o homem com o saco de pão

depois de anos me culpando pela falta de tempo para práticas esportivas, este ano comecei a andar "quando dá". isso quer dizer uma vez por semana, duas vezes por semana ou uma vez a cada 60 dias.
o lugar onde fica a praça é mui lindo, mui limpo, mui asséptico. acho que isso é mania de gente rica. de manhã cedo há serviçais lavando calçadas, outros lavando carros, e outros passeando com os cachorros. o perfume das flores nesta época do ano é maravilhoso, assim como são maravihosas as flores. um tronco de árvore estava tomado, de cima a baixo, de orquídeas floridas. tinha flores brancas, flores amarelas, flores cor de rosa. ah, esqueci de falar dos guardinhas. são muitos, tantos que eu até fico confusa e nunca lembro pra quais eu já dei bom dia.
bem, eis que estaciona um carro ao lado da praça. um carro que chamou a minha atenção por ser um carro comum. não era preto, não era novo, não era um SUV. dele saiu um homem que também chamou a minha atenção por ter a aparência de um homem comum: não usava terno, não estava com o motorista ao lado dele, não tinha cara de almofadinha. ele saiu do carro carregando um saco de papel daqueles de padaria.
eu imediatamente tive certeza de que se tratava de um homem que sabia das coisas boas da vida. e por isso tinha comprado um pãozinho e estava chegando à bela praça para tomar seu café da manhã escutando a sinfonia dos passarinhos.
claro que eu não vi se dentro do saco tinha pão, nem vi se o homem se sentou nalgum banco. mas saí andando com a leveza que as coisas boas e simples da vida nos dão. e lembrei do taxista que esses dias me disse, assim que entrei no carro, que não gostava de trabalhar.
era um senhor com cabelos completamente brancos, e de corpo bem magro. acho que nem era verdade que não gostava de trabalhar, mas talvez fosse uma mentira a que ele já estivesse acostumado a contar havia anos.
ele me disse que tinha o táxi fazia 30 anos. e trabalhava o dia todo no táxi fazia 20, quando, aos 53 anos de idade, havia sido demitido. mas ele contava tudo com tanta leveza que era difícil acreditar nas reclamações.
o meu dia estava chatíssimo, e eu estava adorando dar gargalhadas com aquele senhor. ele errou o caminho, e eu achei ótimo. ia demorar uns minutos a mais para chegar a outro compromisso chato.
nisso ele me diz: eu tenho cinco diretrizes na vida. a palavra "diretrizes" é reproduzida para ser fiel ao que saiu da boca do homem.
e ele os enumerou - e eu rapidamente me pus a anotar, porque tinha certeza de que dali sairia coisa boa. eis as diretrizes:
  • dormir de 6 a 8 horas
  • comer a metade
  • tomar no mínimo 1 litro de água por dia - 2l, se possível
  • não deixar para fazer amanhã o que deve ser feito hoje, nem fazer hoje o que deve ser feito amanhã
  • sorria bastante, de você mesmo, de uma briga, sozinho, alto
"isso você já faz, né?", me disse quando falou a última diretriz da lista. eu desci do carro às gargalhadas.

Comentários

  1. Querida,

    já passa da meia noite, não dormirei minhas 7h, talvez 6h, mas eu tinha que te dizer que AMEI este post!!!!!!
    Bj,
    Dani

    ResponderExcluir
  2. dani,
    a-d-o-r-e-i. que delícia ler isso durante uma reunião chaaata, num dia chaaato.
    bjs e obrigada,
    tita

    ResponderExcluir

Postar um comentário

Postagens mais visitadas deste blog

nunca me senti tão rica

as dores do chute na bunda

Só sendo uma santa