segunda-feira, 12 de março de 2012

quem cuida da nossa cidade?

nós éramos crianças e passávamos todas as longas férias de verão na casa de praia. eram uns 60 dias, nos quais, além de irmos à praia, andarmos de bicicleta e jogarmos vôlei no gramado da casa, visitávamos amigos e parentes dos nossos pais.
minha mãe tinha três primas, e não lembro se as três ou somente duas ou uma só tinha um apartamento num prédio antigo no centrinho de Capão da Canoa, a maior "cidade" daquelas praias. e nesse prédio, que era geladinho por dentro, tinha uma placa falando da exigência do respeito ao silêncio depois do almoço - acho que das 13h às 15h, e à noite, tipo a partir das 22h.
eu, que era criança, achava aquela placa um pouco assustadora. nós também tínhamos de fazer silêncio depois do almoço, para os nossos pais descansarem, e à noite, bem, à noite sempre dormíamos. mas não havia placa na nossa casa, claro.
mas me lembrei da placa do prédio da Irene, da Gerturd ou da Laura no sábado, quando meu filho acordou perto da meia-noite e disse, meio choroso, que não conseguia dormir por causa do barulho. eu estava escutando o barulho, mas tinha certeza de que era alguém na rua, e uma preguiça me impedia de discar 190 e falar com alguém da polícia sobre a algazarra.
mas depois de dar uma olhada nas janelas do apartamento, vi que o som vinha de um restaurante fabuloso, de cujo "puxadinho" com uma lona branca sou vizinha.
o restaurante rosmarino serve uma maravilhosa comida italiana, e é um lugar mui amável. o espaço é alugado para eventos, e o barulho é maior nos fundos, onde tem esse tal de puxadinho que não tem nenhum isolamento, e através do qual conseguimos escutar até o barulho dos talheres sendo usados.
pois bem. no sábado havia uma música eletrônica em volume muito alto, além de muitas pessoas gritando ao mesmo tempo. liguei para o 190 umas dez vezes. dava ocupado. duas vezes um atendente disse alô, e quando eu dizia que tinha uma festa num local impróprio, e que o barulho impedia parte da minha família de dormir, o atendente dizia "aguarde na linha" e eu aguardava até cansar e desligar.
então liguei meu computador, encontrei o telefone do restaurante, e liguei várias vezes. caía na secretária eletrônica.
conseguimos dormir depois de umas duas horas rolando na cama. e agora liguei para o 156, que é o número da prefeitura para tudo o que se possa imaginar. claro que não é um canal que funciona.
a atendente me pergunta se tenho cadastro e se gostaria de atualizar meus dados. e então ela pergunta: nome, rg, endereço, cep, telefone.
depois de falar meus dados, falo que quero fazer uma denúncia de barulho de um restaurante de quem sou vizinha. "não é permitido reclamar de um endereço que seja o mesmo que o seu", me informa a moça. digo que não é o mesmo endereço.
e então tudo de novo. "seus dados, por favor: nome completo, endereço, rg...". mas acabo de informá-los!, disse a ela. "é que nós temos outra tela." ah, que ótimo, pensei. aí ela pergunta o horário de funcionamento do restaurante!!! e explica " é que nós precisamos de informações".
que região é essa?, continua a moça. sul, norte? eu já tinha falado a rua, o número, o nome do restaurante e o bairro. "uma referência", pede ela. "mas eu já informei o endereço completo!", e ela reclamou algo. fiquei quieta.
"o prazo para que o órgão responsável verifique a reclmação é imediato." primeiro pensei qual seria o órgão reponsável. depois pensei nesse prazo sinistro, "imediato". o que será que isso quer dizer? que ela, a atendente, vai passar a informação imediatamente? que o sistema que traz telas novas pro cadastro do cidadão vai informar alguém do órgão responsável imediatamente?
...
acho estranha essa "falta de dono" de são paulo. é difícil reclamar, é difícil resolver. fui vizinha de um dos muitos "buracos do metrô", e por quatro anos tivemos diferentes ruídos 24h nos acompanhando na rotina doméstica. betoneiras, caminhões descarregando barras de ferro, caçambas sendo colocadas ou retiradas do terreno, homens na obra gritando, show com palco e tudo num sábado, restaurante dos trabalhadores quase na janela do meu quarto, e até um sujeito que estava aprendendo a tocar triângulo às 5am, creio que antes de o expediente do cabra começar.
e quem "cuidava" das obras do metrô? a quem poderia reclamar? "as obras públicas podem funcionar 24h", ouvi todas as vezes que reclamei pra polícia.
no final da obra, conheci representantes do metrô e da linha 4, que opera a linha amarela, que vieram à minha casa ouvir ao vivo as reclamações, minhas e da nina, que mora no apto. em cima do meu.
hoje lido melhor com a ex-obra do metrô - que agora virou um prédio de concreto, de uns 4 andares, sobre o tal do buraco. e vez ou outra chegam homens e/ou caminhões não muito silenciosos, sempre por volta das 20h, 22h. para trabalhar de madrugada. e então eu vou até a janela e peço, gentilmente, que eles não façam barulho porque estamos dormindo. e então eles se calam.

3 comentários:

  1. Tita, estou achando maravilhoso esse momento que vivemos na cidade de São Paulo, em que as pessoas, amplificadas pelos canais de comunicação que se formam pela internet, decidiram contar suas histórias, que tem a ver com o amor que se sente pela cidade e com a indignação pela falta de respeito com os valores cidadãos. Gostei muito do seu texto e vou posta-lo no meu blog, posso?
    Obrigada por compartilha-lo.
    beijo,

    Fe

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  2. Tita,

    belo texto e TÃO importante!Deveria estar nas primeiras páginas dos jornais. Lembrei muito do que passamos na João Moura, recém chegados da Europa, indignados com o "pode tudo" do Brasil. A gente se olhava no meio da madrugada e dizia a frase que virou refrão: "vamos imigrar?". Eu amo o Brasil, adoro a vivacidade desta encantadora e caótica cidade que escolhi pra viver, mas o barulho e o total descaso com os que querem algo tão simples como poder dormir à noite é revoltante. A sensação é de DESAMPARO. Parabéns pelo texto!

    Bjs,
    Dani

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    1. ainda bem que depois do sábado vem a semana...e as baladas tiram folga.

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