'foi legal ir de bicicleta à locadora'

era uma manhã de domingo. e ele tinha pedido para pegar um filme na locadora. no caminho para comprarmos algo para cozinhar para o almoço, passamos na locadora, que estava fechada. abriria ao meio-dia, e ainda faltava meia hora.
eu estava na cozinha, preparando o almoço, e sugeri ao joão que ele fosse até a locadora a pé. ele pediu pra ir de bicicleta. é claaaaro que não, disse. de carro, então, ele pediu. mas eu estava cozinhando, e seria preciso esperar um pouco.
chamei o joão novamente e insisti que ele fosse buscar o filme enquanto amélia que era mulher de verdade assava uma carne maravilhosa no forno.
ele concordou e foi. quando voltou, com as bochechas vermelhas, disse "foi legal ir de bicicleta à locadora". como? "ué, mãe, você não disse que eu podia ir de bicicleta?" como diz o outro, quando eu estou levando a farinha o joão já está voltando com o pão. afe!
não fiquei pensando muito. era domingo, passava pouco do meio-dia, e as ruas do bairro são vazias nessa hora. pronto.
vou me mudar pra holanda ou pra noruega, e aí sim ele poderá andar de bicicleta todos os dias, toda hora. mas em são paulo, I am so sorry, de jeito nenhum. pelo menos enquanto o cara for uma criança e morar na minha casa. o futuro fica pra daqui a pouco.
...
estava livre para o almoço. coisa rara. queria encontrar alguém para almoçar. tento um amigo, que pela ausência da resposta deve estar morando lá na terra do tio sam. liguei pra uma amiga que mora perto da minha casa, mas era cedo pra ela, que tinha acabado de tomar café da manhã.
fui sozinha.
o sol do outono é maravilhoso, mas tava achando chato ver hordas de "amigos do escritório" andando atrás de um lugar para comer, e eu ali sozinha. mas foi ótimo encontrar várias almas solitárias no simpático restaurante que fica no mezanino de um pequeno supermercado do bairro.
observo uma mulher com roupa de quem já tem idade suficiente para não se importar com o que usa tomando uma sopa que parecia excelente. por causa dela, da mulher, eu também peguei um bowl com muita sopa.
ela foi embora antes de mim. e lá de cima, do mezanino, eu a vi escolhendo cuidadosamente caixas de morangos. no carrinho ela levava pacotes de suspiro. meu deus, além da calça preta de quem pratica caminhada e das meias creme, de algodão e grossas, esticadas até o joelho, essa mulher ia fazer uma torta de morangos!
virei fã. ela usava um cabelo de "mulher com mais de 50 que é quase loira e corta os cabelos lisos curtos e parece ter nascido no rio grande do sul". senti muito conforto na alma ao ver que tem gente assim no mundo. que toma uma sopa num dia ensolarado de outono, usa meias como quem vai fazer trilhas nos alpes suíços e ainda se prepara para fazer uma torta de morangos!
...
andando de volta pra casa, vejo um casal de velhos com um frescor que eu não lembro de ter visto. eles caminhavam de mãos dadas. e tinham cara de estar felizes ao andar um ao lado do outro. pareciam ter uns 70 anos, pelo menos. mas tinham um ar jovem, e por jovem não quero dizer pouca idade, mas algo emanava deles que eu só consigo descrever usando a palavra frescor.
quero ser assim quando os cabelos brancos tiverem tomado conta de toda a minha cabeça.

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