rica, mesmo sem um tostão

"não importa o quanto eu tenho, eu sempre me sinto rica."
a frase eu peguei emprestada. de uma mulher sábia. e belíssima.
a vida é bem simples: ela nos mostra o que precisamos ver/enfrentar/ultrapassar para aprender. e isso fica bem evidente quando você escuta uma frase e pensa uau, vou pegar emprestadas essas palavras sábias e vou colá-las no meu coração (sim, porque nos lembramos não do que está na mente, mas do que está no coração. uma pena as escolas estarem tão distantes disso).
eu tenho passado por uma fase financeira instável. já faz uns anos. e, claro, vou melhorando aqui e ali. mas ainda é uma fase instável. depois de desistir de brigar por pensão de alimentos de filhos + de a transportadora que o meu pai tinha ir à falência + de ficar desempregada, a vida mostrou pra mim uma realidade que eu desconhecia. em português claro, "te vira, meu bem".
eu sei que eu sou uma pessoa com muitos privilégios neste mundo desigual e por isso só escutei o "te vira, meu bem" com mais de 40 anos. mais de 45, pra falar a verdade.
tem gente que escuta isso quando nasce. outros, aos 10 anos. outros quando ficam maiores de idade. e claro que tem os que nunca vão ouvir isso porque sempre terão alguém ao lado - ou acima ou abaixo - pagando as contas.
mas a história de cada um é digna de ser contada. e esta é a minha.
viver é assustador. criar dois filhos sozinha é assustador. ir atrás do que se quer é assustador. não ter dinheiro é tudo isso somado e multiplicado por 1 milhão, pra começo de conversa.
mas eis que ficar sem dinheiro é uma lição. oh yeah. uma lição rica, farta, robusta, pra falar bem bonito. o mundo é visto sob outra ótica. sim, eu entendo que falo de um lugar privilegiado, uma branquela que nasceu em uma família que tinha muito dinheiro. meus filhos nunca pararam de estudar, e em nossos pratos sempre teve comida. mas essa mesma família onde cresci não tinha o que faz uma pessoa se sentir rica. porque a riqueza não vem do dinheiro.
eu vou me livrando das coisas. dos luxos. do discurso de quem quer mostrar é que bacana. e vou me livrando também do medo de não ter dinheiro.
eu não costumo lembrar de datas, mas faz dois anos que vendi meu carro. e uns três anos que a santa nalva, a pequena baiana de olhos verdes e fala mansa, deixou de me ajudar na criação dos meus filhos e na organização da minha casa. em dezembro vai fazer um ano que eu parei de comprar roupas.
faz dois anos que meus filhos foram pra escola pública - um deles voltou pra escola privada nove meses depois, mas entendeu que estudar e aprender é um privilégio neste país em que ricos brancos pagam fortunas para seus filhos estudarem em escolas de ricos brancos, enquanto pobres pretos corajosos ou resignados colocam seus filhos nas escolas públicas podres caídas barulhentas e confusas onde professores maravilhosos e animados estão exaustos e nocauteados.
faz algum tempo que eu percebi que não ter uma renda mensal fixa pode ser uma alegria. e faz algum tempo que eu passei a comprar somente produtos em promoção no supermercado - o que eu tenho tentado superar, porque às vezes deixo de comprar algo que custa 1 real a mais do que eu pensava porque acho "caríssimo" o 1 real a mais, até me dar conta de que essa percepção é neurótica.
faz dois anos que meus filhos tiveram acesso aos gastos mensais da nossa pequena família, e que eu comecei a falar para eles quanto eu ganhava em cada novo trabalho que eu pegava - e eles passaram a entender que há trabalhos muito bem pagos, trabalhos mal pagos e trabalhos em que eu praticamente pago para trabalhar.
faz não sei quanto tempo que eu parei de me culpar por não ter o dinheiro necessário para tudo o que os meus filhos querem. e isso inclui hambúguer, uber, camiseta, curso, livro, cinema, praia e nutella. parei também de reclamar que eu trabalho muito. quem não trabalha muito???
parei de reclamar que não tenho ajuda do meu pai, e não falo mais da pensão de alimentos dos meus filhos nem comigo, nem com eles, nem com o meu advogado. peço quantos recibos forem necessários para o médico e agradeço por poder pagar um plano de saúde em um país que considera que rico pode ter saúde, mas pobre não precisa disso.
os remédios naturebas sustentáveis e de comércio justo que usamos em casa terminam, e eu não surto. quando eu tiver dinheiro eu compro um, depois outro, e se faltar, vamos fazer uma compressa de cebola, um chá de gengibre e uma massagem.
e isso tudo pra dizer que eu me sinto uma pessoa muito rica. podre de rica. são outros cálculos, outros parâmetros, outras ideias.
que dor de barriga me dá quando falo pros meus amigos brancos com salários altos e muros idem que toda criança de escola privada no brasil deveria ir pra escola pública pra aprender. eles fazem cara de nojo e dizem que seus filhos jamais irão pra escola pública. que pena. mal sabem eles que seus filhos poderiam aprender tantas lições valiosas neste país de apartheid social.
não vou fazer apologia da falta de dinheiro, que isso é de muito mau gosto. alguns têm muito, outros têm pouco, e a maioria não tem quase nada. mas há lições muito preciosas. e não, isso não é um trecho de livro de autoajuda tipo o que encontrei dia desses numa livraria caída de shopping em que o cara diz que "temos de ser foda". mas se a gente não se tocar que tem que olhar pra dentro, seremos um grande saco de ansiedade, tomando emprestadas as palavras do meu professor Jangchub Reid.
eu não quero viver uma vida tentando relaxar. eu não quero pensar que conheço técnicas de mindfulness que trazem uma sensação de tranquilidade. eu quero ter uma vida de tranquilidade. de alegria. de calor.



a metáfora é o pé de jaca que eu encontrei no meu caminho uns dias atrás. é uma rua pequena, por onde ando pelo menos três vezes na semana. mas dia desses eu andei por ali acompanhada. e minha filha perguntou "mãe, isso é jaca?" olhei pra cima e me deparei com uma árvore nem tão grande tomada de jacas. tirei algumas fotos, e quando passamos por ali uma hora depois, tirei outras fotos. a árvore tinha muitas folhas, e por alguns buracos vazios entre as folhas entrava uma luz muito forte, a luz do sol da manhã, e era difícil fazer uma foto que mostrasse as dezenas de jacas.
depois fiquei pensando nessa árvore, nas suas jacas, "mãe, você já comeu jaca?", não, nunca comi, e em como um pé de jaca poderia ser a representação das nossas vidas. por que não olhamos todos os dias pra cima, pra ver jacas, amoras, pitangas, ipês amarelos, jacarandás lilases, damas-da-noite branquinhas, passarinhos de todos os tamanhos e cores cantando? por que não olhamos ao redor para enxergar tudo o que nos cerca?
puta merda.
é isso.





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