe como deixar ir. e há paz neste momento, e não em qualquer outro lugar. [a paz] está aqui."
Jangchub Reid

Comentários

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

deixando ir

o filho que volta

a vida sem carro