para o joão

desde que me conheço por gente, como se diz lá na minha terra, queria ter cinco filhos. primeiro, os planos eram feitos com o namorado "amor da minha vida". aos 14 anos o namorado é sempre o amor da nossa vida. mas o namoro terminou, e claro - graças a deus -, eu não tinha nem um, muito menos cinco filhos.
depois, no primeiro casamento, eu queria ter filhos. diz o meu ex-marido que toda vez que eu queria, ele não queria, e vice-versa. eu só lembro da parte em que eu dizia que queria ter filhos e ele dizia pra eu deitar na rede que a vontade ia passar.
enfim, no segundo casamento, finalmente colaborei para o aumento da população. mas tudo foi muito rápido. primeiro, casei sem namorar. um dia saí para jantar com o alessandro e fomos morar juntos. sete anos depois, tínhamos mudado o estado civil, usávamos belíssimas alianças, tivemos dois filhos - o joão e a lívia - e nos separamos.
well well well. e assim, dessa forma singela, termina a minha epopeia "quero ter cinco filhos". sobrou vontade, faltou marido. porque criar dois filhos sozinha eu encarei, mas mais três achei que ia ser excessivamente desumano.
ufa! tudo isso pra contar que hoje fui buscar o boletim do joãozinho. o da lívia eu recebi quando terminaram as aulas, mas o do joão só ficou pronto esta semana. e lá fui eu pra roça, onde fica a escola das crianças, buscar o envelope.
no recado dizia que os boletins estavam disponíveis e que alguns cadernos também. eu, que sou mãe de aluno "não tão perfeito", não estava muito contente. para preservar a raça, abri primeiro o envelope com os cadernos. e então, surpresa!, o joão tinha feito cadernos m-a-r-a-v-i-l-h-o-s-o-s. e, surpresa!, havia neles comentários otimistas da professora!
peguei a estrada e segui até outra cidade, bem pertinho de são paulo, mas outra cidade. fui visitar uma amiga. e então passaram-se muitas horas até eu abrir o segundo envelope, este com o boletim propriamente dito.
no meio do caminho, lágrimas tímidas molharam minhas bochechas enquanto eu dirigia.
explico.
queremos filhos perfeitos. sonhamos com filhos perfeitos. e temos certeza de que deus nos mandará filhos fabulosos. perfeitos e fabulosos para quem? para todos, ora bolas.
mas eis que isso não existe. é uma grande decepção para idiotas que, como eu, pensaram assim. mas acho que o pior sobra pro primogênito. deve ser por isso que sempre quis cinco filhos. mesmo sem saber, queria muitos filhos porque sempre soube que, assim, a loucura dos pais seria diluída. quanto mais filhos, mais aprendemos, e menos enlouquecemos. ou seria isso uma fantasia?  os primogênitos são os ratinhos de laboratório da família.
as parcas lágrimas eram de comoção. porque vou me dando conta de que se EU acho que EU não posso errar não posso ser incompetente não posso ser deselegante não posso muitas outras coisas, isso é um problema meu. mas meus filhos podem fazer cagadas e podem aprender. e no meio do caminho eu DEVO aceitá-los e ensinar o que eu sei e dizer a eles o que sinto.
punto e basta.

Comentários

  1. Caramba, Tita. Que forte e bonito isso. Também chorei. Bjos, Ju (saudades!)

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. oi ju! que surpresa ver um comentário teu aqui. então, tem uns textos que são muito "cada um sabe a dor a delícia de ser o que é". e esse é um deles.
      bjs pra ti.

      Excluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

nunca me senti tão rica

as dores do chute na bunda

Só sendo uma santa