buscando a paz em tempos de guerra

era um dia qualquer, num fim de semana. um domingo. e eu achava que devia colocar ordem numa parte da casa que parece não fazer muita diferença no dia a dia da minha pequena família: a área de serviço.
o lugar pode ser considerado inútil quando penso que vivi um ano num apartamento sem área de serviço e sobrevivi. era nos estados unidos, onde apartamentos podem até ter uma lavadora e uma secadora de roupas, mas nunca têm área de serviço. não lembro onde eu guardava o que no brasil seriam as vassouras e lá era um rodo sinistro com uma esponja na ponta. mas tudo funcionava. com um filho bebê inclusive.
mas voltando à minha área de serviço, porque eu moro no brasil e sempre tive áreas de serviço aqui. estou aqui pensando por que raios uma pessoa vai falar da sua área de serviço. bem, eu vou falar porque pela primeira vez na minha vida, pelo que minha memória dá conta, eu peguei uns panos e uma escada, além de uma esponja com detergente, e lavei o armário da área. usei uma escovinha, um pouco de solvente para tentar remover uma mancha laranja misteriosa que não quis ir embora. subi e desci a escada muitas vezes, a ponto de suar como se tivesse corrido por 30 minutos.
a função durou uma manhã. eu não olhei no relógio, mas deve ter sido algo tipo duas horas de dedicação exclusiva e animada à limpeza e organização da área de serviço.
findo o meu trabalho aparentemente nada nobre - estamos falando de um lugar numa casa cujo acesso costuma ser feito pelos empregados da casa, e não pelos seus moradores; no caso de moradores sem empregados, é um lugar que costuma ficar abandonado, desorganizado e cheio de "coisas" jogadas em armários ou prateleiras ou caixas -, eu senti um alívio.
entre um saco de terra para a horta, panos de faxina e produtos de limpeza, não havia quase nada para ser doado ou descartado. era mais uma questão de limpeza e organização. ordem.
e eu senti alívio por dois motivos: por ter limpado uma parte esquecida do meu pequeno apartamento e por ter colocado as coisas em ordem. e foi então que eu lembrei de um esporro que eu e os outros cerca de 20 participantes de um retiro no sul da bahia levamos do nosso professor antes do começo de uma das aulas. era o ensinamento da tarde, que acontecia na sala de uma casa com ar condicionado. o ensinamento da manhã era sempre no espaço coberto na beira da lagoa, mas sem paredes, já que o clima era fresco antes do meio-dia. mas à tarde tínhamos de ficar nessa sala fechada, que era estranhamente fresca para as tardes baianas e tinha gigantescos janelões que nos permitiam ver a mata.
chegávamos e deixávamos nossos chinelos na entrada, ao lado da porta, para entrarmos na sala. mas não colocávamos os chinelos ali. nós os jogávamos, arremessávamos. ficavam atirados, num bololô digno de uma foto. mas no retiro não tínhamos permissão para tirar fotos, muito menos para andarmos com os celulares na bolsa. nosso professor, então, disse que se estivéssemos em um mosteiro zen a cena dos chinelos amontoados jamais existiria. ele disse ainda que era muita falta de cuidado da nossa parte fazer uma bagunça como aquela. deveríamos colocar nossos chinelos um ao lado do outro, de forma organizada.
a partir daquela tarde, até o fim do retiro, onde quer que estivéssemos - refeitório, sala de ensinamentos, beira da lagoa -, os chinelos eram vistos aos pares, lado a lado, numa cena muito linda.
eu fiquei pensando na minha área de serviço limpinha e arrumada, e nos chinelos dos participantes do retiro, e em como a organização facilita a nossa existência. um lugar arrumado traz alegria, é como um cafuné para os olhos, se os nossos olhos pudessem receber cafuné. mas não é só isso. a alma, que também não ganha cafuné, sente-se lisonjeada, acolhida e cuidada quando estamos em qualquer lugar organizado, limpo, bonito.   



precisamos parar para aquietar o corpo e a mente. e arrumar as coisas de fora ajuda a arrumar as coisas de dentro.
"o que vocês que meditam acham que é tudo isso?", ela me perguntou hoje cedo. estávamos trocando mensagens sobre o que está acontecendo na bananaland. e eu lembrei do que o meu professor disse para nós, seus alunos. tenho lido todos os dias um poema que deseja a paz para todos os seres e tenho me concentrado para não ser sugada pelo medo e entrar no redemoinho enlouquecedor de achar que "eu tenho razão, mas os outros estão loucos". 
e todos os dias, ao acordar, eu desejo que todos os seres sejam saudáveis, felizes e livres do medo.




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