deixando ir

eu fui criada por uma mãe que era incapaz de manter qualquer coisa organizada. a vida dela era um caos ambulante. a bolsa, as gavetas, os armários, os documentos. por onde ela andava, havia caos: ela estava sempre indo para algum lugar, e sempre tinha de ser rápido, porque ela estava atrasada.
talvez o caos assustador em que ela vivia me ensinou o extremo oposto. raramente eu me atraso para chegar a qualquer lugar; minhas gavetas são organizadas e eu sempre sei onde estão as coisas dentro da minha casa. meu armário é quase um quadro zen, e eu estou tentando me livrar da mania das listas, o que é árduo, já que minhas listas me ajudam a ter foco e saber quais são as prioridades do dia, da semana, do mês. não, do mês, não - estou exagerando.


dentro da minha vidinha organizada me acostumei a me livrar de tudo o que eu não uso. t-u-d-o. é legal ser organizada, mas doar o que não usamos às vezes pode ser uma obsessão. eu ainda não sei medir se é uma obsessãozinha, uma obsessão crescente, algo gigante com o qual devo me preocupar seriamente ou se estou só viajando e doar inutilidades é sinal de saúde mental.
mas um dia descobri uma inglesa que fazia eventos de trocas de roupas. fiquei fascinada. a inglesa é dona de uma agência de comunicação que trabalha com sustentabilidade, e ela criou o swishing. os eventos têm regras, mas basicamente cada pessoa leva o que não usa mais (em excelente estado), todo mundo tem uma hora para olhar e provar e então toca-se o gongo e cada pessoa pega o que quiser.
uma amiga, quando foi convidada para um swishing na minha casa e eu mandei as regras pra ela, disse que eu tinha enlouquecido. "tita, você não está na inglaterra. você está no brasil." eu dei de ombros. e minha amiga é fã até hoje.
no site da Futerra, a agência inglesa, o evento é descrito como "ético, ecofabuloso, social e divertido. bem-vindo ao futuro da moda". e entre as regras, segundo sua criadora, lucy shea, não pode arranhar, cuspir nem lutar.
muitos anos e muitos swishings depois, eu comecei a desconfiar de que a ideia de separar roupas e a sensação de "ai meu deus está na hora de organizar outro swishing" me deixava ansiosa. eu queria separar mais e mais roupas. e isso aconteceu quando uma fase sombria estava surgindo: fui demitida, meu pai havia falido e eu tinha de lidar com advogados e reclamatórias trabalhistas do velho, o pai dos meus filhos parou de pagar a pensão de alimentos regularmente e eu tive de pagar meu advogado para me defender de um processo de revisão de pensão de alimentos.
eu estava cada dia mais dura, e queria, literalmente, juntar coisas para doar.
lembrei das pessoas, normalmente mulheres (nunca vi um homem fazendo isso), que estabelecem um ano sem comprar nenhuma peça de vestuário. e bingo!, quem já tinha feito isso? lucy shea, a inventora do adorável e divertidíssimo swishing.
em um post do seu blog, lucy escreveu que ficar sem comprar roupas sapatos acessórios e quetais por um ano tinha dado a ela 1 - menos ansiedade e 2 - mais tempo livre!
e então, juntando a minha ansiedade em promover encontros de amigas na minha casa para doar e ganhar roupas e a lembrança do texto da lucy (não comprar = menos ansiedade), fiquei intrigada com o que significa ter o suficiente.


faz muitos anos que eu me interesso por uma vida mais simples. talvez desde que deixei de ser criança. lembro da história de um grande executivo que largou o trabalho ao dar-se conta de que não conhecia os próprios filhos adolescentes. ele vendeu casa, os carros e não sei mais o quê para ter uma vida em que ele tivesse tempo e energia para ver os filhos, os amigos, aproveitar a vida e ser feliz. eu achava essa história a mais fascinante de todas, mais incrível que todos os contos dos irmãos grimm juntos. ficava boquiaberta ao imaginar um homem que tinha muito escolher ter pouco e se considerar uma pessoa bem sucedida ao fazer isso.
mesmo achando a história do workaholic que "largou o trabalho" porque não conhecia os filhos incrível, eu trabalhava muito e queria ter um bom salário, uma boa casa, um bom carro, um bom marido, um belo sítio. 
a vida nos traz o que precisamos. e aprender a diferença entre "jogar no lixo ou doar o que eu não gostou ou não uso mais" e "me desfazer do que eu considero importante e útil" é uma boa lição. que só aprendi ficando dura, sem ter a quem recorrer, criando dois filhos totalmente sozinha.
usamos a palavra desapego sem termos a noção do que isso significa. doar um casaco de couro que eu passo a achar feio não tem nenhum desapego. fazer uma pilha de roupas que não me servem mais para colocar num swishing não tem nenhum desapego.
aprendi com amigos que uma festa de desapego é feita assim: você escolhe uma coisa de que gosta muito, embrulha pra presente e leva numa espécie de amigo-secreto. não é um livro que você leu e não gostou, nem um sapato que aperta seus dedos, tampouco uns copos que você não usa. é algo de que você GOSTA, e MUITO.
a vida de verdade é uma sucessão de tapas na cara. vou aprendendo lições de me surpreendem e me fazem perceber o quão pouco eu sei. e isso me traz muita alegria. uma espécie de satisfação com leveza. deixando ir embora minhas certezas imprestáveis e aprendendo a enxergar sob outros - vários - ângulos.
gratidão pelos meus mestres e amigos, que me ajudam a respirar aliviada e contente, deixando muitas coisas irem embora. e é justamente por deixar ir embora que eu me sinto cada vez mais leve. como diz meu professor, que não fala português mesmo entendendo tudo o que eu digo pra ele, let go. e isso quer dizer deixar ir tudo - o que é bom, o que é ruim. porque tudo vai mesmo, mas na nossa fantasia podemos manter tudo, tudo em ordem, tudo perto, tudo pra sempre.
precisamos de muito pouco, essa é que é a verdade. sem os excessos e os medos, fica mais fácil.
cada vez me desfaço de menos coisas, porque tenho menos coisas sobrando. mas sigo fazendo swishings, porque os encontros valem mais do que tudo. 




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