o que aprendi em um ano sem comprar roupas

existem pessoas que ficam obcecadas com alguns temas. e eu fiquei com essa história do meu sabático de compra de roupas. não, não faz um ano. ainda faltam 24 dias pro aniversário. mas eu já aprendi um tanto e como as lições são libertadoras, eu resolvi compartilhá-las.
claro que por vezes penso 'meu deus, será que uma pessoa não tem mais nada pra fazer na vida pra ficar obcecada com o fato de não comprar roupas?' mas pensando bem meus interlocutores costumam mostrar um certo interesse quando abro a minha boca pra discorrer sobre o tema, sobre os meus achados e tals.
sim, eu pensei, na minha cachola tão criativa, que este ano sabático seria transformador. que eu me tornaria outra pessoa. ah ah ah. na verdade em vários momentos eu senti tédio. mas que falta de insights!, que falta de emoções arrebatadoras!, que falta de sensações do tipo u-a-u!
vida que segue. e vamos às lições, que nada têm de u-a-u.

1. ansiedade
a minha musa inspiradora, Lucy Shea, disse há muito que quando ela ficou sem comprar roupas por um ano ela percebeu que a ansiedade dela tinha diminuído. eu não conseguia entender o que ficar sem comprar roupas tinha a ver com mais ou menos ansiedade. mas tem.
2. vontade de comprar
eu posso estar exagerando, mas eu me lembro de dois momentos em que senti vontade de comprar uma roupa ao longo desses 365 menos 24 dias. esperei a vontade passar e ela passou bem rápido. é igual à vontade de comer um doce na hora em que você tá indo dormir e não há nada além de um saco de açúcar na sua casa. você não vai comer açúcar de colherinha, decide seguir em direção à sua rica cama e nisso a vontade passou. vontades passam, todas elas, mas é preciso um pouco de esforço. a tal da força de vontade.
3. necessidade de comprar
essa é prima irmã da vontade de comprar. depois da vontade é comum a gente, do nada, perceber que precisa muito daquilo que queremos comprar. mas quando você doma a sua vontade e ela fica mansa e quieta, as necessidades tornam-se mais raras. escassas. e somem.
4. criatividade
quando você não tem nada de novo pra colocar dentro do seu armário, você aprende a ser um pouco mais criativo com o que já está dentro do seu armário. é simples. algo na linha já que só tem tu, vai tu mesmo. e então você usa o que você tem, incluindo roupas com cheiro de armário, lenços esquecidos e aquele cinto que você nem sabe há quantos anos tem. 
5. simplicidade
prima irmã da criatividade. ideias mirabolantes do tipo 'ah, quando eu comprar aquelas sandálias fabulosas daquela estilista incrível vou usar novamente esse vestido' vão-se. somem. por quê? porque não vai ter sandália nova nenhuma.
6. apreciar/dar valor
o que temos para hoje? isso que está na frente do seu nariz. eu aprendi a olhar e apreciar não algumas coisas, mas todas as que estão nos cabides, nas prateleiras e nas gavetas. o que eu não aprecio não está mais lá.
7. alegria
não sei o que vem primeiro. alívio e depois alegria ou alegria e depois alívio. com índices reduzidos de ansiedade, podemos sentir uma leveza. e isso traz alegria. como se estivéssemos mais concentrados, menos distraídos e, por isso, com mais energia e mais interesse ao que importa. viajei?
8. inteligência financeira
eu não fumo porque não consigo ter uma relação equânime com os marlboros. eles sempre acabam mandando em mim. e tenho a impressão de que o mesmo acontecia com o meu dinheiro. vinha uma vontade de comprar algo e eu comprava. 'ah, eu mereço, afinal trabalho tanto.' ou 'puxa, que mal tem comprar umas roupas... é importante andar bem vestida'. frases que não têm o menor sentido.agora, quem manda aqui sou eu, e não o meu dinheiro. isso não quer dizer não gastar, porque pra viver é preciso gastar e eu ainda moro na cidade cinza, e não no meio da floresta cortando a minha lenha e colhendo minhas cenouras. isso quer dizer gastar o que eu quiser quando eu quiser. 
9. o suficiente
o que é isso? é saber que você tem o que precisa. não tem nada a ver com ser mão de vaca. tem a ver com sentir-se satisfeito com o que tem. parece tão óbvio, mas tenho a impressão de que no mundo hoje não somos ensinados a dar valor para quando temos o suficiente. ao contrário. somos ensinados que sempre precisamos de algo que não temos. 
10. mais coragem
a cereja do bolo. sim, eu consigo mandar na minha vida, no meu dinheiro. e domar minhas vontades. isso sim merece um uau! como quando viajamos a trabalho e levamos algumas roupas. no último dia só sobra uma roupa limpa, e é a que você vai usar. não tem dúvida, não tem outra opção. é uma via de mão única. simples assim, fácil assim.

é assustador: depois de 1 ano, não há menos roupas. elas não gastam

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