sobre intimidade, febre e dor de barriga

fui acordá-la de manhã cedo. e ela, ao abrir os olhos, olhou pra mim e começou a chorar, com aquela boca linda, que fica enorme quando ela chora com mágoa.
coloquei a mão na testa dela. estava fervendo. pronto. simples assim. a isso eu chamo de intimidade. mãe conhece o filho e assim fica fácil de perceber quando tem alguma coisa diferente.
resumo da ópera: fui dar um rolê no pronto socorro pela primeira desde que virei mãe, quase 9 anos atrás. lembro de uma vez ter levado um motoqueiro para o pronto socorro. o cara tinha se acidentado na nossa frente, e eu e meu marido colocamos o cara no carro e o levamos, ele sangrando e dizendo que estava tudo bem.
mas desta vez foi diferente. ninguém sangrava. e eu estava com dor de barriga, frio na barriga, embrulho na barriga. liguei pro plano de saúde pra saber pra onde levaria minha filha. e fomos, ela perguntando por que eu estava fungando, e dizendo categoricamente que não permitiria nenhuma agulha espetada no corpo dela. e eu sem jeito pra dizer que não íamos ao pediatra, mas ao hospital, e que sim, ela mui possivelmente teria uma agulha espetada. eu só não sabia em que parte do corpo.
depois da consulta, ela ganhou um pirulito de chocolate, e quando me perguntou o que significava a etiqueta com a data no pirulito e eu tentei explicar que aquilo era a data de validade, ela ficou radiante. minutos depois eu compreendi o motivo: ela tinha entendido que teria de comer pirulitos de chocolate até 11 de junho. fabuloso, não?
no caminho pra casa, eu aliviada porque a médica havia nos poupado do exame com a agulha, dizendo que os sintomas da lívia não era de meningite, um telefonema da escola. meu filho "queria falar comigo", disse a moça cujo nome não lembro, porque ela é nova na escola. menos mal, porque quando é a enfermeira que liga, eu sei que meu filho não quer falar comigo, mas sei que tenho de ir buscá-lo. bem, mas eu tinha de ir buscá-lo, mesmo não tendo falado com a doce catarina. ele me dizia, com voz moribunda, que estava com torcicolo.
lá vou eu.
com o carro cheio, volto pra casa. tralalá. uma doente, outro carente. e uma tentativa de mãe concentrada e dedicada, trabalhando em casa, cuidando dos filhos e ligando pro pediatra conforme a febre aumentava e a dor na nuca não ia embora.
fiquei me lembrando da minha arrogância quando digo que fico sossegada com filho doente. fico, mas fico com dor de barriga, vontade de roer unhas - coisa que eu não sei como fazer, mas que dá vontade -, vontade de fumar um cigarro e tomar um uísque. aguento mas fico rezando, rezando para ter paciência e medindo a temperatura quando minha mão toca na testa quente de quase 39 graus.
e então me deu um cansaço, uma falta de vontade de rir, e eu fiquei pensando em por que que as mães ficam tão cansadas. mas talvez eu devesse pensar um pouco diferente: a pergunta deveria ser por que as mães não admitem e simplesmente FICAM cansadas? será porque assistimos a muitos episódios da mulher-maravilha quando éramos pequenas?

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