quinta-feira, 10 de maio de 2012

acostumando-se e preenchendo-se

passamos a vida nos acostumando às coisas. podem ser grandes coisas, ou pequenas, não importa. aí quando vêm as novidades, temos frio na barriga, medo de que "não dê certo", um pouco de falta de sono. e então nos acostumamos à novidade, que vira rotina.
lembro quando saí de uma casa enorme para um apartamento enxuto. pensava que não ia caber no novo lar, que não teria como trabalhar com dois filhos pequenos sob o mesmo pequeno teto. coubemos, assim como coube o meu trabalho.
depois troquei um carro muito grande por outro bem menor. comprei um porta bicicletas para carregá-las - transcaloi, como diz uma amiga - e, depois das primeiras reclamações e lágrimas quando armava tudo, me acostumei. agora prendo três bicicletas no tal do transcaloi em menos de cinco minutos.
com o trabalho é a mesma coisa. nos acostumamos com o horário, as pessoas, o caminho para chegar ao escritótios, as tarefas. e se mudar? e se for ruim? se for horrível? se eu não tiver amigos?
e se formos falar de casamento, aí, sim, chegamos no maior medo. acostumamo-nos a amar e a viver com uma pessoa, e depois nem pensamos mais no assunto. é um ponto final bem forte, sem possibilidade de virar uma vírgula, uma interrogação. tudo porque mudar dá medo. e no amor, mais medo ainda. e estou falando de duas pessoas somente. quando há filhos, aí tudo fica maior ainda: o medo, a dor. e a incapacidade de mudar de rumo mesmo.
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fui buscar minha filha numa festinha. o bolo, exuberante, estava sobre um prato com cara de "prato de casa". olhei para o bolo e perguntei para a dona da casa quem tinha feito. ela, uma mulher que trabalhou a vida inteira e que durante grande parte desse tempo teve duas empregadas, tinha feito o bolo. "ficamos a tarde toda de ontem preparando a festa", me contou, visivelmente orgulhosa. elogiei o bolo, e perguntei se era a primeira vez que ela fazia um para o aniversário da filha. sim, era, me disse. até então, as empregadas davam conta do recado. mas ela resolveu parar de trabalhar porque, me disse, via cada vez menos os três filhos. mas, para poder parar de trabalhar, teve de parar de pagar as empregadas. resumo da ópera: ela está não só cuidando dos filhos como da casa também. eu disse a ela que festas feitas em casa têm alma, diferentemente das festas encomendadas. ela riu, acho que com alívio por eu entender o que ela dizia sentia quando mostrava um sorriso feliz durante a nossa conversa.
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ela veio morar no brasil depois de muitos anos. quando a conheci, ela parecia ainda estar se adaptando. um dia, numa viagem, ela conheceu um amigo de um amigo. nada de mais. ele veio visitá-la. nada de mais. e então foram para o casamento de um amigo em comum na europa. ainda nada de mais. ela dizia algo como "tamos nos vendo". um viajava para ver o outro - cada um mora em uma cidade - e passaram dias na europa, mas não era nada de mais. como assim?, perguntei. ela ficou meio sem graça, e acho que no outro dia ligou pra ele pra contar nossa conversa, que tinha acontecido numa bela praça, enquanto olhávamos o sol que se preparava para dormir. hoje soube que ela não acreditava que poderia conhecer alguém legal no brasil. falávamos de como se educa filhos no brasil, com excesso de zelo, e como depois viramos adultos calhordas, numa sociedade que aceita que filhos não saiam da casa dos pais mesmo quando já são adultos, e como crianças de classe média ou média alta não utilizam o transporte coletivo. mas eis que o amigo do amigo virou namorado, e ela nem acredita em como tudo mudou. demos risada quando vimos uma renda fabulosa, e eu disse que quero me casar com um vestido de renda. pensei que ela seria uma noiva chiquérrima com um vestido feito com aquela renda delicada e maravilhosa. mas ela precisa de acostumar com tantas mudanças.
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passamos a vida toda atrás de preenchimento. quero dizer que passamos a vida atrás de conforto - aquilo que sentimos quando abraçamos um amigo querido, quando beijamos um filho que ainda está dormindo, quando vemos uma paisagem nova e maravilhosa, quando ouvimos ondas quebrando na areia, quando vemos o sol se pondo, quando nuvens ficam cor de rosa no amanhecer e enxergamos "um quadro" pelo retrovisor do carro, quando comemos um bolo delicioso, quando damos um bom beijo na boca.
o único problema são as possibilidades de desvio de rota. é quando achamos que um carro novo nos deixará felizes, quando pensamos numa casa maior para 'ter mais espaço', quando queremos comprar para nos divertir, quando convivemos com pessoas que não sabem dar um abraço quente, quando temos falta de ar e achamos que mudando a cor do cabelo vai passar, quando falamos sem parar para não ficar em silêncio, e, pior dos mundos, quando não aguentamos a dor.
vamos nos acostumando a tudo para não deixar nenhum vazio tomar conta. esquecendo que só sentindo o vazio vamos conseguir sentir o cheio. haja coragem.
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2 comentários:

  1. Tita, você escreve cada dia melhor. É impressionante! Parabéns! Bjs,
    Luiza Goulart

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    1. querida, que delícia ler essas palavras numa segunda-feira tão cinza, tão fria. obrigada. beijos pra você.

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