um ano sem comprar roupas - dia 33

três dias atrás meu projeto um-ano-sem-comprar-roupas completou um mês. e o que aconteceu nesses primeiros 30 dias? eu achava que a decisão era um enorme ato do coragem, oh my god, acho que vou ter uns faniquitos e vou me dar conta de que sou louca ou vou desistir. que nada. eu não tive nenhum faniquito, sim eu sei que eu sou louca e eu não desisti.
nesse ínterim - entre completar 30 dias e eu escrever sobre isso -, a dona Kondo estreou uma série no Netflix, "Tidying Up with Marie Kondo", que aqui na bananalândia foi traduzido para "Ordem na Casa com Marie Kondo". são poucos episódios, oito, e curtos. eu os assisti e eles terminaram antes de eu perceber que estavam terminando.
Marie Kondo é uma mulher pequena. é baixa e magra e delicada como uma japonesa. diferentemente de programas sobre arrumação doméstica que proliferam na TV, dona Kondo não fica na casa das vítimas arrumando tudo. ela começa o processo, com direito a ajoelhar-se no chão e fazer uma apresentação silenciosa dela mesma à casa, e deixa lições para os donos do pedaço. aí ela volta vários dias depois para ver o progresso e dar novas lições.
a primeira lição é empilhar todas as suas roupas sobre a cama. todas. as pessoas vão andando pelos cômodos da casa e catando tudo. uma das personagens começou a jogar o que estava no closet em cima da cama. ao ver a pilha aumentando rapidamente, ela disse, chocada, "it's mortifying". em português é esquisito, "é mortificador". "a pilha vai chegar ao teto", completou. a montanha de roupas terminou antes de chegar ao teto. mas ainda assim era uma montanha enorme.
todas, t-o-d-a-s as pessoas que participam da série dizem que nunca pensaram que tivessem tanta roupa. um diz que percebeu que tinha um problema quando a dívida com o cartão de crédito chegou a 10 mil dólares. ele colecionava tênis, tinha mais de 150 pares, sendo que 95% deles nunca tinham sido usados. ele começa dizendo que ama colecionar tênis, e termina meio abestalhado ao dar-se conta de que tinha infinitamente mais tênis do que conseguiria usar.
a pequena Marie Kondo se diverte. ao se deparar com a bagunça doméstica de cada personagem constrangido, ela diz "oh, I love this mass". as pessoas respiram com grande alívio. se ela adora bagunça, por que se envergonhar?



mas o que eu queria falar sobre a dona Kondo é que ela tem uma abordagem genial no que diz respeito à decisão de manter ou não qualquer coisa que esteja dentro de uma casa. "isso te traz alegria?", ela pergunta pra pessoa.
depois de assistir aos primeiros episódios, abri meu armário e achei que tinha de tirar dos cabides o que não me trazia alegria. demorei um pouco, abria o armário e fechava. e se eu resolver tirar muitas coisas, como sobreviverei aos pouco mais de 330 dias que ainda restam sem comprar nada?
claro que isso é um pensamento doentio. até agora, a pilha do adeus só tem duas camisetas, um vestido, uma camisa, duas blusas regatas e possivelmente dois shorts jeans. a questão é: como manter o foco e deixar dentro do armário só o que nos traz alegria? o buddha diz que precisamos ter alegria. e se não temos, é nossa responsabilidade buscá-la.



olho para a minha casa com a ideia fixa: isso me traz alegria? a obsessão vai se espalhando para o trabalho, amizades, tarefas diárias, comida. é um pouco assustador ficar prestando atenção e ver o que está nos trazendo alegria. o mais assustador não é encontrar o que nos traz alegria, mas perceber o tanto de tranqueira que não nos traz alegria nenhuma.
estou me divertindo. impossível não se divertir. como diz a dona Kondo, arrumar a casa é uma forma de arrumar a própria vida, abrindo espaço para o que queremos.

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