três mulheres

ela estava numa festa. uma festa da escola, em que famílias inteiras vão juntas e aproveitam a mesma festa. já era noite. eu a encontro com um grupo de amigos. e ela me conta, um pouco sem fôlego, que encontrou N, um garoto com quem ela tinha convivido bastante no ano anterior. mas em algum momento ele teve o celular roubado ou o aparelho havia quebrado, e ele não tinha mais dado notícias. mas apareceu na festa. ela o chamou, e antes de falar qualquer coisa, deu um tapa na cara dele. depois pediu desculpas. ela me conta que o tapa foi dado sem pensar. e que explicou isso a N, mas explicou também que ele pisou na bola ao desaparecer e nunca mais dar notícias. ele se desculpou.




ela estava procurando uma fila nos caixas do supermercado. era um domingo, e todas as filas eram longas de dar aflição. quando ela passou por mim, ofereci um lugar na minha frente. ela aceitou, sorriu e agradeceu. embicou seu pequeno carrinho de compras na frente do meu, e me contou que tinha dor nas costas. por isso não tinha saído de carro, mas a pé. tinha 82 anos. eu, escutando, fico consternada e pergunto se ela mora sozinha. ela faz aquela cara de quem não está acreditando que eu tomei tal liberdade - mas ela me diz que mora com o marido. 85 anos. chato. passa o dia sentado no sofá, reclamando. "se minhas amigas ligam, ele reclama. se meus sobrinhos ligam, ele reclama." eu dou uma risada, digo que ele parece ser uma pessoa muito chata. teve muitas mulheres. parece que passou a vida ganhando dinheiro e gastando com mulheres e bebida. chegava em casa bêbado. quase todos os dias. ou todos os dias. "e a senhora aguentou?" é, ela me diz. quando se conheceram, ambos eram viúvos, e o filho dela, com 4 anos, passou a gostar muitíssimo dele, um vizinho. ela estava grávida de 2 meses. acabou casando com o vizinho, que já era mulherengo, por causa do filho que se dava com o ele. o marido a ajudou com os filhos, me conta. tinha sido um bom pai. agora era um velho ranzinza. "eu digo pra ele sair, ofereço para levá-lo a um bar, encontrar mulheres, mas ele não quer", me diz. eu descarrego as compras dela do carrinho, ela paga a conta e vai-se embora sorrindo. me diz que se estiver melhor à tarde vai pegar o carro e fazer compras. para ter não ter trabalho, compra comidas prontas. árabes, pois ele é libanês. mas naquele domingo comeriam rondelli, já que com dor nas costas ela não tinha ido ao restaurante buscar comida. ela achava que ele ia gostar. do rondelli.



ela tinha ido a uma apresentação de maracatu. queria saber se poderia participar do grupo. nos encontramos por acaso, na rua, à noite, enquanto o grupo se apresentava. eu já tinha dançado um pouco, estava suada e feliz. nos abraçamos, ó você por aqui, ah, pois é, tudo bem?, tudo, e com você?, tudo. sempre temos muito assunto. nos conhecemos na escola em que nossos filhos estudaram. faz muitos anos, uns dez, talvez. nunca fomos amigas, mas quando nos encontramos parece que somos comadres desde sempre. falamos muito, filhos, maridos que viraram ex, trabalho, dinheiro. R me conta da vida, do divórcio que finalmente saiu, das escolas onde estão os três filhos dela, e me fala como é duro ser a mãe. o filho mais velho mora com o pai, mas quando adoeceu, passou os dias na casa dela. os dois filhos mais novos moram com ela. almoçam com o pai uma vez por semana, dormem na casa dele duas vezes por semana e passam um fim de semana a cada 15 dias com o pai - que paga a escola e o plano de saúde dos três filhos. e ela não considera esse arranjo bom. acha que é pouco, porque sobra muito pra mãe.

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