aperta e afrouxa

o telefone tocou. e uma voz masculina perguntou por alguém que não era eu. disse algo como "não sou eu". ao que escuto: queira desculpar, foi engano. meu deus!, que delicadeza. vou lembrar de dizer isso da próxima vez que discar (ahn?) errado.
...
saí da escola e vi que o trânsito estava parado. isso não é normal. ali o trânsito é sempre lento, nunca parado.
e então, pela primeira vez em quase quatro anos, participei do "fechamento da raposo tavares". devo dizer que foi uma experiência feliz. coloquei um pé pra fora do carro, escutei boa música com o motor do carro desligado. liguei o rádio para descobrir por que três helicópteros sobrevoavam na minha frente e um deles tinha pousado - claro que algum devia ser um urubu, dessas emissoras de TV nojentas que adoram mostrar os horrores da cidade. um motoqueiro tinha sido atropelado, me informa o ricardo boechat.
não olhei no relógio, mas parece que fiquei quase uma hora parada. é incrível como todos ficamos calmos quando tudo para. é como se tivesse faltado luz no escritório e ninguém pudesse trabalhar. então todos relaxam.
quando a estrada foi liberada, foi um tesão. eu tenho um probleminha, que é meu pé direito, um pé de chumbo que adora pisar bem fundo no acelerador. e então, às 8h ou 8h30, andei por uma estrada vazia, tão vazia que quase dava medo. cheguei ao trabalho feliz da vida, pensando em duas coisas.
uma: quando alguém se estraçalha num acidente costumamos ter compaixão e, consequentemente, calma no trânsito.
dois: muito melhor do que trânsito lento é trânsito parado e, depois, fluido.
será que os estudiosos dos caos das cidades nunca pensaram nisso?
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fui jantar na casa da ale. a receita era simples e fabulosa, um macarrão com molho agridoce (maçã verde, abóbora, acho que curry, cebola). ela, que é extremamente gentil, me perguntou se eu tinha algo contra a receita. não, eu não tinha. levei um vinho rosé seco e espumante. bebemos e conversamos e eu comi barbaridades. e fui apresentada à incrível voz da carla bruni. "ela não é só bonita, ela é incrível", foi a apresentação.
e eis que num surto quero-ter-coisas-belas-na-minha-vida comprei os três cds que estão à venda na bananaland. e os tenho escutado compulsivamente há dois dias.
amigos que alimentam o corpo e a alma são amigos fabulosos.
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os registros pifaram. primeiro, a torneira do banheiro, de onde saía muita água. um dia começou a sair pouquíssima.
depois foi a geringonça da descarga. não parou, e eu fui fechar e não consegui. e então fechei o registro, e bingo!, o resgistro fechou quase tudo, mas não tudo. e assim um fio de água ficou escorrendo na privada por três dias, até o sérgio vir consertar.
ele veio, e além de arrumar tudo que listei ainda tirou o motor da banheira que estava pifado para levar pro conserto.
mas eis que a doce nalva foi dar banho na minha filha e na manô, que passou a tarde brincando em casa, e o banheiro ficou alagado! a água que devia entrar na banheira vazava por um cano lateral. e então o porteiro socorreu a nalva e meteu um pano no cano, e assim as meninas tomaram um delicioso banho de banheira.
amanhã terei de ligar pro sérgio pra dizer que o tal do cano vaza. jesus!
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é um bairro ótimo, com muitos seguranças, me disse ele, com o inconfundível e belo sotaque português. eu admiro as pessoas que adotam como seus países onde não nasceram nem cresceram. e ele é uma dessas. mas quando me descreveu o alto da boa vista, achei estranho.
eu, diferentemente, sempre digo que o lugar tal é horrível PORQUE está cheio de seguranças. isso que na pracinha onde tenho andando e corrido todos os seguranças me conhecem e me cumprimentam com entusiasmo às 7am: como vai a senhora?, tudo bem?. gente muito simpática e elegante. mas que eu não gostaria de ter perto da minha casa.
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tem os dias em que não sentimos o chão. e tem os dias em que sentimos MUITO o chão. ele tinha me falado que aos 42 as coisas se estabilizam. é um turning point. e é legal. num dia piso em ovos, noutro ando como se estivesse marchando numa patética apresentação militar.
uma coragem com alma aparece. e vejo tudo mudando. dentro de mim, é óbvio. tenho mais certezas, mais clareza, mais ouvidos, mais coração.
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meu filho chegou da primeira viagem da escola. passaram dois dias no litoral, e visitaram dois fortes, uma aldeia de índios, participaram de uma oficina de nós e desenharam acidentes geográficos na areia.
"delícia", ele disse, se enrolando no edredom. "amei a viagem. adorei visitar a tribo indígena. sabe o que quer dizer itau? pedra preta."
ter um filho numa escola waldorf não tem preço. mas tem muita, muita alegria e gratidão.

Comentários

  1. Tita, querida. Sempre me delicio com teu blog e adorei ler sobre nosso jantar e saber que te apresentar a Carla Bruni acalentou a alma. Vamos repetir a dose! Prometo enviar a receita amanhã!

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  2. Vamos ver se decifro as letrinhas hj, não sou um robô! Só uma adimiradora que fica feliz com as palavrinhas que encontra aqui!
    Bj
    Dani

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