o bebê vai nascer - 9 meses sem fazer compras

o bebê vai nascer. no dia 10 completam-se 9 meses da minha aventura, meu sabático de compras. o tempo de uma gestação. e assim como a ansiedade que vai aumentando conforme se aproxima a hora do nascimento do filho, com a barriga crescendo cada vez mais e o peso também, comecei a ficar com vontade de comprar (ansiedade, alguém?).
a aventura é muito mais interna do que externa. não comprar roupas não quer dizer nada. você simplesmente deleta emails com promoções das lojas que você gosta. e você entra e sai de lojas sem se incomodar - tipo o amigo que senta no bar e pede uma coca, enquanto todo mundo cai de boca no chopp ou na caipirinha. o cara da coca não tá nem aí pro que os outros estão bebendo, não olha pro garçom. também não gasta uma grana, nem fica bêbado.
e isso é um pouco frustrante. eu imaginava que passar um ano sem ir às compras fosse uma aventura e tanto, algo que renderia inúmeros textos, muitos insights, muitos comichões em diferentes partes do corpo. mas não.
quase toda a experiência é interna. você começa a olhar pro mesmo armário, pras mesmas gavetas e mesmas prateleiras de outra forma. você passa a dar valor para todas as coisas que estão dentro do seu velho armário. e quando me refiro a todas as coisas, estou me referindo a lenços, havaianas, camisetas, casacos, vestidos, calças, tênis, bolsas. e ao dar valor às suas coisas você percebe clara e lentamente o que está dentro do seu armário, mas não deveria estar lá. e lá se vão as botas que eram dois números maior que o meu pé, o que fazia com que meus pés dançassem dentro delas a cada uso, a cada pequena caminhada. e a bolsa linda de couro que comprei 20 anos atrás, caríssima e de alta qualidade, que faz com que eu pareça uma vovó de 83 anos, também vai se mudar para o armário de outra pessoa. e as calças com furos nas pernas foi promovida a um short, depois de eu passar frio e perceber que os buracos nas calças eram rombos, buracos que foram se rasgando com o uso e tinham aumentado 2 ou 3 vezes de tamanho.
depois de alguns meses sem colocar nada de novo nas suas gavetas ou prateleiras, você também percebe que roupas são bens duráveis. não todas, mas várias, se você for o tipo de pessoa que prefere ter um armário com coisas boas a ter muitas coisas. na minha fantasia de leiga no tema, imaginei que minhas roupas iam acabar em um ano. mas passados 9 meses, elas não terminaram. daqui a 3 meses farei um inventário, para bater com o inventário feito em dezembro do ano passado, quando comecei meu sabático de compras. imagino que os números serão muito semelhantes. talvez uma blusa a menos, que foi pra sacola de doações por estar velha, e alguns pares de sapatos a menos, porque fui tirando tudo o que não me trazia alegria. viva a marie kondo!
você também percebe que você era uma pessoa exagerada, sem noção ou sem limites, e que gastava muito, mas muito dinheiro de forma desnecessária. eu não vou fazer as contas do quanto gastava nem do quanto deixei de gastar, mas toda vez que não comprei algo ao longo desses meses eu senti um alívio ao pensar algo simples como "por que compraria esta calça se tenho 3 jeans, 1 calça de sarja bege e 1 saia-calça preta?". ou ainda "uau, essa marca de batom eu não conhecia e as cores são fabulosas, mas eu tenho um batom vermelho, outro bege, outro rosa, então eu não vou comprar mais nenhum batom".
aos poucos, no tempo dessa gestação, fui rompendo meu ímpeto de ah esse furinho nessa blusa faz dela um pano de chão, ou olha essas bolinhas nesse casaqueto!, vou ter de me desfazer dessa malha ordinária. existe uma diferença colossal entre você tirar do uso algo de que você não gosta ou não usa mais e você tirar do uso algo porque amanhã vai comprar outro. tratar bens duráveis como bens descartáveis é o resultado de uma cultura que não dá valor. uma cultura que descarta tudo, o bom e o ruim. e essa cultura do "joga fora no lixo" está casada com a peste da ansiedade. uma dupla funesta. 
a noção do suficiente não vem automaticamente. requer um certo esforço. assim como relaxar. aliás, essa era outra fantasia: a de que eu poderia sofrer por falta de alguma peça no meu armário, como um vestido para uma festa ou uma roupa apropriada para uma reunião com um cliente. sorry, baby, eu tive de dizer pra minha expectativa de sofrimento. não houve nenhum sofrimento. nenhuma aflição.
no fim, ficar sem comprar por um ano - ou nove meses, até agora - é organizar toda a sua vida. você vai tirando o que não presta e cuidando do que você quer cultivar. em todos os aspectos. tanto materiais - me livrei de um par de botas que por cinco anos eu duvidava se gostava ou se achava o ó (não, não são as mesmas que faziam meus pés dançarem dentro delas) - quanto não materiais - eu passei a parar de trabalhar ou de fazer o que estou fazendo quando os meus filhos chegam da escola, e fico com eles por um tempo, para saber como foi o dia, para almoçar ou para jantar.
meu desejo é que depois de completar os 12 meses do meu sabático, que eu seja uma pessoa mais razoável no trato com roupas, sapatos, acessórios. mais zen, mais minimalista, mais racional e mais exigente. e menos fútil, menos ingênua, menos aflita, menos impetuosa e menos adepta das compras de roupas em promoção parceladas no cartão de crédito.
toda mudança exige esforço. aliás, esse é outro aprendizado. não existe almoço grátis.
  


perfis. tudo depende do ponto de vista. de quem vê e de quem é visto.

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