Coisas deleitáveis

(o texto abaixo foi escrito depois que eu li uma crônica homônima do Paulo Mendes Campos no livro "As cem melhores crônicas brasileiras". depois de escrever as "coisas abomináveis", agora é a vez da lista das "coisas deleitáveis". é título foi copiado. uma homenagem, ainda que singela, a um texto sensacional)

Estrada vazia; pinhão cozido vendido na estrada que liga o Paraná aos pampas; andar na mata com um bom guia; canivete suíço; festa com boa música; gente inteligente; gente divertida; criança brincando; sapo coaxando à noite; banho de mar quando o sol já se pôs; ver o sol nascer no mar; terminar uma longa caminhada; restaurante de beira de estrada limpo; armário com pouca roupa; sorvete com pouco açúcar; a cama da gente; o sol entrando pela janela; a lua iluminando a mata; ver um baiano abrir um coco pra você; tomar chimarrão na praia; doce de leite argentino; viajar de carro pelo Uruguai; farol em qualquer praia deserta; frango com chocolate e pimenta; deitar no chão de madeira; conversar com uma criança; cereja fresca; natal na Alemanha; comer bergamota colhida do pé; ter vinho em casa; manteiga com sal; sagu de vinho tinto; noite sem luz; dançar agarradinho; flauta, violão e violoncelo; o barulho do vento no Rio Grande do Sul; as montanhas de Santa Catarina vistas estrada; cheiro de flor na calçada; andar de pés descalços sobre pedras; olhar pro céu; viajar de trem; descobrir onde é o vagão da cafeteria no trem; viajar e voltar com dinheiro; viajar de carro; andar de caiaque; boiar no mar; boiar na lagoa; nadar em piscina com mais de 25 metros; aprender a costurar; aprender a tricotar; comer bolo quente; café recém-passado; bolo de tapioca ou de mandioca com calda de vinho tinto; ter um bom médico; ter um bom acupunturista; comer com colher brigadeiro com consistência de caramelo; peixe frito; comer camarão com as mãos; comer salsinha com mostarda em qualquer lugar na Alemanha; ficar debaixo da queda d’água da cachoeira tomando água nas costas; ler na cama; luz indireta; amigos para almoçar em casa; cheiro de bebê; cinema de rua; loja de rua; fazer sauna no inverno; joia que não parece joia; vento na cara; cortina voando pra fora da janela; sino de igreja; rua de paralelepípedo; hortênsias no verão em Gramado; azaleias no inverno em Gramado; o hotel Veraneio Hampel em São Francisco de Paula; olhar o mar; cruzar o rio da Madre na praia da Guarda dentro de uma canoa; se perder em Veneza; português de Portugal; dormir na rede depois do almoço; amigo de infância; ambrosia marrom que a minha mãe fazia; passarinho cantando antes do sol nascer; piso de madeira; subir em uma plataforma; pessoas muito enrugadas sorrindo; pastel de feira; frutos de mar em qualquer praia no sul de Florianópolis; pão de queijo em Minas; pão com linguiça na estrada que liga SP a BH; vinho branco bem gelado; fazer xixi no mato; fazer xixi na beira da estrada; dançar descalça e sozinha na sala, tomando vinho; escalda-pés antes de dormir; a existência da Fundação Procon, que funciona para qualquer cidadão e resolve qualquer perrengue – e, quando não resolve, explica como resolver; os tribunais de pequenas causas (JEC – Juizados Especiais Cíveis), que lidam com pequenas ações de cidadãos sem cobrar um centavo e de onde se pode sair com indenizações que as empresas inidôneas são obrigadas a pagar (sim, a lei existe e é cumprida em alguns casos no Brasil); amigos que usam frases/ditos populares verdadeiros e, sobretudo, engraçadíssimos (Bárbara); trepadeira em flor; tomar banho gelado no chuveiro externo da casa na praia depois de voltar do banho de mar; dormir cedo; tomar banho de chuva; tomar banho na chuva; escrever a minha lista de coisas deleitáveis. 

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