"folgado, sim; mimado, não"

uma das coisas mui divertidas da maternidade é ver os filhos crescendo. não falo do tamanho, mas da atitude. é a sensação de não estar sendo em vão todo o esforço, a musculação da alma, que dispensamos no intuito de criar, como eu gosto de dizer, seres humanos de verdade. no caso a verdade aqui não é o oposto de mentira. o "de verdade" neste caso são as caracterísitcas que fazem uma pessoa ser especial: bondosa, atenta, solítica, boa ouvinte, conectada, gentil, doce.
estávamos havia muito tempo combinando uma ida à liberdade, o bairro japonês aqui de são paulo. o joão queria ir por motivos gastronômicos. e esses motivos têm um nome: bakery itiriki. eu queria comprar luminárias de papel para me livrar do belo e quebrado lustre de cristal da nossa sala.
tudo pronto, e a lívia diz que está com dor de barriga. o guri começa a ter um ataque. e uma luz sutil iluminou meu espírito, eu NÃO fiquei furiosa e levei o cara para o quarto dele. lembramos de quando ELE passou mal, ficou uns dias sem comer, deitado no sofá. e lembramos de como toda a família (mãe e irmã) o tinham respeitado. e então ele foi se acalmando.
era perto do almoço. e eu iria buscar algo para comermos. quando ele sugeriu que poderia ir ao supermercado. rapidamente pegou um pedaço de papel, uma caneta e esceveu:
1 frango
10 maçãs
algumas bananas
e mais outras coisas. saiu com o meu cartão de crédito no bolso, mais a lista, e o carrinho de compras e uma mochila. oferecei meu celular. mas ele disse que não precisava - bem feito!, porque EU o ensinei que se o deixo sair sozinho, é porque confio nele.
ele foi e voltou em pouquíssimo tempo. tirou as compras do carrinho, arrumou-as, me entregou o cartão e o comprovante. "deu R$ 90, mãe."
no final do dia perguntei se a moça do caixa não tinha perguntado de quem era o cartão. tinha, e ele tinha dito que era da mãe dele. e ela acreditou.
hoje de manhã, me aprontei para vir para uma reunião no escritório. feriado de quatro dias, as crianças não têm aula. pedi ao joão que fizesse a cama dele. e escuto a sinistra resposta: "mas hoje a nalva vem. e eu faço a minha cama todo sábado e domingo".
achei a resposta muito engraçada, e disse a ele que era um mimado. e a segunda resposta foi melhor ainda: "sou folgado. mimado, não."
...
no fim fomos passear na liberdade à tarde. eles se deliciaram na itiriki. comprei as duas bolas enormes de papel branco para a sala. a lívia ganhou um leque. e numa lojinha lotada consegui um tofu fresco maravilhoso. passeamos na feirinha que rola na praça, porque a lívia queria ver "colares". e cada um comprou, com seu dinheiro, um picolé japonês muito, muito bom. mas o grand finale foi um pacote de chiclete, que o joão comprou numa banca de revistas na entrada do metrô. "você deixou?", pergunta minha filha, que sabe que eu não compro chiclete para filhos sob hipótese nenhuma. mas ele tinha comprado com o dinheiro dele, sem eu ver, claro.
quando saímos da estação do metrô, a poucas quadras de casa, chovia. colocamos nossas capas de chuva, menos a lívia, que foi se molhando e se divertindo. depois, banho quente, jantar e campeonato de jogos. delícia.

Comentários

  1. Tita, tô aqui trancada no meu quarto preparando aula neste dia chuvoso e resolvi entrar aqui pra dar uma espiada, procurando novidades! Encontrei! Que legal o passeio, a independência do João e o melhor: como é bom quando a gente consegue reagir de outros jeitos e quebra com o círculo vicioso! Tenho observado muito isso por aqui, quando a gente consegue mudar o jeito de reagir a uma reação deles, as coisas mudam de rumo. Bjs e bo trabalho,
    Dani

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