o trabalho, o serrote, a força

eu pensei que ter uma furadeira seria a representação máxima da testosterona entre os meus pertences. mas eu estava enganada. ontem investi em um serrote e em algo que eu chamaria de "serrinha", mas que deve ter outro nome. nas fotos é possível ver meu filho manuseando o troço.
bem, vamos aos fatos. uma das 14.753 atividades escolares do meu filho este ano é fazer uma casinha. qualquer casinha, com qualquer material, de qualquer tamanho, desde que sobre uma base de madeira. o tamanho da base de madeira é 70cm por 50cm, aproximadamente.
'filho, vamos pensar no projeto da casa. como você quer fazê-la?'. a pergunta deve ter sido feita uma dúzia de vezes, até ele me responder: 'quero fazer um castelo com cinco andares'.
eu tenho de ter bons motivos para desmaiar. não foi dessa vez. então a minha pergunta mudou, e eu sugeri um castelo de TÉRRREO. 'dois andares', ele disse. meu desespero consistia em tentar fazer meu filho entender que na vida fazemos o possível. e o possível nem sempre é o que QUEREMOS fazer, mas o que PODEMOS fazer.
peguei um caderno, olhei pro joão e disse: 'este é o caderno do projeto da casa'. ah ah ah. eu pegava o caderno, abria, dizia 'vamos escrever as coisas que o castelo terá', e ele nem respondia. um dia, ele escreveu numa das páginas em branco. campo de futebol, salão de festas, quarto de hóspedes, quarto das crianças, quarto dos empregados, banheiro das crianças, banheiro dos hóspedes, banheiro dos empregados e mais umas dez peças. mais uma vez, eu não desmaiei.
um dia conseguimos fazer um desenho sobre a madeira que será a base do trabalho. o pai dele estava na escola, num final de semana, e quando voltamos pra são paulo disse pro pai dele subir ao nosso apartamento e ajudar na concepção da casa que seria um castelo.
peças definidas - um quarto, um banheiro, uma sala, uma cozinha e talvez um espaço para os cavalos -, fui atrás das madeiras para levantar a obra. ah, duas torres e uma ponte levadiça estariam na parte da frente.
anotei as medidas num papel e fui à marcenaria da escola conversar com o flaviano, o gentil marceneiro da escola. ele me contou, rindo, que já tinha passado por isso. TRÊS filhos já tinham feito o terceiro ano na escola. suspirei aliviada, passei minhas anotações pra ele, e no dia combinado, fui pegar tudo. ele tinha colocado os pregos, indicado os locais onde deveria usar cola, uma beleza. fiquei com vergonha, perguntei quanto devia, ele deu uma risada, e aí entendi que ele tinha trabalhado muiiiiiito para executar o que eu teria feito em casa se fosse um homem. no outro dia fui à marcenaria e entreguei a ele um envelope com o valor que eu achava que pagava a execução de uma tarefa que, sem ele, não teria sido executada.


7am. tínhamos de sair de casa às 8am, porque o voo era às 10am. martelamos as torres, depois as quatro paredes do castelo. meus vizinhos, muito gentis, não reclamaram.

