a mãe louca voltou

R$ 16,65. o valor da corrida de uber apitou no meu celular. eu estava no rio, a trabalho. meus filhos estavam em são paulo. e meu filho estava se mudando para a casa da avó dele.
era fim de tarde, eu já tinha voltado para o hotel. e já tinha visto várias mensagens do meu filho reclamando que ele não conseguia chamar um carro da cabify.
eu sempre reclamei muito, e de tudo. e consegui ensinar esse comportamento para o meu filho. e dentro do gigantesco rol de reclamações, ele pediu para ir morar com a avó dele. não era um pedido recente. fazia muito tempo que ele pedia. a avó dele concordou, depois de uma conversa franca, e ele, prontamente, arrumou a mala no domingo e mudou-se na segunda.
antes de ser mãe, eu tive a sorte de ler um texto do khalil gibran sobre filhos. e, desde então, sempre tive a certeza de que meus filhos não eram meus coisa nenhuma. eram da vida. ser mãe é o maior exercício de desprendimento que eu conheço.
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enquanto meu filho se mudava, a minha filha ficava sozinha em casa. não era a primeira vez que isso acontecia. mas pela primeira vez ela teria de acordar sozinha às 5h30 para ir para a escola. a forma de ela reclamar da minha rápida viagem, indo na manhã da segunda para voltar à noite na terça, foi simples e direta. "ai que saco, vou ter de esquentar o meu almoço e lavar toda a louça." achei engraçado, porque quando eu trabalhava num escritório todos os dias, todos os dias ela esquentava a comida e lavava a louça - mas a mãe não estava viajando, só trabalhando.





torta de cebola para as refeições sem a mãe

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na segunda à noite, antes de dormir, eu havia pedido à lívia que me mandasse uma mensagem terça de manhã, para eu saber que ela tinha ido para a escola. mas na terça fiquei trabalhando e, à tarde, quando ia embarcar de volta pra casa, me dei conta de que não tinha recebido mensagem nenhuma. mandei uma mensagem, e nada. liguei, e nada. liguei para o telefone de casa, e ninguém atendeu.
eu estava dentro do avião, e sabia que eu não tinha nada a fazer a não ser esperar. passou pela minha cabeça mandar uma mensagem para o porteiro do prédio que fica na portaria de manhã. mas fiquei com a sensação de que isso era uma bobagem, um exagero, no mínimo. liguei mais uma vez para casa, e então uma voz sonolenta atende. minha filha estava tirando uma soneca depois do almoço enquanto a mãe dela ameaçava entrar em pânico porque a guria não respondia às mensagens do celular.
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o lado bom de viajar é que viajar é uma delícia, sempre. mas quando você viaja e filhos ficam em casa, a volta é SEMPRE uma surpresa.
ao longo dos anos, as mulheres da casa têm reclamado que "o joão isso, o joão aquilo". nos acostumamos, minha filha e eu, a pedir tudo mais de uma vez para o joão, e por isso ele ficou com a fama do que não faz nada.
mas quando entrei em casa chegando do aeroporto, o que me esperava? uma filha deitada no sofá, dentro de um apartamento bem bagunçado. comecei a andar freneticamente de um lado para o outro, catando coisas no chão, abrindo janelas, surtando com um saco de lixo que jazia perto da porta de entrada da cozinha desde a manhã anterior, quando eu tinha ido, muito cedo, para o aeroporto, e pedido para que o lixo fosse encaminhado para a lixeira do prédio.
"a mãe louca voltou", pensei. sim, porque todas as mães são loucas. mas isso não é um problema. assim é que é, e melhor saber da loucura do que fingir normalidade e ter cara de esquizofrênica.
por que eu não podia chegar de viagem e sentar? por que eu tinha de arrumar tudo o que estava fora do lugar? a lívia, linda, olha pra mim e diz "mas a louça está lavada". sim, a louça estava lavada e eu sorri e disse "que bom".
o esforço para ser MENOS louca é hercúleo. achei engraçado estar em casa e saber que o meu filho não iria chegar. consegui não mandar nenhuma mensagem pra ele, porque mãe chata é over e desnecessário - eu conseguiria evitar. e consegui.
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a casa está quase em ordem. e hoje foi um dia como outro, a lívia na escola, eu trabalhando em casa, o joão morando na avó. um agasalho segue jogado no canto da sala. deve haver também pelo menos um par de tênis na entrada da sala. a cama da minha filha não foi arrumada, tampouco o quarto dela. em vez de sair gritando e reclamando, achei ótimo ela ter lavado toda a louça do almoço, o que incluía 3 ou 4 panelas, sem reclamar. o dia está terminando e eu sinto muita alegria de ter os filhos que eu tenho. eles me ensinam, todos os dias, t-o-d-o-s, a ser cada vez mais sã. 

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