sábado, 31 de março de 2012

devemos criar afetos, não desafetos

eu nunca tinha ido a uma defesa de tese - tenho de checar se é assim mesmo que se fala. mas dessa vez fui convidada e consegui desmarcar, adiar e cancelar compromissos para, às 14h, chegar à USP e, depois de dar uma bela volta por uma grande e linda avenida, encontrar o prédio e, por fim, a sala 114.
não demorou para eu descobrir que uma defesa de tese é um evento longo. eu havia me programado para ficar na sala 114 por quase duas horas. mas aí soube que a conversa se alongaria até pelo menos as 18h. me sentei muito perto da porta, para que a deselegante saída fosse quase imperceptível.
e então, quando todos os professores chegaram, a orientadora apresentou a doutoranda e os integrantes da banca, e os trabalhos começaram. eu não olhei no relógio, mas a apresentação da tese deve ter durado pouco menos de uma hora. e foi muito legal.
a dani fez uma análise de textos que tratavam de contaminação do solo publicados pela Folha de S. Paulo e pelo Estadão, de 1992 até 2007. e para quem, como eu, acha que teses dão sono, tive uma surpresa. o trabalho da dani tem coração e, consequentemente, é envolvente. além da análise dos fatos, trouxe dúvidas e sugestões. maravilhoso. qual é o papel da mídia? como jornalistas e cientistas podem se aproximar? como formar profissionais aptos a cobrir acidentes/catástrofes ambientais de forma equilibrada e não rasa feito um píres de cafezinho? o fato é que trabalhamos tanto que não sobra tempo para perguntar nem para responder. talvez por isso existam pessoas animadas que estudam e estudam e, assim, se apronfundam em questões importantes mas esquecidas.
escorreguei porta afora quando o segundo integrante da banca ia começar a falar. não podia cancelar os compromissos do final da tarde. e além de lamentar minha ignorância, que me fez reservar tão pouco tempo para permanecer na sala 114, fiquei com a culpa da prevaricação.
como podia passar uma tarde sem acesso ao computador?
no final do dia, quando finalmente coloquei os pés em casa, liguei a máquina e a coloquei ao lado do meu prato de sopa. e comecei a jantar e trabalhar ao mesmo tempo! sabia que era bizarro, mas mesmo assim fui respondendo e-mails entre colheradas de sopa.
fui trabalhando e dando conta das outras tarefas por umas duas horas. coloquei meus filhos na cama, respondi e-mails, resolvi duas questões por telefone, respondi mais e-mails. tudo ao mesmo tempo. mas os dias terminam. e os e-mails também.
para o meu alívio, hoje li um texto fabuloso sobre concentração e sua relação com produtividade, criatividade e, claro, felicidade. em "a mágica de fazer uma coisa de cada vez" (em tradução livre do inglês), tony schwartz dá dicas tipo "tire férias verdadeiras" e "não leia e-mails durante reuniões". parece tão óbvio, que às vezes eu tenho vergonha de falar. mas foi ele que disse, ah ah ah. vale a pena ler o texto, que, além de curto, é muito bom.
é engraçado como as ideias que parecem tão obsoletas são tão relevantes, úteis e verdadeiras. voltando à sala 114, eu fiquei muito impressionada ao escutar de uma professora que a tese da dani "passava emoção". não sabia que a emoção fazia parte da academia. e talvez por isso sempre tenha achado assustadora a ideia de fazer outros cursos depois de terminei a minha graduação, o que aconteceu no século passado. e essa mesma professora citou a frase título deste texto, que ela tinha escutado de outra professora presente na banca, tempos atrás.
fiquei tocada ao ver minha amiga literalmente brilhando; fiquei horrorizada em trabalhar enquanto comida; e me dei conta de que é preciso ampliar os horizontes quando penso em trabalho. tenho de saber que trabalho não é só sentar na frente do computador - não sei de onde eu tirei essa ideia tão, tão pobre. ah, e tem mais uma lição: desligar celulares sem culpa. tenho muito trabalho pela frente.

4 comentários:

  1. Tá aqui uma prova sobre o que tinhas me dito sobre flexibilizar as coisas! Fico feliz!
    Bjs,
    Dani John

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  2. Ammmeeeeeiiiiii!!!! Que lindo texto, querida Tita!! Fico muito feliz em saber que a minha defesa (escreveste certinho) tenha despertado em ti tantos questionamentos e reflexões!! Era esse o meu objetivo, e teu texto me mostrou que estou seguindo pela trilha certa! Muito obrigada!!! Beijos, cheios de “afeto”, da Dani Vianna.

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  3. que bom que tu gostaste! era essa a ideia!!!

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