parando. de reclamar. e de correr.

eu só lembro do primeiro nome dela. Pilar. é um nome inesquecível.
era uma palestra sobre educação, possivelmente focada nos primeiros sete anos da criança. Pilar falava maravilhas. uma delas sobre a importância de as crianças terem lugares pra se mexer dentro de casa - um colchão velho em frente à TV, pra que elas possam ficar pulando enquanto assistem algo na tela, ou uma rede pra elas poderem se balançar.
ela é uma mulher de poucas palavras, e de palavras diretas. ela me disse duas coisas que eu nunca mais esqueci. 1 - eu levantei a mão e disse que no meu pequeno apartamento não cabia uma rede, ao que ela respondeu "você pode derrubar uma parede". 2 - eu levantei a mão novamente e disse que meu filho passava o dia todo reclamando. o que eu poderia fazer? ela, maravilhosa, perguntou: "você reclama muito?" ah ah ah, nada como estar na frente de uma pessoa inteligente, forte e direta para aprender lições valiosíssimas.
o exercício de NÃO reclamar é diário. talvez a humanidade possa ser dividida em dois tipos: o tipo que consegue ficar quieto e NÃO resmungar e o tipo que não consegue fechar a boca e sempre tem algo sobre o que reclamar. esta sou eu!
quando eu tinha 20 e poucos anos, um dos donos da produtora onde eu trabalhava olhou pra mim e disse, no estilo curto e grosso da Pilar: "seus ombros andam curvados pra frente, como se você estivesse carregando muito peso". passadas mais de duas décadas não posso transcrever as palavras dele, mas o significado era esse. e eu fiquei chocada.
agora, perto dos 50, eu me impus parar de suspirar, parar de reclamar com a boca e parar de reclamar com a mente também. ah ah ah. é preciso fazer um cerco, porque minha amiga sabotagem sempre dá um jeito de chegar às festas onde ela jamais é convidada.
tenho evoluído. os suspiros estão quase escassos, algo por volta de 16 por dia, ah ah ah. as reclamações que saem pela boca também. e essa é a parte mais fácil, simplesmente usar palavras doces pra dizer a mesma coisa que eu diria no modus operandi a-mãe-louca-que-cospe-fogo-feito-um-dragão. mas o mais divertido é mandar a mente calar-se. o pensamento impaciente e bruto vem chegando e eu respiro e o percebo. rapidamente o pensamento enviado pela sabotagem se vai. alívio. paz. eu sou mais forte do que a sabotagem.
afe, isso tá parecendo discurso naquelas cerimônias religiosas às quais minha mãe me arrastava, com meus irmãos, todo domingo, às 19h.
a ideia de fechar a boquinha é um esforço diário. talvez com muito treino isso vire algo automático. mas estou longe disso. manter a prática da não reclamação ao mesmo tempo em que tento manter um mínimo de civilidade em uma casa onde moram, além de mim, dois filhos adolescentes, é um esforço, hum, como vou dizer?, do tamanho da maior onda já formada pelos mares (é claro que eu ignoro esta informação, mas só de pensar numa onda gigante já sinto um pouco de medo e é isso que eu quero dizer, uma coisa enorme e bruta).
as técnicas para manter a civilidade doméstica vão mudando, desde uma parede/lousa lotada de afazeres até bilhetinhos grudados nos espelhos, passando por bilhetes deixados sobre a mesa da cozinha, recados escritos no vidro da janela da cozinha e, claro, mensagens via whatsapp. atualmente tentamos ser finos, de forma que os afazeres são mais ou menos conhecidos por todos e bilhetes e lousa lotada de bullets são quase dispensáveis.
mesmo assim, precisamos sempre nos lembrar o que estamos fazendo, do propósito. assim é com tudo na vida, não só com a louça na pia que jaz por 24 horas imunda enquanto eu procuro olhar a cena com paciência e sem um pingo de raiva. isso é uma meta. ah ah ah mais uma vez.
era fim do dia quando meu filho me pediu dinheiro para ir às compras. queria fazer panquecas com nutella. como eu demorei pra responder, ele prontamente se ofereceu para também comprar tudo o que estivesse na lista do supermercado. dei o cartão, ele foi e voltou e começou a operação panquecas. tentando não ser a mãe mais chata do mundo, disse que era condição para usar a cozinha deixá-la limpa depois das panquecas.
fui dormir, desconfiando de que a cozinha estaria num estado deplorável. mas poupando meus esforços, não fui checar, não reclamei e parei de pensar nisso.
outro dia. cozinha. 5h. caos. eu estava indo pra sala meditar e pensei "e se você não tiver raiva e não reclamar de nada?" talvez a massa da panqueca abandonada numa bacia com uma colher de pau e uma concha enfiadas no meio da meleca nem esteja estragada.
sala. meditação. e uma ideia: por que não usar a massa deixada na bacia sobre a pia para fazer panquecas de nutella pra minha filha levar pro café da manhã da escola? na noite anterior eu havia abandonado meu plano inicial, que era fazer um bolo de chocolate com calda. achei que a minha filha poderia fazê-lo. mas ela não queria. iria pra escola sem levar nada, então.
a ideia de fazer as panquecas resolvia duas coisas. ou melhor, três: eu aproveitaria a massa, minha filha levaria algo para compartilhar no café da manhã vamos-comemorar-que-as-férias-estão-chegando e, melhor de tudo, eu teria conseguido transformar um projeto de ataque de raiva às 5h da manhã em panquecas deliciosas e cheirosas às 5h30.

Lama Jangchub Reid , também conhecido como 'o meu professor'


é isso o que quer dizer VOCÊ PODE FAZER ESCOLHAS. não somos ensinados que escolhas são muito mais do que "que roupa vou usar hoje?" ou "onde eu vou trabalhar?" ou "devo tomar mais um chopp ou esses quatro são suficientes?" beleza. não fomos ensinados e então temos de aprender assim, sozinhos, na marra. eu me sinto muito sortuda porque tenho um professor que me ensina esse tipo de coisa que ninguém nunca me ensinou. mas são coisas tão novas pra mim, que eu demoro um tempo para compreender. vai ver é isso que a vida quer da gente também. paciência para saber e aceitar que tudo tem seu tempo.
pare de correr. pare de correr. pare de correr. isso é um belo mantra.

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