segunda-feira, 2 de abril de 2012

sem título

quando a gente mora longe da família, é assim: você sabe que alguém está morrendo por um telefonema. assim foi com a minha nonna. depois com a minha oma. e com a minha tia ienete. e agora com a minha adorada tia olinda.
nunca a chamei de tia. mais velha de sete filhos, a olinda sempre foi muito, muito doce. eu era pequena, e uma vez por ano, acho, íamos para ijuí. ir para ijuí era uma longa, longuíssima jornada para nós, que éramos pequenos e não entendíamos nada sobre "ir", porque só queríamos "chegar".
meus pais deitavam o encosto - único - do banco de trás do carro, e armavam uma cama para nós três. colocavam edredons, e íamos dormindo. não lembro das malas. talvez fossem num bagageiro em cima do carro, ou ao nosso lado.
passados 10 minutos de estrada, começávamos: "paaaaaaai, falta muito?". o velho, que nunca foi a pessoa mais paciente do mundo, não gostava da pergunta. muitas vezes ele virava para trás aos gritos, e dizia que não devíamos mais perguntar. afe!
lá em ijuí, encontrávamos todos os irmãos do pai, menos o tio didi, que morava longe, e ainda mora. todos tinham filhos, menos a olinda.
ela trabalhava no supermercado do meu tio willy. e eu achava aquilo muito mágico: um tio ter um supermercado, e a olinda por ali, sempre pelos corredores, quando íamos fazer compras.
uma dia a olinda brigou com o zé, o marido dela. foi o maior bafafá. meu pai ajudou minha tia a comprar um carro - nem sei se a briga era por conta do carro ou o quê. no fim tudo ficou bem, e a olinda e o zé foram vivendo seus dias felizes. hoje lembrei disso, enquanto diriga. como os adultos são bobos ao contar tudo o que acontece uns para os outros. acaba vazando, transbordando, um monte de coisa besta.
a olinda foi miss, acho que miss ijuí, e isso sempre foi motivo de orgulho para todos. ela sempre foi uma mulher belíssima. quando foi envelhecendo, mantinha a força da beleza, o que é raro.
liguei para o meu pai há pouco, e pedi a ele que trouxesse para mim um colar e um anel da olinda. ele deu uma gargalhada, não sei por quê.
eu solucei hoje, bem baixinho. estava no escritório quando minha mãe me ligou e perguntou onde estava o meu filho. senti um nó na barriga, e disse que ele estava na escola. então ela contou que a olinda estava hospitalizada, e estava indo pra CTI. é muito elegante, porque a minha mãe sempre me avisa quando as pessoas estão partindo desta. aí dá tempo de rezar, meditar, chorar e me despedir em silêncio e a distância. "eu sei que tu gostas dela", ela me explicou. ela sempre explica algo, porque eu gosto de todas as pessoas da família dela, e de todas as pessoas da família do meu pai.
esses dias sonhei com a olinda, e como o sonho era maravilhoso, pensei em ligar para ela. mas com os compromissos infindáveis, acabei não ligando. mas eu tenho certeza, absoluta, que ela tá vendo meu rosto molhado. tenho certeza de que o céu está se preparando para recebê-la. e que ela está partindo desta para melhor em paz.
não consigo publicar este texto agora. ela está morrendo, e eu não posso. fá-lo-ei amanhã.
...
escrevi o texto acima dia 21. e hoje minha bela tia morreu. eu estava esquisita, com a sensação de não estar em nenhum lugar. pensei que fosse por causa de uma reunião. então minha mãe, que sempre me liga para me dar notícias, ligou.
a lua está mui bela no céu.

9 comentários:

  1. Sinto muito pela sua perda. Achei o seu texto lindíssimo e não pude não pensar e ter saudades de uma tia minha que faleceu há algum tempo e do meu pai né. Bjos pra vc,
    Luiza Goulart

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    1. ei luiza,
      há quanto tempo, menina!
      fiquei emocionada com as tuas palavras. obrigada.
      bjs

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  2. Querida, amada amiga! Fazia tempo que não te visitava...como é gostoso ler o teu blog...mesmo quando os textos não são realmente felizes! Sinto pela sua perda, tá ai uma coisa EXTREMAMENTE difícil para nós...sinto uma dificuldade imensa de pensar em perdas menores, nessas então...Gostei muito do texto sobre a tese da Dani...me fez sentir que estive por ali também, pois em pensamento eu estive.
    Um abraço bem apertado e cheio de carinho! e um beijão estralado. ana, com saudades

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    1. saudades de ti também. ontem falamos sobre você, alice e eu.

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  3. Delícia ler sobre sua infância no sul. Que tia Olinda descanse em paz e nos presenteie com sua presença nos textos da sobrinha querida. Tomara que seu pai atenda o seu pedido.
    bjs

    Fe

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    1. querida, que lindas tuas palavras. obrigada.

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  4. Este comentário foi removido pelo autor.

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  5. Tita, querida,

    da dor de estar longe eu sei um pouco, embora,é claro, pra cada um é de um jeito...adorei o texto porque, mais do que falar da dor da perda, fala de como as cçs vivenciam as coisas, todas elas, até as de "adulto". Te vi pequena, cabecinha loira que conheci tão bem! E lembrei também das viagens da minha família, em caminha igualzinha, pra três, na parte de trás da Variant! Nada de cintos de segurança!!! Que tia Olinda descanse em paz,
    Bjs,
    Dani

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    1. dani querida, estamos felizes aqui em porto alegre. estou trabalhando, e as crianças passam o dia brincando. que a nossa páscoa seja mui doce. beijos.

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