de repente, a cama

lá vou eu escrevendo, na minha velocidade estonteante. bem, aqui é o único lugar em que consigo seguir lenta. e por isso, uau!, adoeci. não "por isso", mas "para isso".
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foi bem singelo, e bem rápido. dia útil entre um domingo e um feriado, e eu trabalhando feito uma mula jovem. de repente, começo a bater queixo. me encho de roupa de lã, coloco meus pequenos filhos na cama e vou dormir às 18h, morrendo de frio. duas bolsas de água quente, trocentos cobertores, e frio. e assim passei três longos e doces dias: na cama, ora suando, ora tremendo de frio. meus filhos pacientemente iam me visitar na cama, porque doía sair dela.
aí eu fiquei pensando em como não devo fazer planos, não devo fazer tantas listas, não devo desejar tantas coisas. trabalhei pouco - trabalho com pessoas gentis e delicadas que não me incomodaram e ainda fizeram o que eu não conseguia fazer.
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ela falava do tempo. e deu uma bela definição, que nem dela era, mas de um professor cuja palestra ela havia assistido. qual a diferença entre "perder tempo" e "aproveitar o tempo"? aha! e então ela nos explicou: a gente PERDE tempo quando não está presente no que está fazendo. quando estamos viajando na maionese, pensando no que poderia estar fazendo no ano que vem, sem olhar para o que está de fato acontecendo agora. e a gente GANHA tempo quando está inteiro, olhando e enxergando o que está acontecendo.
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foram dias tristes. meu mestre sempre me diz que a tristeza é o sentimento que conecta, que nos liga direto ao coração. eu não fiquei sofreeeendo, mas fiquei sentindo a tristeza. é engraçado como a vida para quando a gente tá de cama. as horas têm outra duração, as urgências desaparecem, o relógio nem faz sentido. eu dormi de dia e de noite. sonhava e sonhava, e acordava muito, muito suada. de tanto sonhar, e de tanto cobertor por cima de mim.
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parece exagero, mas senti tudo muito diferente quando saí da cama. o tudo, claro, sou eu. fiquei sentindo e pensando em como é bom não dar importância. talvez importância não seja a palavra. o que quero dizer é que quando saí da cama senti uma leveza. acho que deixei num sonho ou num ataque de suor um peso bobo que eu andava carregando há alguns anos. o peso do "eu tenho que". quando a gente fica de cama, a gente não "tem que" nada. não tem que comer, não quem te beber, não tem que ver e-mails, não tem que ir ao supermercado.
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aí sobraram três peras e diversos limões. e o joão disse que queria comer abacaxi. sugeri pera, mas ele não gosta mais de pera - crianças odeiam a monotonia, por isso todo dia deixam de gostar de algo. nesse dia a pera foi a eleita. eu tinha 10 reais. sugeri que ele fosse ao supermercado comprar um abacaxi. mas ele achou pouco. então a lívia e o joão começaram a procurar a carteira da lívia, e pouco depois eles aparecem com duas notas de 20 reais. ótimo. tínhamos 50 reais. o joão fez uma lista, e partiu com uma mochila vazia nas costas. eu queria ser uma mosca pra ter visto o figurinha empurrando o carrinho no supermercado e escolhendo maçãs, abacaxi, bananas, pêssegos e ameixas. além de duas embalagens com filés. ele chegou em casa com cara de vitorioso, desacarregou as compras, e se pôs a devorar as frutas. depois eu o ensinei a fritar o bife. "como é fácil!", disse, e eu pensei "não está sendo em vão, ele será um bom homem".
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eu fiquei boa. e lenta. me sinto tonta, e a cabeça anda doída. mas estou me movendo devagar. afinal, foi pra isso que bati queixo, morri de frio e depois morri de calor. continuo destemperada, com mais roupa do que o necessário, e com mais calor do que o normal quando vou dormir e acordar. nessas horas é bom ficar quietinha, porque sempre tem um anjo assoprando algo. e se a gente não está quieto, não dá pra escutar. vou torcer pra que ele assopre frases gentis.

Comentários

  1. Que bonito! Tô com saudades tuas e só correndo. Também fiquei doente. Aliás, acho que meu corpo vem me dizendo que é pra parar de correr. Espero que estejas melhor.
    Bj,
    Dani

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