sexta-feira, 12 de junho de 2015

bonitezaterapia

chegamos ao apartamento dela tarde da noite. não era esse o plano, mas o ônibus atrasou quase duas horas. trânsito em véspera de feriado, explicou o motorista. lerdeza, me falou uma passageira ao desembarcarmos na rodoviária do rio.
minha amiga tinha ficado acordada nos esperando, porque senão não conseguiria acordar para abrir a porta pra gente, me explicou. fiquei constrangida, porque quase meia-noite não é hora pra chegar na casa de ninguém, a não ser do seu marido, e olhe lá.
senti um conforto ao olhar pela sala os brinquedinhos do pequeno edgar pelo chão. e ao ver nossa cama arrumada no escritório, onde a alice tinha passado algumas horas na última semana arrumando umas bagunças pra nos receber.
no outro dia, ao acordar, dou de cara com o mar. as janelas do escritório davam pro mar, e a da sala também. meu deus, que bonito. a praia vazia, uma ou outra pessoa andando no calçadão, e aquele mar verde enorme liso, com navios lá no fundo, e barquinhos andando no meio daquela água toda.
e nos quatro dias que se seguiram, eu fiquei suspirando pra aguentar tamanha beleza. do mar, das calçadas tomadas de gente passeando, da pequena família feliz da alice, da risada do edgar, da caipirinha na beira da lagoa, da lua bolota gigante e amarela surgindo atrás das águas da lagoa, dos jardins do palácio em cuja edícula eu moraria sem problemas.
no último dia do feriado, fomos à praia, lívia e eu. as ondas vinham fortes, e eu sugeri pra minha filha que não voltássemos pra casa naquele domingo, que ficássemos no rio mais uns dias, pra respirar aquela beleza estonteante. minha filha concordou, e a gente fez de conta que ia ficar no rio e ia esquecer que tinha de voltar pra casa, encontrar meu filho, e que na segunda-feira eu teria de levar as crianças pra escola e depois trabalhar.
....
fazia tempo que eu não ia ao parque. muito tempo. pra falar a verdade, eu quase nunca vou ao parque.
era cedo de manhã, e nesse horário o parque é muito vazio. mas muito mesmo, de você andar um ou dois minutos sem ver ninguém, a não ser um quero-quero. como tava nublado, os postes de iluminação super modernos que eu não conhecia tavam todos ainda com as luzes acesas.
o parque é lindo, especialmente de manhã cedo, quando a grama tá molhada, os passarinhos tão animados e as flores nas árvores ainda não brilham com a luz do sol. as pessoas ao cruzar o seu caminho falam bom dia!, e você fica pensando puxa-que-simpático-o-parque-grande-na-cidade-cinza-e-na-beira-do-rio-fedorento-parece-um-parquinho-no-interior!
enquanto eu andava eu tentava prestar atenção na minha respiração e acelerar o passo. mas não conseguia nem uma coisa, nem outra. a minha respiração parecia estar sendo feita por uma máquina, porque eu não tinha o menor controle sobre ela, e os meus passos iam lentos, acompanhando minha tristeza meio mole desses dias.
depois de andar o suficiente pra achar que tava bom, corri e vi que minha respiração ficava mais feliz, mais estável, mais animada também. suando muito - ah, o sedentarismo faz a gente suar horrorores! -, fiquei andando até achar um banco de madeira onde eu pudesse me alongar e me sentar para meditar.
eu nunca tinha meditado no parque. e fazia muito tempo que não meditava sentada. coloquei o relógio do celular pra despertar, e fechei os olhos, um pouco envergonhada de meditar "no meio das pessoas que andavam ou corriam".
escutava os passos de quem ia se aproximando e depois se distanciando, e esse barulho era um cafuné pros meus ouvidos. continuei lá, de olhos fechados, com vergonha e feliz.
lembrei da frase do monge thich nhat hahn*, que eu tenho escrita enorme na lousa da parede da cozinha. ele diz pra gente abraçar os nossos sentimentos como se estivéssemos segurando um bebê recém-nascido. aha, eu queria mandar minha respiração descontrolada embora, em vez de aceitá-la e ficar com ela. e então, em vez de respirar feliz, tava respirando cada vez mais infeliz!
com um alívio enorme, na cabeça no coração e nos pulmões, ficava ouvindo os passos que vinham e iam, e o silêncio. e fiquei com vontade de abrir os olhos, afinal minha meditação tava demorando muito (ah ah ah, a pessoa medita e fica aflita!). mas em vez de abrir os olhos e olhar o relógio, combinei com a louca dentro de mim que queria parar de meditar que eu abriria os olhos assim que escutasse pássaros cantando. o que demorou tempo suficiente para eu ficar concentrada nos barulhinhos que chegavam e partiam, e perceber que o melhor que eu tenho a fazer todos os dias todos os minutos e não só agora é ficar concentrada no que está acontecendo. sem o antes pra me fazer chorar, nem o depois que me faz ter medo.
os pássaros cantaram, eu abri os olhos e fui olhar o relógio. eu havia ajustado o despertador para meditar 20 minutos, mas tinha colocado a hora errada e meditei 30 minutos ininterruptos, sem mexer as pernas, sem olhar o relógio, sem desistir antes da hora.
e então fizemos um acordo, eu e a louca que mora dentro de mim: eu irei mais vezes ao parque. eu vou correr mais vezes por semana, e vou meditar mais minutos sentada em bancos de madeira. vou escutar mais passarinhos e os passos das pessoas, e vou rir com gratidão da boniteza do mundo.
...
*a frase da lousa é essa:

“Do not fight against pain; do not fight against irritation or jealousy. Embrace them with great tenderness, as though you were embracing a little baby. Your anger is yourself, and you should not be violent toward it. The same thing goes for all your emotions..” Thich Nhat Hanh

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