abraçando a oportunidade de ir

cheguei na frente da porta da minha casa, parei, meti a mão na bolsa e peguei a chave. mas, antes de usá-la, coloquei a mão na maçaneta e abri a porta. eles não tinham trancado a casa. tinham dormido com a porta fechada, somente. a sala estava escura. o mundo estava escuro. passava um pouco das 5h. o ônibus, que eu entendi que chegaria umas 5h30, chegou às 4h40 a são paulo.
dei uns passos sala adentro, arrastando minha mala de rodinhas devagar, para não fazer barulho. senti o cheiro dos meus filhos. senti o alívio que sinto toda vez que entro em casa voltando de uma viagem. eu fiquei dois dias e meio fora. saí à noite no sábado, voltei antes do amanhecer da terça. mas tenho a impressão de que estive fora por vários dias. quando eu viajo eu mudo o jeito que eu olho o mundo, e talvez mude também o modo como percebo o passar das horas.
nesses dois dias que pareceram uma semana, eu fiz tudo o que eu não costumo fazer. viajei de ônibus, dormi poucas horas, dormi num futon, fui à praia, não consegui entrar no mar porque as ondas grandes me deixaram com muito medo, caminhei no sol olhando o mar, conheci um museu belíssimo, o Museu do Amanhã, escutei palestras e performances, não anotei nada durante as palestras, participei de um piquenique vegano em que eu não conhecia quase ninguém e onde a comida era perfumada e saborosa, falei em inglês por muitos e muitos minutos e escutei em inglês por quase um dia inteiro, andei de táxi pra lá e pra cá, vi o sol nascer, andei por ruas por onde nunca tinha andado, usei um saco de dormir para evitar o congelamento dentro do ônibus, fiz uma prática de mindfulness com amigos assim que acordamos, comi angu, conheci uma roda de samba de verdade, enfiei o pé numa poça no centro do Rio e não me importei, entrei numa sorveteria e não tomei sorvete, entrei numa farmácia e não comprei nenhum creminho, encontrei pessoalmente o meu professor.

sono, quem? 


Emmanuel entre suas hóspedes


alguns lugares são mais belos que outros


haveria o lançamento do livro Contos do Despertar - Viagens, ensinamentos e transcendência com Namgyal Rinpoche no rio. eu queria muito ir. mas a chave que liga meu modo careta-medrosa-ó-vida-ó-céus estava acionada. como eu iria até o rio somente para o lançamento de um livro? numa segunda-feira? e o trabalho? e os filhos? e onde eu me hospedaria? então minha cabeça no modo chavinha careta me disse ah-vá-tita-nem-pensar-a-vida-é-dura-e-você-não-vai-gastar-seu-rico-dinheirinho-para-ir-pro-rio-onde-já-se-viu?

David Berry autografa o livro que ele organizou

aprendendo no Museu do Amanhã


mas na vida existem momentos em que, quando a oportunidade aparece, você pode abraçá-la - para citar a frase do David Berry, o cara da foto acima, que foi um dos organizadores do livro e sem o qual a versão em português não teria saído. uma semana atrás eu tinha ido tomar um café da manhã com a editora do livro, que também será a editora de um livro meu. aliás, esse era o tema do encontro: tínhamos que conversar sobre o meu livro. o café da manhã foi ótimo, conversamos muito, menos sobre o livro. e antes de eu ir embora a Rita me diz vamos-juntas-para-o-rio! ela tinha descoberto umas passagens mega baratas, ia ver onde poderíamos ficar hospedadas, isso fazia parte de aventura, me disse.
eu fiquei em êxtase. tenho a impressão de que com o passar dos anos - aha, a pessoa vai se entregando - eu aproveito muito as alegrias da vida, como se flocos macios de calor tomassem conta de todo o meu corpo. compramos as passagens, combinamos de nos encontrar na rodoviária, ela tinha conseguido hospedagem para nós duas. Emmanuel, nosso anfitrião, tinha um futon (maravilhoso) onde dormiríamos por uma noite.
como é engraçado perceber a diferença entre o SABER o que nos traz alegria e FAZER o que nos traz alegria. em casa, me preparando para trabalhar, morrendo de sono, depois de tomar um café sinistro em que coloquei a metade do pó necessário para o que seria um bom café, estou feliz da vida.
ah, e antes de terminar: o livro é maravilhoso. traz relatos, alguns h-i-l-á-r-i-o-s, de alunos do Namgyal Rinpoche, que foi o professor do meu professor (e do David Berry também).



algumas janelas são mais belas que outras


amigas do Dharma



missão cumprida


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