os cabelos vermelhos e a família feliz de josé

josé entrou no vagão acompanhado do pai, da mãe e dos dois irmãos mais velhos. como eles eram muitos, e estavam bem na minha frente, não pude deixar de notar.
ele tinha os cabelos muito crespos e ruivos. sentou-se num banco individual, e em segundos estava de pé sobre o banco. logo estava sentado novamente. o pai, um homem muito magro e com a cara enrugada, possivelmente com menos idade do que parecia, ficou em pé, ao lado do banco onde o filho caçula estava sentado.
mãe e filha sentaram-se nos dois bancos próximos ao de josé, e o filho do meio sentou-se sozinho e de costas para toda a família.
eu olhei para o pequeno ruivo e ele abriu um sorriso enorme. os dentes da frente não eram brancos, mas de onde eu estava não dava para ver se eram dentes escurecidos por alguma batida ou se eram dentes podres. o sorriso do menino era maravilhoso.
assim que as portas do vagão fecharam, um gorducho que estava de pé anuncia que faz parte de uma organização, eu não consigo entender tudo o que ele diz. logo ele sai andando pelo corredor entre os assentos cantando um rap.
ele vai parando na frente de um passageiro, faz um verso, depois para na frente de outro e faz outra rima. eu começo a rir, minha filha também ri. josé está rindo com o movimento todo, e sua mãe e a irmã mais velha dão gargalhadas.
muito rapidamente eu percebo que estou diante de uma família feliz. as crianças mudam de lugar, e os adultos não comentam. a filha mais velha leva uma bolsa de pano bem cheia, que ela coloca no chão, entre os dois pés. de repente ela deita a cabeça sobre a coxa da mãe, que acaricia os cabelos da filha. a mãe usa uma calça que precisa ser ajeitada na cintura quando ela se levanta para trocar de lugar com um dos filhos. está um pouco frio, e todos estão agasalhados.
o casal parece jovem, não pela aparência, mas pelos gestos. são pessoas delicadas, amorosas e tranquilas. quando o rapaz do rap se aproxima da gente, faz um verso para a minha filha, que cai na gargalhada. um dos irmãos do josé segura duas ou três moedinhas e espera que o cantor passe na frente dele para entregá-las. josé faz o mesmo gesto, ainda que suas maõzinhas não segurem nada.
o rapper segue com seus versos hilários, quando percebo que a irmã e a mãe de josé estão fazendo um barulho com as mãos, que estão cobrindo suas bocas. eu olho admirada para as duas, e a mulher tira as mãos da boca por um instante, dá uma gargalhada olhando para mim e depois volta a fazer o barulho para "acompanhar" o rapper.
o trem para na estação em que minha filha e eu vamos descer, e eu sorrio para josé, que me olha e mais uma vez abre um sorriso encantador.
tenho certeza de que josé nunca escutou do pai nem da mãe a frase "nunca fale com estranhos". pessoas felizes jamais usam essas palavras. porque elas falam com muitos estranhos, todos os dias. às vezes nem falam, só sorriem. como fizeram comigo.
saí do metrô de mãos dadas com a minha filha, um pouco emocionada com a cena que eu tinha visto ali dentro do vagão. aquela era uma filha feliz. visivelmente pobre, e claramente feliz. 

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