os olhos do joão brilhavam, e ele dizia 'mãe, que legal'. eu não chorei. mas respirei com alívio e alegria.
...
há uma semana o joão olhou pra casa/castelo e disse: 'quero outro castelo. este está com cara de casa'. minha barriga começou a doer. e eu expliquei que podíamos pensar em REFORMAR o que tínhamos. ele chorou, gritou, e minha barriga doeu mais ainda.
rabisquei outras torres, outras paredes, e fui à marcenaria da escola pedir ao flaviano outro castelo. ele ria com um pouco de ironia. sim, eu devia estar com cara de louca. e ainda por cima umas lágrimas escorreram pelas minhas bochechas quando terminei de explicar a ele o que eu queria. 'é duro criar filhos sozinha' minha boca disse, sem eu tê-la autorizado.
combinamos a data da entrega, e ontem fui buscar a sacola com as torres e as paredes do novo castelo. mas quando abro minha linda sacola de feira colorida, vejo que há menos pedaços de madeira do que oito paredes de torres e quatro de castelo.
e então mais lágrimas correram pelas minha bochechas, e eu me encostei numa mureta da escola e fiquei pensando 'meu deus que dureza, e se essa casa não der certo?'. mas eu tinha um ensaio, para cantar músicas de natal no teatro de fim de ano do jardim de infância da minha filha.
...
é engraçado como a feiúra e o medo são minúsculos quando comparados à beleza e ao amor.
...
depois de cantar, fui pra casa pegar as crianças para levá-las a uma festa de aniversário. uma festa de aniversário de verdade, com crianças pulando felizes, colchonetes floridos sobre a grama, pessoas gentis e amorosas. mas ANTES fomos comprar um serrote, uma serrinha, um pincel, duas latas de tinta para madeira e lixas.
hoje de manhã serramos, lixamos, martelamos e pensamos. o joão queria destruir tudo e começar 'tudo de novo'. 'não quero medir nada, mãe, vamos fazendo', me disse ele, com uma coragem assustadora. expliquei que podíamos medir e marcar com um lápis, para serrarmos as partes certas.
cada vez que eu usava o serrote, eu suava e meu braço tremia um pouco. claro, eu sabia que não era uma questão de força, mas de jeito, e eu ia dizendo pro joão, 'filho, temos de aprender a fazer isso, pra não usar tanto a força'. não aprendemos, mas fizemos.
amanhã pedirei ao flaviano mais uns pedacinhos de madeira, cujas medidas já anotei. o joão parece estar felicíssimo. e parece entender agora que quando fazemos o melhor que podemos, estamos sendo bons. parece entender que o bom é o possível.


joão prega as peças que foram cortadas para a segunda versão do castelo, depois de eu ter explicado que precisaríamos 'pensar em como adaptar um projeto a outro'.




glória, glória aleluia. duas novas torres, bem diferentes das duas primeiras torres. um castelo com quatro torres está super protegido, creio.

la mamma segura um pedaço que serramos. o joão tinha aceitado 'adaptar' o primeiro projeto do castelo ao segundo. usar um serrote exige força e concentração. é quase desesperador.

no próximo sábado vamos colocar duas paredes dentro do castelo, e vamos cobri-lo com um telhado sensacional que conseguimos projetar depois de muitas, mas muitas tentativas. a pintura será feita depois da instalção das paredes, mas antes de pregarmos o telhado. ah, e vamos ainda pregar grades nas janelas - eu sugeri cortinas, mas como disse a sábia marta, 'o castelo é das crianças'. deus sempre coloca anjos nos nossos caminhos.

na minha casa moram dois anjos. mas todos os dias eu encontro muitos e muitos outros pelo meu caminho.

Comentários

  1. Ah, que lindo! Fiquei aflita com sua aflição, e vibrei com o sucesso das torres do castelo. Acho que o melhor de tudo é o que conseguimos passar pros filhos a cada dificuldade, é isso que vale o preço de cada preguinho pregado. Quero ver o castelo pronto, posso?
    Bitocas, Dan.

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  2. Tita, vc é uma super mãe! Pura sensibilidade, até na hora de montar um castelo! Adoro seu olhar sobre a vida e a maternidade. beijos

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  3. concordo com a Dani...só não suei...hahaha...mas acho que vocês merecem uma comemoração depois disso tudo...eu levo a sobremesa de 2 chocolates. Bjos, ana

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  4. meninas,
    haverá comemoração. e o castelo poderá ser visto no bazar da escola, num sábado, em que estarão expostas as 34 casinhas das crianças do 3º ano. passo as coordenadas.
    e claro que vamos comemorar! o joão até já escolheu o local.

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  5. Que leagal! Parabéns pela determinação do João e da super mãe. Queremos ver a foto do castelo pronto!
    Bj,
    Dani

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