como potencializar sensações incômodas

ele é um cabeleireiro muito ocupado. isso quer dizer que MESMO marcando hora para ser atendida, a possibilidade de ter de esperar além da hora marcada é de 150%, no mínimo.
eu sei disso há uns 20 anos. faz parte. e quando sabemos que alguma coisa não andará a contento, pensamos que é mais fácil lidar com ela. por exemplo: sair de carro em são paulo no fim da tarde é sempre uma ideia infeliz. sempre. se for imprescindível sair, você prepara doses extras do seu saquinho de bom humor, coloca-os na bolsa e sai.
assim eu tenho tentado lidar nas raras vezes em que vou ao cabeleireiro. reservo mais do que uma hora do meu dia, não marco nada na sequência, vou e espero. todas essas medidas deveriam ser suficientes para que eu ficasse tranquila, mas não. oh shit. eu quero funcionar sem ansiedade, mas como ela é minha amiga de longa data, ela gruda em mim feito chiclete mascado. eca!
nessas horas em que estou no salão, eu fico fingindo que estou ótima, ah-que-delícia-ter-um-tempo-para-não-fazer-nada. aí me dou conta de que estou contando quantas pessoas já foram atendidas pelo MEU cabeleireiro enquanto eu estou sentada esperando. vejo uma senhora trabalhando enquanto mexem na cabeleira dela e penso nossa-ela-deve-ser-uma-pessoa-muito-importante-que-precisa-trabalhar-até-nas-manhãs-de-sábado. sim, era sábado.
eu estava sobrecarregada de trabalho e estava muito cansada. antes de sair de casa rumo ao longo compromisso, eu tinha colocado dentro da minha bolsa umas folhas de papel e uma caneta para escrever em detalhes uma proposta de trabalho que eu precisava mandar até o fim daquele dia para uma parceira de projetos. a tal da proposta, no entanto, tinha sido feita em 10, talvez 20 minutos. e logo eu estava livre para viver a grande ansiedade de ter meus cabelos cortados, ah ah ah.



o cansaço de vários dias de trabalho intenso + a minha querida companheira conhecida por ansiedade estavam se dando bem. ó-que-vida-dura-mas-como-eu-estou-exausta. pensamentos construtivos criados a partir do namoro do cansaço com a ansiedade borbulhavam na minha mente.
no meio dessa meleca de pensamentos negativos, fiquei prestando atenção. observando os pensamentos que passavam na minha cachola, como se fosse um filminho. é uma atividade nova, essa de bancar a espectadora dos meus próprios pensamentos. eu já tinha lido sobre isso, já tinha escutado alguns mestres falando sobre isso, mas era excessiva e infinitamente abstrato para a cabeça de uma ocidental criada em colégio de padres como eu. só que na vida é assim, vamos aprendendo algumas coisas sem perceber e um dia, pimba, o aprendizado vira algo significativo, que entrou pra dentro da gente e começou a fazer sentido. dizem os professores de crianças em idade de alfabetização que é assim que elas aprendem a ler e a escrever, de um dia pro outro dá um estalo. era o que a minha mãe, que foi professora até o dia em que eu nasci, me contou muitas e muitas vezes, sempre emocionada.
ainda no salão, enquanto eu tomava cafés expressos fortes e saborosos e devorava os biscoitinhos amanteigados com coco que os acompanham, resolvi não abraçar com o afeto típico das crianças pequenas o meu cansaço nem a minha vontade de ir embora logo daquele lugar - conhecida popularmente por ansiedade.
o que aconteceu a seguir? surpresa, dona patrícia! senti um alívio e, com certo espanto, me dei conta de que ao me agarrar às minhas ideias de cansaço e ansiedade eu consigo me sentir muito muito muito mais cansada e aflita. e o contrário é verdadeiro: ao soltar essas ideias que passam feito filminho na minha cabeça, meu cansaço não deixa de existir, mas fica bem pequeno. e a chatonilda da ansiedade vai-se. desaparece.
fico me perguntado por que raios lutamos tanto para não soltar as chatices. por que estamos sempre agarrados com o que nos incomoda, preocupa, entristece?
quanto mais me concentro pra ter uma vida com sentido, com tranquilidade, com alegria, mais percebo que sei pouco e que há um tanto pra aprender. ainda bem, pelo menos de tédio não vou morrer. espero.

  
isso é uma reunião de trabalho informal com uma amiga

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