E o que importa você sabe, menina. É o quão isso te faz sorrir. E só.

eu sempre duvidei de algumas verdades que escutei ao longo da minha vida. mas como eu tinha dúvidas, e não certeza de que essas verdades não valiam para mim, eu me achava uma boba. tipo uma-pessoa-que-não-é-tão-madura-nem-determinada-nem-focada-como-as-pessoas-que-eu-conheço.
e assim fui levando a vida, me divertindo mais do que sofrendo, e nunca tendo a certeza de que este caminho era O MEU caminho - eu não estava enganada, eu não estava perdida, eu não estava num caminho errado.
acho que eu tinha uns 10 anos quando estava passando as longas férias de verão com a minha mãe e meus irmãos na fabulosa casa que tínhamos numa praia feia do rio grande do sul e comecei a escrever. eu pegava uma cadeira de praia e me sentava no ponto mais distante da casa dentro do terreno, que era todo gramado. acho que eu fazia isso no fim do dia, à tardinha, quando ainda tinha luz para escrever, mas o sol já tinha desaparecido. eu não lembro o que eu escrevia, nem onde esses escritos foram parar.



e foi mais ou menos nessa idade que eu comecei a achar esquisitas algumas coisas que eu via. por exemplo, a minha família assistia TV todas as noites. jornais e novelas e outras tranqueiras televisivas depois da última novela, que na minha infância era a "novela das 8". como eu dormia bem cedo, não era um problema grave, mas eu achava estranho que ninguém conversasse. uns anos mais tarde, quando a tristeza da adolescência me massacrava, eu chorava e perguntava pros meus pais por que eles viam tanta TV e não conversavam, nem com os filhos, nem entre eles, e eles, sem resposta, diziam "ssh, a novela voltou".
também achava sinistro quando a minha mãe me contava que fulano e fulana estavam casados por causa dos filhos. não conseguia compreender como duas pessoas podiam viver juntas por causa de terceiros.
minha mãe também costumava me mostrar "a cara de triste" das crianças cujos pais eram separados. eu perguntava pra ela o que ela queria dizer com isso, e ela me explicava calmamente a teoria bizarra dela, de que filhos sem os pais juntos na mesma casa eram crianças cuja tristeza era visível em seus olhos. eu imaginava uma casa horrível quando só tinha uma mãe e não um pai com uma mãe. um lugar vazio, escuro, úmido e frio, muito frio.
anos depois escutei da mãe de um colega do meu filho que o filho dela estava tendo uns comportamentos muito estranhos, e ela nem era separada. quando ela terminou a frase, olhou pra mim, lembrou que EU era separada e pediu desculpas. eu achava aquilo que ela dizia tão, mas tão besta, que não devo nem ter ficado irritada. isso faz uns sete, oito anos, e a minha memória não é das que guarda muitos detalhes do passado.
mas lembro muito bem que quando terminei a faculdade de jornalismo, que era um dos cursos mais bem avaliados num ranking que a playboy fazia, mas que eu achava insuportável, eu prometi pra mim mesma que não faria nenhum outro curso universitário. minha promessa está sendo cumprida, passados mais de 20 anos. mas só agora eu tenho orgulho de dizer isso. até pouco tempo atrás eu via meus amigos fazendo mestrados e doutorados e pós doutorados e outras especializações menores e pensava que eu tinha uma disfunção. como uma pessoa pode fazer UMA faculdade, que não gosta, e depois nunca mais fazer nenhum outro curso?
não é que eu não me interessasse por nada. eu sempre me interessei por muitas coisas. mas sempre achei um saaaaaaco ficar numa sala de aula, normalmente com uma pessoa com o ego inflado falando na frente dos alunos sentadinhos. acho incrível que algumas pessoas gostem. mas como trabalhei em trocentos lugares, fazendo sempre coisas diferentes, meu currículo acabou virando um bom currículo, mesmo sem uma lista de cursos de graduação e pós graduação. e eu, finalmente, escutei o que eu sempre soube, para parar de ter dúvidas e ter certeza: podemos aprender em vários lugares, e um deles é a sala de aula. o outro é a vida.
mas a cereja do bolo das minhas dúvidas é sobre planejamento de vida e de carreira. eu estava em uma entrevista de emprego esta semana, quando a entrevistadora, uma mulher mais jovem do que eu, com um sorriso largo e um jeito muito delicado, me pergunta quais eram os meus planos para a minha carreira.
oh no! eu não estava preparada para isso. aliás, eu não lembrava que isso era uma pergunta em processo seletivo. a minha última entrevista assim, no modelo "vamos massacrar o candidato para ver o que ele tem a me dizer", tinha sido em 2010, quando fui trabalhar num lugar incrível, onde podia dizer o que eu pensava tanto para os colegas quanto para os donos da agência. e, muitas vezes, para os clientes também!
voltando à entrevista, eu tive de dizer a verdade para a minha querida entrevistadora. eu acho que eu sempre disse a verdade, mas desta vez eu tinha CERTEZA de que estava falando a verdade, e não me senti uma desajustada que não cresceu e continua infantilizada sem um projeto de carreira. disse que eu não tinha um plano para a minha carreira, e que nunca tinha tido nenhum plano para a minha carreira. disse que tinha trabalhado em muitos lugares, e que eu sempre escolhia os trabalhos considerando o que eu achava razoável. que eu gostava de trabalhar com textos, com redação e edição, e que eu também sabia fazer outras coisas, comunicação institucional, relatórios de desempenho bem lindos. e devo ter dito algo pra ela como "eu vivo um dia depois do outro". ou será que eu só PENSEI em dizer, mas não chegou a sair da minha boca?
quando a minha mãe morreu, uma amiga que estava muito próxima de mim me deu um texto do caio fernando abreu.
eu achei lindo. colei ao lado da minha cama, e lia todos os dias. mas isso não fazia sentido pra mim naquele momento. logo depois a minha amiga se apaixonou, se separou do marido e começou a namorar. hoje eu acho que o texto que ela me deu na época era pra ela mesma. mas agora o texto faz sentido pra mim. a liberdade é o maior frio na barriga que eu já senti.


Vai menina, fecha os olhos. Solta os cabelos. Joga a vida. Como quem não tem o que perder. Como quem não aposta. Como quem brinca somente. Vai, esquece do mundo. Molha os pés na poça. Mergulha no que te dá vontade. Que a vida não espera por você. Abraça o que te faz sorrir. Sonha que é de graça. Não espere. Promessas vão e vem. Planos, se desfazem. Regras, você as dita. Palavras, o vento leva. Distância, só existe pra quem quer. Sonhos se realizam, ou não. Os olhos se fecham um dia, pra sempre. E o que importa você sabe, menina. É o quão isso te faz sorrir. E só.





Comentários

  1. Foda a parte " eu chorava e perguntava pros meus pais por que eles viam tanta TV e não conversavam, nem com os filhos, nem entre eles, e eles, sem resposta, diziam "ssh, a novela voltou".

    Achei muito legal a tua sinceridade na entrevista de dizer que não tem plano de carreira, mas que faz o que gosta.

    Eu sempre planejei varias coisas. Acho legal planejar. Mas viver o momento atual, o diz de hoje, o instante do agora, isso é realmente fundamental.

    Beijos no coração,

    Neco,

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    Respostas
    1. ei neco,
      eu acho que eu tentei planejar algumas coisas, mas nunca davam certo...
      :P

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