sobre inspirações, a mãe boa, a alegria e o SPA emagrecedor

como voltar para a nossa vida de todos os dias depois de um retiro? o meu professor diz que devemos acordar na hora de sempre, tomar banho, aprontar-se, tomar café, colocar a bolsa pendurada no ombro e sair para o trabalho.
sim. ele é simples e direto assim.
mas desta vez, no meu quarto retiro, eu não perguntei ao Tarchin o que eu deveria fazer quando voltasse para casa. aliás, desta vez eu passei o retiro todo sem fazer nenhuma pergunta. o que é quase um feito que merece uma medalha, em se tratando de mim, uma pessoa tão tagarela.



um retiro é sempre um presente. sai o cenário de todos os dias e entra um cenário de todos os dias longe de casa. você leva você mesmo, de preferência. e tudo o que faz parte do pacote: suas alegrias, seus medos, seus horrores e suas expectativas. 
eu não sabia o que era um non-residential retreat, mais urbano, como me foi explicado. sabia que iria dormir fora do local das aulas. e só. como sempre, convidei alguns amigos, mas todos tinham afazeres que não podiam ser deixados de lado na semana em que eu estaria na zona rural de Botucatu, a umas três horas de carro de São Paulo, aprendendo sobre o despertar natural e a ciência contemplativa.



claro que eu não tinha ideia do que esses termos significavam. sim, eu sou uma retirante desavisada. toda vez que arrumo minha mala para ficar uns dias em retiro, sei pouco do que vai acontecer. não é nem bom nem ruim, é só o jeito que eu lido com "ir a retiros". quando contei para Jangchub, meu professor, ele disse com vigor e alegria: "that's right, Patricia". era pra eu arrumar a minha bagagem e ir. como toda pessoa que foi criada num ambiente "faça a coisa certa", eu adoro quando o meu professor diz "that's right" pra mim. a menina que também sou eu ri de contentamento e alívio. 
bem, passados os seis dias de ensinamento, soube que o despertar natural é exatamente o que parece ser, um despertar natural (despertar para quê? para a vida, para o que acontece na frente do meu nariz, para como me sinto no momento, para a cor do céu e para a claridade do sol e a escuridão da noite). e que a ciência contemplativa também é exatamente o que parece ser (bingo!), uma ciência contemplativa, em que o sujeito contempla a natureza/a vida e a partir disso faz descobertas científicas. incrível não? como tudo é tão simples que até parece explicação para uma criança pequena.

A bagagem dos quatro retirantes que voltaram juntos no mesmo carro


voltei faz dois dias. busquei a minha filha na casa de uma família que é minha família aqui em São Paulo e viemos pra casa. a Lívia pisou em casa e suspirou um que-bom-estar-em-casa. eu tinha ganhado um pão feito em casa, brócolis e couve-flor da horta da Tina, minha anfitriã na zona rural de Botucatu. com isso, Lívia e eu teríamos o que comer num jantar e no café da manhã. 
a parte mais linda de voltar de um retiro para sua mesma casa, seus mesmos filhos, suas mesmas contas a pagar, o mesmo porteiro que gentilmente molhou sua horta e tudo o mais que é seu, é que você enxerga tudo sob outro ponto de vista. eu passei pela avenida Rebouças, gigante, cheia de ônibus e carros, e achei que estivesse passando por um lugar desconhecido. fui até o aeroporto buscar meu filho, e tudo me pareceu agradável, procurar vaga num estacionamento gigantesco, ficar de pé esperando a horda de passageiros saindo da porta automática do desembarque, o pagamento do estacionamento que vale quase uma pizza. voltando pra casa num caminho muito conhecido, de novo olhei para uma rua - esta arborizada, só de casas, uma lindeza - e tive a impressão de estar passando por ali pela primeira vez. delícia ter a sensação de que estou andando por lugares desconhecidos mesmo estando na cidade cinza.
durante o retiro, tínhamos aula de manhã. as tardes eram livres. "Você vai poder falar?", me perguntou Mirco logo que cheguei à casa dele. Mais novo dos quatro filhos da Tina, o Mirco e eu ficamos amigos um mês atrás, quando me hospedei na casa dele para fazer um curso de uma semana também na zona rural de Botucatu.

Tarchin, sua aluna e o pequeno Mirco, atacando de fotógrafo


eu não sabia se eu poderia falar. Mirco e eu falamos muito. não sei quem ganha. mas pensei que se eu tivesse de ficar em silêncio, não poderia olhar para o meu amigo, porque não conseguiria não falar. na segunda-feira, na hora do almoço, terminada a primeira aula, cheguei à casa da Tina com a ótima notícia: eu poderia falar, pois o retiro não seria um retiro de silêncio.
um retiro em que se volta pra casa depois da aula, em que se pode falar e em que não há exigência de algumas práticas de meditação formais (por exemplo, meditar sentado por uma hora) é muito desafiador. e é chamado de "non-residential retreat" e também "mais urbano". prestar atenção ao momento presente FALANDO com o Mirco e cozinhando e saindo para passear para conhecer montanhas e vales e pedras e rios é muito divertido, mas exige conexão e concentração.

Dudu, à frente, e seu irmão Mirco dando uma volta de barco


eu não consigo imaginar nada mais delicioso e confortável do que isso: um retiro não residencial com hospedagem num SPA emagrecedor e amoroso. 
"você emagreceu horrores." foi a primeira frase do meu filho ao me abraçar no portão de desembarque do aeroporto, onde eu tinha ido buscá-lo depois de uma semana de férias na casa do vô. sim, eu emagreci horrores em uma semana, comendo "muito", segundo o meu amigo Mirco. café da manhã, almoço e jantar com muita comida boa.

Minha anfitriã com o seu caçula


a Tina é uma cozinheira de mão cheia. faz um pão maravilhoso, patês de azeitona e tomate seco, sucos de frutas frescas, saladas de folhas tão tenras que não dá pra comer só um prato. comida fresca, orgânica, magra e quase sem sal. eu, que parei de comer glúten porque pelamordedeus-você-tem-de-emagrecer-assim-não-dá-mais, passei a semana comendo o pão da casa. com manteiga, geleias feitas em casa (uma delas era de goiaba com maçã. tâmara, cravo, canela, cardamomo e nada de açúcar), patês com azeite. andávamos muito, pelos campos com vacas pastando. e imagino que comer comida boa e andar sobre o pasto úmido de manhã cedo, desviando da bosta da vaca, deva ter tido um efeito emagrecedor.
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PS - a mãe boa, no caso, é a Tina. :)
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"freedom is not given to us by anyone; we have to cultivate it ourselves." thich nhat hanh


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